O Mentiroso foi escolhido como o melhor texto de 2002 pelo júri do Projeto Nascente - USP.
Tony Monti é paulista. Lê e escreve. Contrariando as previsões mais otimistas, terá trinta anos antes do fim da década. Quando você telefonar para sua casa, ele estará dormindo. Em seus sonhos, ainda mora na casa onde passou a infância. Não pretende mudar, por enquanto.
literatura? Uma observação rápida sobre o finado campeonato brasileiro.
Quais seriam as melhores posiçôes para uma equipe ocupar ao final do campeonato? Na minha opinião, tirando a primeira e as que levam à Copa Libertadores da América, exatamente a décima sexta. Para alcançá-la, o Palmeiras depende apenas de manter o desempenho dos últimos jogos: perder mais uma vez na última rodada. Ir à Copa Mercosul é castigo menor apenas que ser rebaixado. Sendo assim, com o menor esforço necessário, o Palmeiras fica atrás apenas dos cinco primeiros colocados (ou quatro, se considerarmos que o Internacional se esforçou demais para nada, pois não ganhou o campeonato e já estava classificado para a Libertadores). Concluo desse modo que o Palmeiras foi o quinto ou sexto, dependendo dos critérios, neste último ano, posição apenas um pouco inferior aos quartos lugares dos anos anteriores.
Você escondeu o rosto. Eu segui, dei duas voltas no quarteirão, rápido. Percebi a vontade de correr quando já a tinha controlada. Passei pela primeira vez na mesma esquina e você não estava mais lá. Almocei com pressa. Tive dificuldade de engolir. Sua existência me assusta. Nas semanas seguintes te encontrei mais quatro ou cinco vezes em situações diversas, quase todas sozinho. Fico paralisado. Impossível continuar. Os pequenos movimentos me são vedados - nesses momentos, se dou um passo, tenho que correr. No fim, volto a respirar (a memória da respiração às vezes me salva).
Foi há duas semanas que surgiu a dúvida. Eu pedia uma cerveja quando apareceu você, com uma camiseta dessas que você usa, com aquela saia de quando nos conhecemos. Você lembra. A gente andava, dois paulistas em Porto Alegre. O vento balançava de leve a saia e seu cabelo lisinho. Você me disse, quando te convidei para passear comigo, que você ia me convidar para passear. Gostei do seu jeito de mentir. Pois então, você apareceu, há duas semanas, era São Paulo, como em todas as últimas vezes. Eu te olhei bem e você estranhou. Talvez tenha gostado. Tentei não te assustar. Cheguei mais perto e vi que estava um pouco mais magra, os olhos um pouco mais claros. Uma noite de dúvidas. Esqueci seu rosto, Alice.
Continuei te encontrando em todos os lugares. Na semana passada, encontrei três vezes a mesma garota, em três lugares diferentes, e nas três vezes, no fim, era ela. Confesso que me apaixonei. Rapidinho. Passa. Quando descubro que não é você, passa mais rápido. Antes de descobrir, no entanto, sinto meus músculos tão vivos que tenho medo deles. Se é você - e tem sido você cada vez menos -, paro, ou vou embora logo que possível. Se não é você, a vontade é de chorar. Depois me apaixono - as coisas têm se repetido -, canso e saio abraçado à idéia de que me enganei mais uma vez.
Ontem quando você apareceu, eu não estava sozinho. Lembra do Pedro?, ele estava comigo. Percebeu meu susto, mas comentou que eu já falava mais sossegado de você, Alice, que eu já conseguia rir das minhas impossibilidades. Ele viu que eu olhava fixo para seus olhos. Disse para eu parar, que te assustaria. Disse também de brincadeira - percebeu o que me perturbava - "se a Alice aparecer, eu te aviso, não precisa se preocupar". Ele me sossegou bem humorado de um incômodo que era de verdade. Eu não sei mais teu rosto, qualquer uma pode ser você. Foi então que apareceram a segunda e a terceira, na mesma noite e no mesmo lugar. Quase dois anos contigo, Alice. Uma era um pouco mais alta, uma bem mais magra, uma usava aparelho nos dentes, o que dava um ar adolescente que, desde que te conheci, você nunca teve.
Não eram você, entende? Mas eu nunca sei.
Tenho tido medo de olhar para os lados. Alice, quando a gente se encontrar, na próxima vez, me conta alguma coisa da gente, me dá certeza de que não me enganei todas as outras vezes.
14.11.06
Tenho lido Drummond (A literatura estragou tuas melhores horas de amor)
, mas pouco entendido, ou muito,
fato é que eu concordo sem antes discordar,
não queria assim.
Nem me assusto com as conclusões.
Eu gosto é de mudar de idéia.
12.11.06
Andava ontem pela rua sem procurar por muita coisa quando apareceu no chão não uma chave perdida mas uma fechadura. O mundo do avesso, um bilhete em branco anônimo escrito num guardanapo.
10.11.06
saudade dos anonimistas.
até deles.
6.11.06
coisas que dão na barriga
Poder não é liberdade, são coisas diferentes. Poder não é obrigação nenhuma, liberdade talvez seja. Acho que poder não dá enjôos. Liberdade, acho que dá. Tem coisas que a gente pode, se quiser. Tem as que não pode, nem se quiser. Enfim, cortei o cabelo, sei como fazer. Agora quero que ele cresça (mas não consigo). Quase sempre, quando bate o vento, eu seguro os cabelos (eu gosto de não segurar, pode também).
Às vezes eu acordo tarde, às vezes não. Tem gente que acorda cedo todos os dias. Eu bebi fevereiro, acordei em março, meio tarde. Quanto eu te abraço, você pode dormir. Eu tomo conta do vento, seguro seus cabelos. Ou a gente se estapeia até cansar. Descansamos juntos. Não é de um jeito só. Achei muito estranho seu jeito de me abraçar, tive a impressão de que você tinha medo de que eu não deixasse você ir. Eu deixo. É estranho ter que dizer.
Ficar velho é ser do mesmo jeito sempre, só um pouco pior a cada dia. Eu preciso mudar. Às vezes deixo que o mundo dê conta disso. Escrevi, escrevi. Entendi agora. Acabou. Eu corto o cabelo, mas quem cresce o cabelo não sou eu. Bem no instante em que a tesoura corta um fio, ele está crescendo. É que cabelo cresce bem devagar. Difícil é cortar as coisas que crescem rápido.
Vou trocar, no próximo livro, a descrição "Tony Monti lê e escreve" por "Tony Monti lê, escreve e apaga".
apaguei. não deu tempo de ler?
foi.
de novo.
tá tudo ali em cima, publiquei de novo, dessa vez é mentira (nas outras, é sempre verdade)
3.11.06
melancolia - comentário extemporâneo
Tristeza, para mim, dói, e não pode ser bonito. De tanto eu achar estranho e as pessoas dizerem o contrário, começo a entender. Tem tipos diferentes de tristeza. Eu acho que tem um tipo só, mas as pessoas usam as palavras de jeitos diferentes.Tem gente que chama de tristeza o reconhecimento da tristeza. Vê-se um filme em que pessoas sofrem por situações que são consideradas dignas de serem sofridas. Chamam isso de tristeza, e eventualmente acham bonito. Outros se vêem em situações dignas de tristeza e, sem estarem tristes demais, conseguem olhar para a situação supostamente triste com distanciamento. Mas essas duas são tristeza distante, tristeza de dicionário. Um terceiro tipo dói. Difícil achar alguma coisa bonita quando dói, menos ainda a dor em si. Dói e os motivos importam pouco. Acho até que os motivos a gente muitas vezes nem conhece. Quando dói, a gente procura o motivo e atribui a dor a alguma coisa, porque a gente precisa fugir da dor. Mas só dá certo quando a gente, por mágica, foge da coisa certa.