e X a t o a c i d e n t e
Tony Monti lê, escreve e apaga
2007

Capa de o menino da rosa Capa de O Mentiroso








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27.4.07


eu

Esqueci de dizer, na Revista Entrelivros de Abril resenha minha sobre Os jardins de Kensington, de Rodrigo Fresán. Tenho dúvidas sobre o resultado do texto. Podei uma vontade de ser pessoal, de dizer "eu acho", de entregar minhas dúvidas, e talvez tenha caído no contrário disso, de ter sido impessoal demais, de ter feito uma resenha neutra demais. Não sei bem, vejam lá e me digam.

Quando eu estava no primeiro ano da faculdade, na primeira prova de lingüística um colega de sala tirou uma nota muito baixa talvez por querer ser pessoal. Bem em cima da prova, o professor Luiz Tatit escreveu "irresistivelmente poético" seguido da nota "0,75". O colega ficou sabendo que eu tinha conseguido um boa nota e perguntou se eu emprestaria minha prova com as respostas. Eu, que tinha acabado de recebê-la do professor, trazia a folha no bolso, dobrada em quatro partes. Emprestei a prova com a condição de que ele me emprestasse a dele. Fiquei impressionadíssimo. Para uma pergunta sobre Hjelmslev que exigia um bom grau de abstração, ele deu uma resposta que começava com "A vaca de pêlos longos caminhava sobre o gramado verdinho". Na pergunta sobre Julia Kristeva, ele ousou um pouco mais e versou sobre peixinhos que comiam catarro. Tive muita inveja da prova e do comentário recebido por ele do professor.

O concreto e o abstrato, o subjetivo e o objetivo, os pares às vezes se confundem, mas nem sempre, lembro-me de explicações que eu dei sobre isso quando eu era professor de redação. Os alunos achavam essas coisas fantásticas, gostavam de pensar sobre o assunto.

Sobre ser pessoal, consegui satisfazer meus impulsos, de algum modo, até mesmo na dissertação de mestrado. Falei das minhas questões enquanto falava da Clarice Lispector. A dissertação tem uma vantagem sobre resenhas. O leitor da dissertação já leu o livro. Assim, não preciso me preocupar em não revelar alguma supresa que o livro oferece ao leitor desavisado. Não preciso manter ninguém no desaviso. Na resenha em revista, não sei bem onde está o limite ideal entre dizer e calar. Na próxima, incluo mais opiniões em achismos sem avisar ninguém que eu sei que posso estar errado. Ou acho algum jeito estranho de dizer "eu acho" sem que ninguém se assuste. Ou deixo que se assustem.

Veremos.


26.4.07


sobre chutar pneus

O Ferreira Gullar contou que um dia acordou cedo e foi comprar pão. Na esquina tinha um rapaz muito muito bêbado chutando o pneu de um carro. Quando o Ferreira Gullar passou, o bêbado olhou, olhou e disse "Ferreira Gullar, famoso e eu não sei quem é".

Ontem, quando o jogo do São Paulo estava para acabar, eu passava ao lado de um ponto de táxi. Um taxista gritava "esse Muricy é muito burro" e dava pontapés no pneu do carro. Há quem não julgue o Muricy um grande pensador.


24.4.07


sair do lugar, apresentar-me ao acaso
Revi oito e meio. Coloquei-o em primeiro lugar da minha lista dos melhores de todos os tempos da semana. Teria muito a dizer e não vou dizer nada. Voltou o vento na minha cabeça. Tento agora me concentrar em poucas questões, escrever seria um excesso. Certa conteção é necessária. Nesses dias, meu pensador favorito tem sido o Muricy Ramalho (RAMALHO, Muricy). Concordo com quase tudo o que ele diz, é bom lembrar das falas dele quando não consigo pensar por mim mesmo. Tenho a impressão de que temos concepções de mundo parecidas em muitos aspectos.


12.4.07


Leu?


9.4.07


cinema - batente
11

Amiga Júlia sugeriu que eu assistisse Fanny e Alexander. Eu obedeci. Tinha acabado de assistir ao filme e andava ali pela USP quando encontrei justamente a Júlia. Ela me viu de longe e perguntou: "que filme você viu hoje?" Perguntou também o que eu tinha achado e eu, sem saber o que dizer na hora, disse que mandaria três linhas sobre o filme depois. Aqui preencho as três linhas dizendo sobre ela e não sobre o filme. Serve? Ou posso dizer que Fanny e Alexander é cheio de cores e texturas, comentário feitos por ela mesma. Cheio de cores e texturas mesmo.

Assisti ao filme em duas etapas, intervalo no meio. Sem prévio conhecimento, dividi o filme no que poderiam ser dois capítulos. De uma hora para outra, o cenário muda e o que parecia ser uma narrativa bem realista passa a incorporar mais elementos oníricos. Muda também o tom, tudo o que agregava e confortava se transforma, para o núcleo central de personagens, em desconforto pronto a explodir. Não tenho certeza de que explodiu. Explodiu? O Bergman é assim em vários filmes. Alguns elementos, alguns personagens explodem sem se aliviarem ao todo. Explodir assim pela metade é terrível. É uma sobra que é uma falta. E o final do filme é estranho, feliz e triste. Já falei aqui sobre finais, em particular sobre finais de livros. A gente espera que o final seja como o índício de um caminho (normalmente um caminho moral ou uma esperança de justiça, seja qual for). Acho que fui induzido a esperar um final monotônico pelo fato de o bem e o mal serem razoavelmente bem limitados no filme, e pela cadência bem realista do começo. Mas o fim não dá resposta única. Não é também desses finais sem resposta. Ele dá mais de uma resposta para personagens diferentes. É estranho.



Faz um tempo que observo os finais das narrativas. Talvez seja preciso diminuir as expectativas sobre os finais para diminuir uns tipos de esperança. Talvez no fim não haja resposta nenhuma, o mundo fica só isso mesmo, sem explicação. Escrevi o texto abaixo faz uns anos:



O fim da literatura

O livro mais triste que eu li acaba bem. Não sei se é o mais triste. Pensei que fosse enquanto o lia, mais ainda quando acabou bem. Ernesto Sabato contava como tinham dado em nada suas utopias. Não sobrou comunismo nem anarquismo para alimentá-lo na velhice. Nem a saúde, nem a visão. Perguntaram para ele em uma entrevista se ele não achava incoerente ter sido ateu (e militante) durante toda a vida e então, com noventa anos, se declarar religioso. Coerência. Para quem vai morrer. Hoje não beija, amanhã não beija, depois é domingo e segunda, se chegar, talvez eu morra. Coerência. O livro é muito triste. No último capítulo, ele resolve ter esperança. Diz que acredita na juventude, apesar de não acreditar em mais nada e tudo ter se configurado desesperador. A juventude como solução, e não ele - para ele a morte -, é triste demais, mais triste que se a vida acabasse sem sentido no penúltimo capítulo. A esperança me soou tão falsa que comecei a desconfiar de que o fim tivesse sido planejado como ironia. Estranho para mim como o fim religioso para o Raskolnikov, sempre tão racional. Quinhentas páginas de argumentação hard e quarenta de eu aceito. Os fins dos livros são terríveis.

Os fins dos livros são terríveis. A Clarice Lispector tira o chão, todos eles, n'A Paixão segundo G.H. É uma sucessão de nãos e impossibilidades a cada afirmação tímida. E acaba o livro do jeitinho que começou, com seis travessões. Tempo cíclico, anéis sucessivos unidos pelo artifício de usar a última frase de um capítulo como a primeira do outro. E os últimos travessões, no último capítulo, do mesmo modo que os primeiros, no primeiro. Depois dos nãos vem um sim tímido, o de aceitar os nãos como condição e viver dos sins que ela não colocou no livro, a não ser pelo fato de ir dançar no Top Bambino e de vacilar antes de escolher a cor do vestido. É sim e não, a condição humana. Quando a coisa anda, a gente nem lembra que pode não andar; e quando não anda, é o Sabato falso falso dizendo que a juventude, e não ele. Se não sou eu, não é ninguém. Os outros?, Pirandello dizendo: "E os outros? Os outros não estão dentro de mim. Para os outros que me vêem de fora, as minhas idéias e os meus sentimentos têm um nariz. O meu nariz. E têm um par de olhos, que eu não vejo e eles vêem. Que relação há entre as minhas idéias e o meu nariz? para mim nenhuma."

Talvez o livro mais triste tenha sido um outro, um que eu li com sete anos, para a escola. Marcos Robô. O garoto tinha um robô cheio de botões. Botão apertado, o robô ajudava na lição de casa, ou brincava de bolinha de gude, ou contava piada. Vários botõezinhos etiquetados e só um sem etiqueta (a Clarice Lispector gostaria de botões sem etiquetas, eu acho). E, inevitável, eu já gostava do garoto e do robô. E estava curioso sobre aquele botão esfinge. Eu me lembro de onde estava enquanto lia. Deitado no sofá enquanto meus pais viam televisão. Nesse tempo sem grandes ansiedades, se o mundo explodisse, eu não perceberia. Seria preciso me avisar. E o menino apertou o botão e foi o fim. Não acabou o livro. Acabou o robô. Autodestruição. Escondi o rosto para não mostrar que chorava com historinha de livro de criança.

Lembro também de onde estava quando li O Estrangeiro. Estava na praia. Mersault encontrou o árabe ali perto de mim, a uns quinhentos metros, perto das pedras que separavam a Praia Grande de Mongaguá. Gostei do livro do começo ao fim. Triste e tenso do começo ao fim. Absurdo como a vida, eu achava, mas achava bom que fosse absurdo e triste. Uma vez uma namorada me disse que tinha lido um livro e achava que eu ia gostar, que era triste e acabava em morte. Eu tive meus momentos. O Adalberto meu amigo e eu planejamos e nunca escrevemos um livro que acabasse bem, só de sacanagem. Fica mais absurdo ainda. É como o Sabato colocando as esperanças na juventude. Escrevi depois de um tempo um livrinho que era assim. Não sei se alguém chegou ao final feliz, o livro não era grande coisa. Talvez não tenham passado das primeiras tristes páginas.

Apresentado ao Camus, fui procurar um outro livro dele para ler, e achei A Peste. Enquanto lia, a sensação de que iria acabar bem não me agradava. De que adianta uma peste que mata uma população quase inteira e destrói os possíveis prazeres dos que sobreviviem se ela é controlada no final? O livro acabou. Pode ler, é bom, não conto o fim. Antes do fim, queria matar o Camus, porque pressentia o final que afirmava a vida e não o "para a morte" que me tomou por um tempo. Camus, assim como Deus, está morto. Pensei nisso por anos, continuei gostando do Camus, e desconfiando de finais felizes, até que conclui, talvez para não precisar dizer que A peste era um livro menor e que o final... , que se vida ou se morte importava menos que o absurdo da existência, que afirmar vida não era o único contrário de negá-la, e que o fim ser mais um não sei que um sei que não não está mal. E talvez seja eu agora garantindo meu menor desespero quando, como o Sabato, eu estiver à beira do não sei. Amém.


3.4.07


Falta o post do bergman, falta o acento em araçá e falta tanta coisa.mais. Acho que 70% dos meus amigos deveriam ler luto e melancolia, do Freud, ele diz tantas coisas e não explica, uma beleza, Freud não explica, e não resolveria nada na vida dessas pessoas tão legais que são mais melancólicas que lutólatras, teríamos mais um assunto com que brincar, e o bergman amanhã, quase sem falta, e o blog torna-se assim um blog. Muito texto sem sentido e nenhum comentário sem sentido. Isso. Quem me empresta um pícolo?


2.4.07


post - isso é um blog?

28,7 é menos número que 9 ou 10, era o número do capítulo referente à história da espada. Três capítulos nessa semana. Satisfação em ser cordial. Enviei na semana passada uma língua :-p para uma amiga que ficou brava comigo porque eu mandei a língua e não esperei resposta dela. "quase irritante", ela disse. Como não vou revelar os nomes, posso contar a história sem detalhes nem precisão. Hoje, enviei três pontinhos entre parênteses (...) para seis pessoas e não esperei a resposta. Na verdade, esperava a resposta, mas fingi que não. As respostas foram, cada uma de uma pessoa:

1. você está bem?
2. vou fazer um brigadeiro.
3. acho que vou começar a fumar.
4. não entendi
5. ?
6. você está mesmo offline?

Mas não posso ser conclusivo porque uma língua sem sentido evidente é bem diferente de três pontinhos e dois parênteses sem sentido evidente. As conversas se seguiram para os mais diferentes rumos, não importa. Essa semana, troquei Transa por Araçá Azul recomendado pelo amigo Miguel Consciência. Preciosidades neste também. E lembrei de uma história que vou contar ao inverso aqui. Uma vez mandei dezenas de e-mails só com bolinhas para uma amiga, quantidades diferentes de bolinhas em cada e-mail. Ela respondeu "Oba, uma chuva de bolinhas!". Mágicas da comunicação.

Devo o capítulo final do Bergman, logo ele vem.








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