O Mentiroso foi escolhido como o melhor texto de 2002 pelo júri do Projeto Nascente - USP.
Tony Monti é paulista. Lê e escreve. Contrariando as previsões mais otimistas, terá trinta anos antes do fim da década. Quando você telefonar para sua casa, ele estará dormindo. Em seus sonhos, ainda mora na casa onde passou a infância. Não pretende mudar, por enquanto.
(ainda refletindo sobre a sensação de ter encontrado meu livro em um sebo)
Ainda gosto de beleza, apesar de tanto ter pensado sobre isso no mestrado, já finado, e na vida. Pensar nos faz perder umas coisas e, talvez, ganhar algumas. Enfim, beleza ainda me é um bom motivo para adiar os dias. Assim, antes de um texto sobre as eleições e de um sobre a Mostra, uma imagem assim das lembranças mais bonitas dos últimos anos, sonho bonito em dias de política e filmes.
27.10.06
um blog isso aqui - sangue
sensação curiosa essa de receber vários resultados de exames e tudo bem.
a vida.
nível de açúcares, nível de colesterol, contagem de plaquetas em dia.
se eu tivesse que me preocupar com as plaquetas, ah, as plaquetas.
gostei muito, pretendo repetir.
estranho muito ter saúde.
25.10.06
republicando (continuo)
Já havia visitado o Prado e o Reina Sofia, o palácio e os jardins. Deixou o metrô na estação Goya. Termômetros a quarenta graus. Desceu a avenida e virou à esquerda, rápido. Esforçou-se para não ler o nome das ruas. Pegou mais duas esquerdas e atravessou uma galeria distraindo-se sem se deter demais em alguma vitrine. Na rua de novo, subiu rápido e virou à direita. Muita gente se acumulava em uma praça, o que dificultou a travessia. O esforço para esquecer colava-o à consciência. Num extremo da praça seguiu uma viela. Entrou numa bifurcação e seguiu reto por algumas quadras. Virou à esquerda no fim da rua. O ambiente já parecia um pouco diferente. Menos pedestres e ar de bairro residencial. Pegou mais cinco ou seis desvios, lento agora, e encontrou uma praça arborizada com um único banco no centro. Ao lado, um bebedouro. Matou a sede, sentou-se e concentrou-se em acalmar a respiração. Perdera-se em Madri.
Monica Berto me presenteou com a ilustração inspirada n´O mentiroso. Ela disse que é só para informção. Só informação?, peguei para mim, agradeço o regalo.
9.10.06
roraima Roraima existe - diferente do Piauí, que é fictício -, e seu governador se chama Otomar Pinto.
8.10.06
o marinelli
Nas últimas semanas pessoas diferentes me emprestaram dvd´s sem que eu os pedisse. Dos quatro, três Fellini´s. Lembrei do Marinelli, já publicado em um e outro lugar pela internet. Gostei nessa última lida menos do que achei que gostaria do texto. Vou relê-lo com cuidado nos próximos dias.
5.10.06
desenhinho - convocação
O texto das calópias, ali abaixo - "sono" -, teve ilustração na Revista Pesquisa Fapesp. Tenho gostado de ver minhas coisas ilustradas, mas no caso das calópias, fiquei apreensivo. O texto não descreve os bichos, não seria razoável (para mim) que a ilustração o fizesse. Antes de ser publicado, a ilustradora me enviou um e-mail dizendo que tinha adorado o texto, que o texto tinha feito sucesso na redação da revista. Disse também que, para ela, as calópias eram assim assim assim. Boa idéia dela, não colocou assim assim assim na ilustração. Gostei.
Tenho dado sorte com ilustrações. As da EntreLivros, quando uns continhos saíram lá, são ótimas também.
E do tigre do NaTábua, que acompanha nos cartazes "O silêncio das árvores" (ali embaixo), gostei muito também.
Uma vez ilustraram o "mundo animal", que está n´O mentiroso, para a revista Metamorfose. Simpático o lagartinho que ilustra o texto.
Agora, dois projetos na cabeça para ilustradores amigos. Acho que os continhos da série "o menino da rosa" (dos quais grande parte publiquei aqui meses atrás) poderiam ficar agradáveis se bem ilustrados. Pensei, sobre isso, que sou bem chato quanto aos meus textos. Não gosto de vê-los alterados sem que eu concorde. Uma ilustração poderia modificá-los bastante. Chato e o contrário também, acho: ilustradores, apresentem-se. O contrário, digo, porque, se não, ilustrador nenhum aparece.
E tem também um projeto maluco que apresentei ao Gil Tokio ... maluco demais, Gil? Gil é bom demais no que faz, queria dividir um pouco da minha loucura com ele.
texto muito longo esse último, hm? poucos comentários (nenhum), ainda os aguardo.
mas sigo.
3.10.06
as bestas
Depois de ler "o silêncio das árvores", o sempre atento Marcelino Freire disse sorrindo "Tony, meu amigo, você está criando um bestiário". Vistos estes últimos textos publicados aqui, difícil discordar. Um tempo depois, a revista PesquisaFapesp me pediu um conto e, como sugestão, propuseram que tivesse temática científica. Assim como no texto do Grand Guignol, me senti pressiionado pelo tema proposto. Escrevi um conto e não gostei dele. Resolvi escrever outro, inteirinho, e saiu este aí embaixo. Mais um para o bestiário.
Outra coisa que me apontaram no que eu escrevo é que os personagens dormem, acordam, sonham, falam do sono, têm insônia: verdade, percebi depois - este também:
Sono
Dentro das gaiolas, as calópias dormem. Perkins, nos Procedimentos Gerais, recomenda que se aproveite o tempo livre, quando quase nada acontece, para fazer as reflexões sobre o contexto e o observador. Tenho dormido pouco. As calópias estão mais previsíveis. Dormem, comem e, cada dia menos, se reproduzem. De noite, separadas por grades, já não gritam como faziam meses atrás. O campus é enorme. As salas de aula, as bibliotecas e os restaurantes estão vazios e fechados. Um ou dois carros por hora. Poucas janelas iluminadas, não a minha. Há uma sala ao lado para o caso de precisar de mais luz. Aqui, penumbra, escuro para as calópias dormirem e claro o suficiente para eu tomar nota da evolução do treinamento.
O Procedimentos recomenda alongamento e pequenas caminhadas durante a noite. O Handbook diz que na idade em que estão as calópias, abandoná-las por mais de quinze minutos é correr risco de perder o eventual momento em que o doppelt aparece (fascinante, sem dúvida). As caminhadas tornam-se então bem curtas. Devido também ao sono, deixo de lado os exercícios. Sei, por experiência, que resisto bem com café e coca-cola. Dormirei às oito, em casa.
O que me desagrada é que os turnos deixam pouco tempo para minha vida social. Quando entro, às dez, há quem esteja saindo para um bar, entrando no cinema, trepando ou, apenas se assim escolher, dormindo. O sono me pressiona fisicamente, me deixa cansado e de mau humor. Mas amanhã, quando acordar, é a vida social que me fará falta.
Enquanto dormem, é pouco provável que as calópias se sintam oprimidas pelas grades que as isolam. Durante o dia, o gradil todo aberto, circulam pelo viveiro. Algumas ficam paradas por horas, olhando, olhando. Não quero insistir demais no assunto, as calópias têm dormido muito, às vezes também de dia. Não há nada no Handbook sobre elas sonharem ou não. Dois artigos alemães recentes dizem que sim, mas a interpretação das medidas da atividade cerebral não convenceu toda a comunidade.
Preciso acordar, preciso comer. Na copa há um microondas. Coloco para esquentar, juntos, café e uma torta pré-cozida. Volto ao meu posto de observação. É onde acabo o lanche. Passo os olhos em todas, uma a uma, como instrui o Handbook. A calópia do cubo dezessete está de olhos abertos. Por que acordada? Seis meses sem nenhum doppelt. Pouco razoável que apareça um no meio dessa noite cansada. "... interrompe a cadência a nota mais tensa /.../ a novidade da descoberta se manifesta tantas vezes no susto ...", lembro desse trecho do mesmo Perkins num ensaio polêmico, tão inspirador quanto pouco científico. Manter os olhos abertos, mesmo nas noites mais paradas (num tom mais próximo ao do Procedimentos).
Ela não se mexe. Nunca vi uma calópia dormir de olhos abertos. Se ela notar o pouco espaço e as grades, poderá gritar e acordar todas as outras. O preto dos olhos brilha na penumbra, é como se ela me olhasse. Se está mesmo acordada, é provável que me olhe, que me procure, apesar da visão fraca desses bichos. Devo torcer para ela voltar a dormir ou, pelo menos, ficar em silêncio. Sinto-me estranho. Aguardar que algo aconteça não me parece, agora, tão científico. Nas últimas duas ou três horas do turno, meu humor vacila um pouco. Costumo me concentrar para não menosprezar os detalhes enquanto repito para mim que, depois de dormir, a vida volta a ter sentido.
De olhos fixos na gaiola dezessete, reconheço que é estranho que a calópia não seja, como eu, um animal de olhos abertos na frente do qual passa um mundo (que ela seja mais mundo e eu mais consciência). Torço pelo seu silêncio, torço pelo seu sono, não há o que fazer, apenas ficar sabendo, anotar, organizar, classificar. "Dopadas e com quatro dos cinco sentidos diminuídos, suas unhas afiadas ainda apontam rápido para a região do corpo que for tocada". (do Handbook). Observo e anoto. Escrever bastante ajuda a ficar acordado, atento ao que se escreve. Duas horas para o fim do turno, vou perdendo a curiosidade pelo doppelt improvável e ganhando curiosidade pelos motivos da minha espera. Será que não há mesmo o que fazer? A calópia me observa enquanto escrevo. Percebi um movimento acoplado de olhos e de cabeça quando virei uma página.
A fêmea da gaiola doze está doente há dias. Nada específico, está velha. Uns suecos, na festa de encerramento do último congresso, disseram que a carne das calópias tem seus apreciadores no meio acadêmico. Invento um personagem, que não sou eu, para dizer que poderia experimentar a fêmea doze, que vai mesmo morrer em uma ou duas semanas. E imagino, agora eu mesmo, que seria menos estranho comê-la que observar sua morte. Observar e tomar nota. As coisas acontecem, uma fêmea morre, alguém abre os olhos durante a noite, mas não grita, e assim não assusta quem dorme - e eu fico sabendo. Comer a carne seria mais ativo que esperar um doppelt, que ninguém sabe se acontece mesmo ou se meia dúzia de nórdicos beberrões o inventaram durante uma noite sem dormir.
Me perdi de cabeça baixa olhando o papel por dois minutos. Os olhos pretos da calópia me acompanham. Quinze minutos, é o que diz o Handbook. Melhor eu me exercitar, em menos de dez minutos retomo caneta e papel. Retiro a camiseta e inicio a seqüência curta de alongamentos. Sentado no chão, busco as pontas dos pés enquanto, tenho certeza disso, a calópia me olha. É bom sentir o chão gelado na pele nua das costas. Tendo sempre a interromper a série. Hoje o que eu penso é que eu queria levantar para perguntar baixinho para a calópia o que é que ela está esperando. Cada dia tenho um motivo. Eu não falaria mesmo com ela, mas a vontade de perguntar é verdadeira. Ou eu falaria, mais uma vez inventando um personagem, sem esperar de verdade uma resposta. Quero muito uma resposta.
Porque quando eu olho a calópia da gaiola dezessete, eu espero, apenas espero, que ela faça alguma coisa nova. É como se o mundo se mexesse de uns modos, às vezes de outros, e eu apenas olhasse, anotasse, organizasse, sem que tivesse escolhido muita coisa, sem que eu matasse uma calópia que vai morrer em duas semanas. Minha mão corre e guarda umas linhas no papel porque não é possível guardar tudo apenas na própria memória, e assim o papel e meu cérebro se assemelham, e também minha mão que corre o papel com uma caneta. E é como se eu observasse minha mão correndo, como se ela também estivesse do lado de lá, no mundo, em frente aos meus olhos e aos olhos da calópia sem que eu escolha demais o modo como tudo se move. Ainda assim, sei que em alguma horas, logo depois de dormir, terei a sensação de poder escolher e a vontade de continuar organizando, classificando e selecionando como se as minhas mãos se movessem por minha exclusiva escolha e como se eu não estivesse apenas esperando que algo interessante apareça do nada.
2.10.06
"A falta de respostas me traz às vezes uma vontade enorme de agredir. Transitar no descontrole que é não se entender me é ainda sofrido. Ainda não lido bem com estar assim perdido. Parece, muitas vezes, que destruir o de que mais gosto é o jeito de ter alguma liberdade para construir qualquer coisa. Quando o grito vem subindo até a boca, tento dizer baixinho para mim e para quem estiver perto que é melhor conversar depois, mas nem sempre dá tempo."
(achei num blog amigo, copiei)
Collor é eleito senador no lugar de Heloisa Helena. Tá certo (a ficção já volta).
1.10.06
colombo - pausa curta na ficção
Para presidente não foi fácil. Votei Cristovam Buarque, não exatamente por ele, menos ainda pelo partido, também não para provocar o segundo turno. Votei nele pela simpática idéia fixa do rapaz - educação. Não sei bem se o ser humano tem jeito, é. Votei nulo em Cristovam Buarque.