e X a t o a c i d e n t e
Tony Monti lê, escreve e apaga
2007

Capa de o menino da rosa Capa de O Mentiroso








????




*************** blog novo *************

*** Este blog está em novo endereço ***

*** visite: http://www.tonymonti.wordpress.com ***





30.9.07

23.9.07


Marcel

Quando perguntaram o que ele queria ser quando crescer, Marcel percebeu que as pessoas não esperavam uma resposta qualquer. Jogador de futebol. Tinha oito anos e sabia que os homens trabalhavam no banco, como o pai e os dois irmãos mais velhos. Seria assim também com ele. Não era sonho, nem desejo, nem destino sombrio, era apenas o futuro, neutro e sem reclamações.

Depois do casamento, achou que os desejos pelas outras mulheres passariam, que ele ou a vida construiria valores novos para si, mas percebeu, depois de fingir indiferença (e ser mesmo indiferente), que ainda se apaixona por uma mulher em cada ambiente no qual permanecer mais do que algumas horas. Ainda faz como aos oito anos, quando escolhia no ambiente uma menina por quem se apaixonar. E por ela se apaixona.

No banco, já foi gerente de agência, controller, supervisor de produto e responsável pelo atendimento ao consumidor. As mudanças fazem com que se livre da presença incômoda da mulher por quem se apaixona no ambiente anterior. Como é bom amigo, consegue boas indicações para os novos cargos apesar de sua agora crônica falta de atenção.

Na escola, não era brilhante, era bom, eficiente sem muito se esforçar. Agora, no banco, não se concentra no trabalho. Logo que chega, de manhã, senta atrás da tela do computador e começa a fantasiar com a estagiária que deixará a empresa no fim do mês. Marcel ainda não almoçou com ela, o que planejou há duas semanas. Ele pensa também na esposa e na dosagem do remédio.

Depois do casamento, passou a fazer psicoterapia, o que lhe expia algumas culpas. Dois anos depois, passou a consultar esporadicamente também um psiquiatra que lhe fornece as receitas para os remédios.

De noite, sem sono, lê e pensa em si e no ser humano. Não sabe, e isso preocupa, se a literatura lhe ajuda a entender umas dores ou lhe fornece maneiras de doer.


22.9.07


Mauro

Mauro é um pedido de desculpa, me lembra que o pior de mim é o que em mim há de mais vivo. Não é nenhum Mauro que conheci nem qualquer Mauro já escrito. Sua existência pode me fazer um pouco mais generoso e mais vivo. Mauro é um pedido de desculpas feito ou aceito por mim.


Diogo

Diogo é personagem de ficção que é dois. Se fossem dois personagens em vez de um, alguém poderia me acusar de místico, os acusadores, pelo fato de os dois estarem vivos e nunca juntos e nada mais, que duas pessoas não podem ter assim certas ligações absurdas difíceis de definir. Assim, Diogo é um personagem só, mas é dois, e ganha em verossimilhança, porque é difícil argumentar a favor de duas pessoas tão íntimas assim, que tremem assim ao mesmo tempo mesmo de longe. Diogo é quando Diogo é, e é mais fácil defender uma tautologia que uma bobagem dessas de duas pessoas que tem certas ligações e que fazem, um ao outro, tudo muito esquisito, dolorido quase sempre, e mais vivo que os dias ordinários e limpinhos, só por existirem um ao outro.


16.9.07


Lúcio, meu primo

Há algumas maneiras de agradar uma mulher. Poucas são as que me fazem também feliz. Carinho às vezes também afasta. Se quiser se casar, procure uma mulher com a qual se possa conversar, disse Lúcio dois anos depois de se casar com a garota mais bonita da faculdade. Disse que com ela podia conversar sobre qualquer coisa. Antonio, tenho um pouco de inveja dessas complicações que você inventa.


12.9.07

4.9.07


só tem religioso nesse mundo! (meu deus)

Tenho acordado cedo e estudado e corrido no fim do dia e sinto já a alegria que vem do prazer dos músculos e a satisfação de ser um rapaz organizado e poder usar verbos que denotam hábito, repetição, extensão no tempo (tenho acordado e estudado e corrido) mesmo que só tenha feito isso nos dois últimos dias. Descobri que meu envelhecimento, pelo menos enquanto corro, ainda não me faz muito diferente do que eu era há cinco ou dez anos. Quanto ao estudar, guardei dois trechos do Bourdieu para intercalar com esses textos de pessoas com nome, ambos de "As Regras da arte":

"a maior parte das estratégias literárias é sobredeterminada e muitas escolhas têm dois alvos, são a um só tempo estéticas e políticas, internas e externas"

"Sem dúvida porque estão protegidos pela veneração de todos aqueles que foram ensinados, muitas vezes desde a primeira juventude, a cumprir os ritos sacramentais da devoção cultural /.../, os campos da literatura, da arte e da filosofia opõem formidáveis obstáculos objetivos e subjetivos à objetivação científica", ou em resumo: como tem religioso nesse mundo, meu deus!!!








[Powered by Blogger]