O Mentiroso foi escolhido como o melhor texto de 2002 pelo júri do Projeto Nascente - USP.
Tony Monti é paulista. Lê e escreve. Contrariando as previsões mais otimistas, terá trinta anos antes do fim da década. Quando você telefonar para sua casa, ele estará dormindo. Em seus sonhos, ainda mora na casa onde passou a infância. Não pretende mudar, por enquanto.
Quando fui escolher um filme do Scorsese para assistir, exclui logo O touro Indomável porque era sobre um lutador de boxe. Nunca assisti a Menina de Ouro pelo mesmo motivo obscuro. Mas comentei do Scorsese com uns amigos e mais de um disse que O Touro indomável era imperdível. Gostei e foi pouco pelas cenas de boxe que se tornaram modelo para filmes que se seguiram, Rocky por exemplo. O drama bem contado do cara que era excelente lutando mas tinha dificuldades para administrar as relações fora da luta. Não era um cara mau, não dá para colocar essa etiqueta nele, era um cara complicado. Legal como sutilmente as coisas da vida particular e da vida pública vão se misturando e se influenciando. E a construção de tudo, direção e roteiro, muito inspiradas também.
Enfim, tenho dito nada de cada filme. Pelo menos faz os posts girarem. Boa função para listas, registrar o tempo passando, cada filme que eu vejo, passa mais um pouquinho, desce mais um post de vez em quando.
27.3.07
batente - cinema
9
O Sétimo selo sempre foi um filme estranho para mim, não me agarra de jeito nenhum, a não ser pelas últimas cenas quando a morte é evidente a todo o grupo. O desespero do cavaleiro é comovente. O olhar de uma das moças também. Para mim, é um filme diferente dos outros do Bergman. Embora haja personagens religiosos nos demais, neste a questão é a existência de deus e de alguma salvação (há também o tempo todo a peste, as pequenas e as grandes brigas que tornam a vida concreta na terra algo bem absurdo - forma-se assim o cenário para a busca transcendente do protagonista frente à morte que se impõe - em outros filmes, o que é aqui cenário torna-se o cena).
26.3.07
Alô, tem alguém aí?
batente - cinema
8
O cheiro do ralo é o melhor filme que assisti no cinema esse ano. Alguém vai se apropriar dele com terminologia marxista grosseira e dizer que ele é exemplar para contar uma sociedade monetarista e individualista, mas aí seria submeter o filme à sociedade, como se ele estivesse fora dela, como se apenas a refletisse. O filme é existência ele mesmo, sociedade ele mesmo. alguém vai querer fazer do filme um exemplo para alguma teoria.
Os malucos me fascinam muito. O ralo, a bunda e o olho, fazia tempo que não saía do cinema com vontade de ver o filme de novo.
batente - cinema
7
Mais uma vez a questão dos personagens que falam demais. Acho que há um padrão. Em Sonata de Outono, os personagens falam sozinhos para se dizerem, pensam em voz alta, formalizam em palavras suas dores. É como se fossem narradores de si mesmos. Cada um vai para um lugar, a palavra não serve para eles se entenderem, ela só deixa evidente a impossibilidade de acordo.
E aí veio o Persona e minhas suspeitas ganham sustentação. Uma das duas personagens centrais não fala, decidiu assim. E a outra fala por ela. Conta histórias próprias e às vezes tenta adivinhar histórias da outra. Funciona como narradora de si e da outra. A palavra funciona como máscara e cobre uma existência muda.
25.3.07
amanhã, segunda, como escritores começaram a escrever e publicaram seus livros, no folhateen.
que eu saiba, escritores seremos eu e olivia maia.
e haverá um texto cheio de conectores lógicos.
mas porém assim portanto.
20.3.07
batente - cinema
6
Vontade de me apaixonar, fui assistir à Scarlett Johansson no filme do Woody Allen. Gostei de alguns diálogos curtos (Woody Allen), mas a trama de O Grande Furo, quando não restrita a seqüências breves, tem menos força que a de Match Point. Tive a impressão de que Woody Allen quis repetir a fórmula: um mistério policial em Londres com Scarlett Johansson no papel da bonitinha. Match Point pára em pé. Nele, o rumo de alguns dos acontecimentos é decidido por acasos pouco relacionados ao controle dos homens. Em O Grande Furo, o acaso depende demais da incompetência de um dos personagens.
Há alguns anos, eu andava ali pela Avenida Paulista, um pouco triste e resolvi me apaixonar pela Scarlett Johansson (entrei e assisti a A moça do brinco de pérola). Deu certo. Duas horas de suspensão do meu humor melancólico. Minha previsibilidade é assustadora.
18.3.07
Passei a noite sonhando e julgando fabulosa a idéia de um avião usando pernas-de-pau (as de circo). Depois de horas com essa imagem e entendendo tudo o que agora não entendo, lembrei daquelas aves de pernas bem longas e fininhas. Enfim.
15.3.07
coluna social - leitura de textos e bate-papo na Casa das Rosas,
organização Claudinei Vieira
eu leio (Claudinei observa)
saudável interação entre público e público (ao fundo a foto que a Mari tirou e que virou cartaz).
mais público (atento)
13.3.07
batente - cinema
5
Tenho visto muitos filmes, quase todos bons. Gostaria de escrever pelo menos uma linha sobre cada um. Escrever organiza o pensamento e facilita a memória, o que é quase o mesmo que dificultar a memória. Escrever faz a memória de um jeito e não de outro. Sobre Taxi Driver, eu queria escrever bem mais que uma linha e tenho bem pouco a dizer. O filme me agrada muito em muitos aspectos, mas me foge. Possível que eu esqueça o filme em poucos dias, que logo tudo se torne uma cena ou outra sem sentido, a Jodie Foster novinha ou o De Niro moicano. Forçarei umas linhas sem introdução. Fica sendo a introdução este parágrafo aqui, que quase não se liga aos seguintes. Lembrei do meu molho de chaves, a chave do carro é o chaveiro da chave da porta, e vice-versa.
A sutil tendência a limpeza do personagem central é cuirosa. Pequenas e grandes obsessões por limpeza vêm muitas vezes acompanhadas de inclinações à organização e a rígidos conceitos de beleza ("evidentemente, a beleza, a limpeza e a ordem ocupam uma posição especial entre as exigências da civilização" (Freud, em "o mal-estar da civilização", que, com "evidentemente" abre mão do direito de explicar alguma coisa)). No filme, a obsessão por beleza não é explorada, mas a necessidade de valores rígidos (do personagem), de uma ordem social bem estruturada, é "evidente" e fascinante. Ele se torna um faxineiro-moral, embora não seja fácil fixar os limites de seus conceitos de certo e errado, limpo e sujo. Ele parece ter mais uma necessidade de ordem, seja qual for, do que a defesa de uma ordem específica, de valores declarados. E isso se acopla à idéia de possuir uma missão. Além de criar valores para si, ele se sente responsável por impor valores aos outros.
Mais ainda, sua missão torna-se secreta na medida em que ele não tem imagem social forte. é um taxista, como centenas de outros em Nova Iorque, dentro de um carro igual aos outros. Ele se anula, os passageiros não se lembram dele. Ele não possui amigos, família ou namorada, o que também valoriza a missão. Cumprindo sua missão, ele passaria a ser alguém. E realmente passou, embora tenha cumprido uma missão alternativa.
Para completar, não a Jodie Foster, mas a Cybill Shepherd. Comentei outro dia a estréia dela no cinema, em A última sessão de cinema, ela vale o filme.
Dessa última vez (tinha assistido o filme há quase dez anos), Taxi Driver me lembrou O estrangeiro, do Camus, mas não sei os motivos, os personagens se relacionam meio pelo avesso, não sei bem.
10.3.07
There´s a ball, there´s a ball.
Alemanha x Grécia (video), futebol e filosofia.
9.3.07
batente - cinema
4
Curioso eu ter escrito sobre os personagens que falam demais e sobre os sonhos em Morangos Silvestres. Em Gritos e sussurros, pouquíssimas falas. Bergman 20 anos depois. E sobre o sonho, desta vez em vez de avisar que determinadas cenas eram sonhadas, as personagens travam um diálogo que deixa a questão em aberto.
"É só um sonho."
"Não é só um sonho."
"Talvez para você, para mim não é."
(devo tentar umas palavras sobre Taxi Driver logo, ainda que o filme me escape)
8.3.07
batente - cinema
3
Comecei ontem o ciclo Bergman e assisti ao Morangos Silvestres. Pretendo alternar com o Scorsese (Taxi Driver hoje). Em Morangos silvestres, o fracasso do personagm central é um pouco como os meus fracassos (tenho alguns). Identificar-me com o filme sempre emociona, faz com que eu me sinta menos só por não ser o único solitário (quantas vezes já repeti isso?). Melhor dizer que não me sinto solitário sempre? - é raro, mas é o que dói mais. Quando associada à velhice, como a do personagem, a solidão assusta mais. O personagem não era especialmente triste, apenas um pouco. Simpatizo também com a idéia de associar alguma correção racional e rigor científico à dificuldade de romper a barreira que há entre a minha consciência e uma outra, milagre que se dá provavelmente por caminhos menos racionais e mais incorretos.
Uma impressão neste filme e em alguns outras de época próxima (1957): os personagens falam demais, explicam as cenas em palavras quando haveria alternativas não-verbais. Talvez seja herança da literatura de um cinema que ainda é uma arte recente. Em Morangos Silvestres, por exemplo, o personagem explica verbalmente, mais de uma vez, que determinadas passagens são sonho. Hoje, além de haver na gramática do cinema diversos códigos para dizer isso sem usar palavras, sono e vigília ganharam limites mais fluidos. O espectador de cinema não precisa sempre de uma resposta para a pergunta "sonho ou realidade?" se, por exemplo, sapos começam a cair do céu. Muitas vezes, dizer se é sonho não precisa ser feito nem em palavras nem em outro código.
Em A linguagem secreta do cinema, Jean-Claude Carrière (que trabalhou com Buñuel) escreveu sobre essa gramática que ao longo dos anos foi se constituindo e difundindo entre aqueles que assistem filmes. Disse, por exemplo, que quando o cinema já era bem comum na Europa, uma expedição quis levar filmes a lugares da África onde o cinema ainda não tinha chegado Lá, os espectadores reconheciam pessoas, objetos, movimentos, mas não conseguiam montar enredos minimamente complexos nem reconhecer ligações simples entre uma cena e outra separadas por um corte de câmara. Para tornar os filmes mais (ou menos) interessantes, adicionou-se, ao lado da tela, um funcionário que era encarregado de explicar as cenas à audiência.
A literatura possui também sua gramática específica, seus códigos para indicar determinada coisa sem que seja preciso descrevê-la. Não se trata apenas de dizer de outro jeito, mas de dizer de um jeito que se relacione com regras específicas da literatura, regras que escritores e leitores estão acostumados a decodificar sempre da mesma maneira, e das quais nem sempre estão conscientes. Ter consciência de estruturas dessa gramática pode ser interessante ao escritor para obedecê-la ou propor desvios (enfim, só um pensamento).
6.3.07
batente - música
Já disse aqui, faz tempo sim, que o Transa do Caetano Veloso criou vincos no meu cérebro. Eu o escutei tanto que não conseguia não o escutá-lo em quaqluer lugar. Queria ler e era Transa o que tocava na minha cabeça, queria dormir, mas o som perturbava meu sono. A maior parte do disco me chega com um grande ritual fragmentado. As frases se repetem, os sons se repetem, não é algo que prometa chegar em algum lugar, é um pouco o contrário disso, um disco para esquecer que o tempo existe. Música é sempre um pouco assim, mas há música que aponta para a frente e lembra tempo passando o tempo todo e música que é mais cíclica que volta ao começo. No mínimo, depois da última faixa do Transa vem a primeira. na minha cabeça, todas as faixas misturas, pedaço de uma, pedaço de outra.
Desse disco, uma ou outra canção, para mim, é descanso do transe. Faz parte do ritual, mas ainda não é o caos instalado. Gosto demais, dentre esses momentos, da "Mora na filosofia", que não é do Caetano, mas do Monsueto. Eu, com minha imensa dificuldade para decorar letras, transformei-a também, na cabeça, em uma única frase que se mistura ao restante do disco "mora na filosofia / pra que rimar amor e dor?". De vez em quando, volto ao disco para me alimentar com mais um trecho.
Também do Monsueto, a complexa (!!) "me deixa em paz", em que o ritmo anuncia uma explosão de prazer e a letra "você arruinou a minha vida, ora vá mulher, me deixa em paz". Linda linda, também pelo restante da letra que eu esqueço por limitações intelectuais.
(
Se você não me queria, não devia me procurar
Não devia me iludir nem deixar eu me apaixonar
Evitar a dor é impossível
Evitar este amor é muito mais
)
Procurei no youtube uma gravação dela, mas só encontrei um trecho, sem o apoteótico refrão.