O Mentiroso foi escolhido como o melhor texto de 2002 pelo júri do Projeto Nascente - USP.
Tony Monti é paulista. Lê e escreve. Contrariando as previsões mais otimistas, terá trinta anos antes do fim da década. Quando você telefonar para sua casa, ele estará dormindo. Em seus sonhos, ainda mora na casa onde passou a infância. Não pretende mudar, por enquanto.
Helena é como Ari, só que diferente. Quando eu finalmente me livrava dela, ela telefonava e dizia que tinha comprado um presente, que tinha descoberto uma bolsa de estudos para meu projeto nunca começado, que queria me ver uma vez antes de ir para a Espanha (nunca foi para a Espanha). Helena sempre tinha um jeito para eu voltar, só mais uma vez, só mais um pouquinho. Helena me deu gastrite também, mas por Helena fui apaixonado. Com Helena, eu me enroscava de novo. Helena me ajudou quando eu precisei. Depois não pude ir embora por um tempo, Helena me deu colo até eu poder correr de novo. Cheguei a pensar em desistir e deixar que ela tomasse conta de todos os aspectos da minha vida, mas com Helena, do jeito que inventamos nossas estratégias, era eu correndo e Helena a me alertar que eu tinha esquecido alguma coisa com ela, ou ela comigo. Não sei bem se essa é ela mesma, ou se é ela comigo, ou se eu aguardando que ela não me deixe mais ir.
Júlio Gomes
Júlio Gomes anda com uma inclinação mínima do tronco para a frente. Quase imperceptível. A pele secou e enrugou, fruto do álcool consumido em doses grandes e freqüentes, e do tempo, que, aos cinqüenta e nove anos de idade, pode ser visto como mais passado que futuro. Júlio Gomes se movimenta de um jeito lento e envelhecido. Os olhos continuam azuis e parecem vivos como quando aos trinta se preparava para dirigir o primeiro filme. Grande ilusão, porque também os olhos estão gastos, pelo menos pelo ângulo de quem os utiliza pelo lado de dentro. Júlio Gomes enxerga mal. Se o observamos pelas partes - a pele, a inclinação do tronco, a lentidão -, ninguém será engando. Mesmo a cabeça já não funciona tão bem. Ele dá entrevistas e as frases não se ligam com a fluidez que já tiveram um dia. Mas o olhar que analisa perde alguma coisa que muita gente ainda vê. As pessoas querem se aproximar do bêbado sexagenário de olhos azuis, as mocinhas gritam e as senhoras sentem cócegas durante suas aparições. Os homens concordam que Júlio é diferente. Júlio passa entre tímido e grosseiro (reservado). As pessoas só vêem os olhos de Júlio pelo lado de fora. Nos filmes, é das recentes incapacidades que ele fala. Júlio olha de jeitos diferentes. Olhos são coisas muito estranhas.
"A maior dificuldade que um aspirante a escritor enfrenta é escrever bem. Não se deixe enganar por aqueles que dizem que é a publicação.", disse dk em 28/08.
(Quem é dk?)
Concordo, embora uma coisa não exclua a outra.
29.8.07
Livia
Livia (sem acento) tem a bunda em forma de pêra, mas pouca gente sabe porque suas calças e suas saias não são muito justas. Livia puxou um papo sobre formatos de bundas com Antonio descendo a Avenida da Consolação às quatro e meia da tarde de uma terça e Antonio parou de raciocinar. Pêras, enquanto bundas, e maçãs enquanto bundas. Antonio, sem pedir licença, tomou a correta decisão de sentir com uma das mãos a bunda da moça por baixo de sua saia preta.
(depois sentiria o prazer de ter estado em contato com sua intuição mais bruta, mas aí já pensava bastante, foi sua intuição bruta que guiou a mão sem que alguma censura o impedisse de acertar).
Livia gostou. Não corou o rosto branquinho. Tiveram um bom fim de tarde conversando intimidades. Antonio pegou o telefone de Livia, ligou no dia seguinte. Nunca mais se viram.
Ari
No começo, eu não o entendia. Continuo não entendendo, mas sei que talvez não seja por incompetência minha. O Ari não quer mesmo ser entendido; talvez seja essa uma estratégia sua de parecer esperto. Ele nunca explica muita coisa, faz cara de quem sabe, diz que sabe, mas não explica. O Ari gosta dos clássicos - os clássicos às vezes servem é para isso mesmo, para a gente saber alguma coisa sobre eles e dizer que somos mais espertos, e dizer que quem não os conhece é imbecil. E se os outros conhecem coisas que a gente não conhece, a gente pode dizer que o que eles sabem não é Arte, não me interessa. O Ari sabe uns nomes de compositores e escolas e coisa e tal, e acha que saber mais é sempre saber o que ele sabe, cita o livro que está lendo como a grande idéia do universo, acha refinado aquele que escuta o compositor que ele tem escutado. Não é possível saber o que ele está pensando. O Ari fala as coisas pela metade, inventa que tem um segredo, conta o óbvio com a formalidade do sagrado. O Ari é um cara estranho e perigoso. O Ari me dá gastrite.
9.8.07
Quando leio, troco com freqüência a ordem das letras. Isso deve ter cirado algum mecanismo na minha cabeça que se expandiu e faz com que, por exemplo, eu goste da sonoridade de sandozóis dwitches, o blog do PScott.
1.8.07
Bruno
Dentro do Bruno as coisas são muito intensas. Para não assustar os outros, finge que é tudo menos sério. Quando fala, as coisas ficam confusas, não se sabe se está feliz ou triste. Diz que está tudo bem com tom melancólico, diz-se triste rindo. Ele sabe que é melhor manter alguma estabilidade para que as pessoas não fujam. Então ele prefere defender uma opinião com a qual não concorda mais, em vez de expressar a mudança sempre que, dentro dele, alguma coisa mudar. Para Bruno, as coisas mudam muito. Ele olha para você, e gosta de você, mas não é por sua causa, é porque dentro dele é hora de gostar. No dia seguinte, te encontra e é hora de odiar. Então ele te odeia. Mas não é você, é que dentro dele muda muito.