O Mentiroso foi escolhido como o melhor texto de 2002 pelo júri do Projeto Nascente - USP.
Tony Monti é paulista. Lê e escreve. Contrariando as previsões mais otimistas, terá trinta anos antes do fim da década. Quando você telefonar para sua casa, ele estará dormindo. Em seus sonhos, ainda mora na casa onde passou a infância. Não pretende mudar, por enquanto.
[escrever é muito difícil]
(tenho agora colchetes além dos parênteses. Agregarei chaves logo)
Vanessa Nós migrávamos em grupo para a casa da praia. De noite, quando íamos passear no centro, a Vanessa sempre demorava mais para se arrumar. Quando saía do quarto, parecia igual a todos os outros, tão bem ou tão mal vestida quanto nós. Mas estava melhor. Nos detalhes, visíveis mas irreconhecíveis, a Vanessa passava horas. A bermuda, a camiseta e o chinelo, de um modo que ela sabia e nós não, ficavam melhores nela. Horas de arrumação para sair igualzinha aos outros.
24.5.07
Marco Marco abraça esquisito, não diz nada ao abraçar. Balança a cabeça concordando com o assunto que não temos, fecha um pouco os olhos, ameaça sorrir, aceita resignado. Sem palavra, compartilha uma idéia de que a vida é mesmo uma bosta, e que continua (que é que se faz?, nós nada, o tempo dá conta), como se quisesse me confortar ao me receber no velório de um amigo dele e não meu.
22.5.07
Carla No meio da bagunça, eu via seus movimentos largos. Quando cansou de dançar, disse ser tímida a alguém que acabava de conhecer (como a menina que enxerga bem e inveja os óculos da colega de classe).
18.5.07
não acabou
8.5.07
o jogo
Uma pessoa sem as duas pernas pode assistir com prazer a um jogo de futebol. Eu sempre gostei de jogos, futebol incluído. De baralho, de bola e de tabuleiro, joguei todos durante a infância. Recentemente, xadrez e um pouco de pôquer. Sem as duas pernas, pode-se divertir com um chapéu ou uma bica no ângulo. Sem conhecer um pouco das técnicas do jogo (e isso significa um pouco mais do que ter duas pernas em relação ao futebol), fica difícil reconhecer beleza no xadrez. Talvez no ritual em torno do jogo, mas não na partida em si.
Jogo xadrez há muito tempo e gosto de ganhar (sem incluir outros parâmetros, prefiro ganhar a perder). Entre as coisas que é preciso aprender existe uma um pouco estranha. É preciso lutar contra certos conceitos estéticos rígidos. No jogo, não se ganha por jogar bonito, a não ser que o conceito de beleza se identifique inequivocamente com a vitória (que é a mais óbvia (única?) motivação do jogo, considerada apenas sua estrutura intrínseca). Mesmo entre os jogadores mais fortes, é comum notar um desejo de beleza que lhes escapa e se sobrepõe à vitória pragmática. Para ganhar, às vezes é preciso esquecer alguns prazeres e se concentrar em outros.
Tentei localizar aqui comigo pontos comuns nos motivos normalmente considerados bonitos em um tabuleiro. Em primeiro lugar, o equilíbrio geométrico em uma de suas facetas mais óbvias, a simetria. Costuma-se gostar de simetria. Depois motivos mais complexos, como a simetria distendida no tempo, a evolução ritmada (aí a simetria) da posição das peças no tabuleiro. Há ainda - aumenta a complexidade - as curiosas distribuições dos campos de atuação das peças. Enfim, muitas e cada vez mais estranhas geometrias, que em nenhum caso são garantia de vitória. Lembrei aqui de mais um motivo estético, a surpresa, mas este tem a vantagem pragmática em relação ao adversário.
A gente é viciado em beleza, alguns colegas enxadristas não suspeitam de que perdem partidas por vícios geométricos, vontade de reproduzir modelos que nem sempre ajudam no jogo (entre tais modelos, inclusive, a vontade de não reproduzir modelos). O xadrez não é a reprodução de uma batalha campal em todos os seus aspectos, nem é a representação de uma tragédia ou de um romance de mistério. Não é preciso dar a vida pela pátria nem salvá-la a todo custo. É preciso apenas salvar o próprio rei e destituir o rei adversário.
Digo agora com cuidado, porque vou utilizar jargão proibido em determinadas áreas e inverter a idéia em geral defendida. A beleza é instrumentalizada sempre. Para que serve, não se sabe. Gosto até da idéia de que não serve para nada (digo isso com motivação estética?). Não digo de motivos simples como ganhar uma partida, ganhar dinheiro, ganhar uma pessoa. Não sei por que digo isso, mas suponho haver um porquê, resposta dessas não encontráveis, dessas que são repetição da pergunta.
6.5.07
sonho
Eu estava meio cansado e sozinho na rua e resolvi ir até a casa onde morei na infância, aquela com que eu sempre sonho. De repente eu já estava dentro do quintal, entrando pela porta da cozinha. Estava escuro e/ou eu não conseguia abrir os olhos. Apareceu uma pessoa, a empregada, ela me chamou de cabeção e disse com carinho que eu podia voltar sempre pra dormir lá, que os donos sempre viajam no fim de semana.