e X a t o a c i d e n t e
Tony Monti lê, escreve e apaga
2007

Capa de o menino da rosa Capa de O Mentiroso








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28.9.06


amor
Para seguir (e encerrar?) o ciclo de republicações, mais uma história de amor. Peceberam que as anteriores eram de amor também? Este conto foi publicado no Projeto NaTábua, faz um tempo. Pouco antes da publicação, chamava-se "amor". Minha amiga AnaP diz que os personagens somos eu, ela e o cachorro dela (o Jorge, que deveria se chamar João e agora se chama Billy).

Na Festa Literária de Paraty FLIP 2005, houve uma exposição dos textos do NaTábua. Conheci lá o poeta Chacal. Conversamos um pouco e ele perguntou "qual é o seu?", apontando para a parede onde os cartazes estavam expostos. Eu disse. Ele foi ler. Eu esperaria ele voltar. Estava com pressa, queria assistir a uma palestra perto dali. Mas o Chacal não saía da frente do texto. Dez minutos, quinze minutos, texto de uma página só. Quando vi que já tinham passado vinte e cinco minutos, fui até o Chacal e disse " tô indo, a gente conversa mais tarde". E a resposta dele "ainda não li o texto, fiquei paralisado na primeira frase".

.Tony, Indigo, Del Fuego, Chacal, Marcelino e Adriene

De noite, Paraty é uma festa, encontrei o Chacal na praça. De vez em quando ele olhava para mim e repetia sorrindo "Por anos as árvores cresceram em silêncio". O texto:


O silêncio das árvores

Por anos as árvores cresceram em silêncio. Houvesse um enorme aquário no apartamento de cima, não seria diferente. Imaginado de dentro do apartamento de baixo, é como se houvesse nada. Ontem começou a poda. As motosserras tremem o prédio todo em mim. Liga, desliga. Na minha cabeça. Fim da manhã. Descabelado e com olheiras caricatas, andava de um lado a outro. Sair já não faria sentido: Ana chegaria em duas horas. Não dormi de novo (hoje tenho um motivo - a motosserra -, mas não se trata de ter motivos). Quantos dias ainda?

Liguei o chuveiro e sentei, joelhos dobrados e abraçados, sob a água. Uma hora de sono me daria, imagino, equilíbrio para não me dividir em pedaços cortantes demais. Nem um minuto consegui.

Deixei nu o banheiro e tirei a caixa da pistola da cômoda. Ana Paula não gosta quando eu mato gente. Eu subiria as escadas, arrombaria a porta e daria todos os seis tiros. Voltaria e esperaria Ana, dormindo.

Repeti o procedimento como um mantra. Vesti qualquer coisa ainda molhado e preparei a arma. Quando coloquei os pés fora do apartamento, Ana descia a escada com o tigre. Linda. O tigre brincava com correntes e pedaços de metal. A cada dois ou três segundos, lambia os beiços manchados de sangue. Só então notei que o barulho cessara.

Ana, num abraço, recolheu meu medo e meu sono.

Antonio, querido, não se preocupe. O tigre fica aqui fora hoje. Vamos dormir.


26.9.06


o romance
início de combate, perco por pontos.


25.9.06


Republicando, mais uma vez, esse que já esteve aqui umas três vezes. Feio e rápido.
(inspirado em conto de Nelson de Oliveira)


Clara Mcpiffs

Ana Clara é a mulher mais bonita deste mundo. Não conheço outros mundos. Ana Clara tem um tipo de beleza que se renova, que inclui na beleza a própria reafirmação. Foi linda a Clarinha sem seios. Quando os seios cresceram, senhorita Clara tornou-se linda. E já era antes. A beleza da jovem e desejada senhorita Clara transformou-se, após o casamento, na beleza da desejada, desejo jamais declarado, senhora Ana Clara Mcpiffs. Linda, sempre, e sempre diferente. A linda senhora Mcpiffs de segunda passada não era a linda senhora Mcpiffs de ontem. E a de anteontem, não a vi neste dia, era a linda senhora Mcpiffs que, por não tê-la visto, imaginei.

Ontem, Ana Clara foi atropelada. Uma perna e uma orelha destruídas, a cabeça amassada. No hospital, antes de a morte ser declarada, enquanto a reanimavam, arrancaram-lhe a perna e a orelha, e deram uma desamassada na cabeça. Acabo de voltar do enterro. Ana Clara, com seios, sem uma perna e sem uma orelha, é a mulher mais bonita deste mundo.


20.9.06


Há algum tempo, o escritor Jorge Rocha me convidou para escrever um texto nos moldes do teatro Grand Guignol. Aceitei meio sem saber sobre o que escrever, que de Grand Guignol meus textos pouco têm. A proposta do Grand Guignol é um teatro com muitas víceras, sangue, fluidos, escatologia. Belezas desse tipo. Tentei umas sujeiras particulares, mas não encontrei uma que virasse texto. Foi quando encontrei um amigo numa festa, graduado em podridões nojentinhas. Contei a história do Guignol e perguntei rindo se ele não me arrumava um tema. O Toshiro respondeu sério:vou pensar.

Meia hora depois, aparece o Toshiro, biólogo de formação, me dizendo: Tony, tem um peixinho...

O texto, que o Julián não gosta proque não gosta e a Fernanda porque gosta de coisas bonitas, vai a seguir, sem bula:

Candiru

Pelo buraco, pensou, mas sem as palavras. Guiou-se pela temperatura do líquido. O túnel que se seguiu era escuro, estreito e quente. Para não ser vencido pela corrente e pelos músculos, colocou em guarda os espinhos da base da cabeça e os prendeu nas paredes do orifício. O rapaz, apesar do incômodo, continuou olhando para a moça que se aproximava vencendo as leves ondulações do riacho. Ambos nus, separaram-se por minutos, como parte de um ritual. Ambos, quando distantes, descarregaram as bexigas, antes repletas do que restou da muita cerveja que beberam.

Aos primeiros novos contatos táteis dos dois, a dilatação da vagina da moça e o calor dos corpos atraíram dois invasores para dentro dela. Cravaram os espinhos. Diferente do que aconteceu com o rapaz, formalizou-se um pensamento na moça. Entrou alguma coisa em mim, e o rapaz sorriu. Mergulharam na água lamacenta. Brincando, assim, faziam circular em seus corpos as substâncias necessárias para esquecer o incômodo e a dor.

Uma multidão de pequeníssimos peixes nadava em volta dos corpos quentes. Buscavam guelras mas não as encontrariam. Orelhas, nariz, boca e ânus também foram invadidos. Os corpos se paralisavam. O momento humano, no entanto, não foi adiado. O pênis ereto do rapaz tornou-se alvo mais fácil. Esfregavam os corpos que, ainda não percebiam, já sangravam. Os seios, os braços, as pernas e a dor. Duas dúzias de pequeninos animais cravavam seus recursos no que lhes parecesse guelras de peixes maiores. Obtinham, pelo esforço e pelas habilidades adquiridas ao longo de milhões de anos de seleção, raspas de tecido sólido e sangue.

Poucos minutos até que pênis e vagina se encontrassem. Das orelhas, os peixinhos se espalhavam pelas cavidades da cabeça. Enquanto seguiam o movimento periódico, os olhos avermelharam até que a primeira gota de sangue escorreu de um canto de olho ao riacho. Beijavam-se e cuspiam sangue e pedaços de peixes. Os corpos em contato íntimo garantiam a minimização da dor que circulava no corpo como sangue.

As pernas e os braços começaram a inchar com os primeiros entupimentos. Reflexo incontido, os sistemas digestivos vomitavam tentando expulsar os corpos estranhos. Pedaços de invasores saíam em vômito junto com tecido dos próprios corpos.

Não mais olhavam-se pois o sangue cobria os olhos. Ou, em seguida, porque os nervos ópticos já estavam interrompidos. Mantinham as forças necessárias para não se afogarem enquanto a penetração vaginal dava-lhes a nítida sensação de estarem vivos. Cravavam as mãos nas costas do outro para não se afastarem. Arrancavam sangue com as unhas. Mordiam-se as faces no desespero de não se separarem..

O movimento intensificou-se. A massa avermelhada já não se sustentava em pé. Embaixo da água, mantinham-se juntos como na pedra um animal fossilizado. Rasgavam-se as costas com garras recém descobertas. Destruíam-se as faces com dentes cães. A moça desmaiara. Enfim, o rapaz gozou.

Sem nenhuma palavra, em minutos boiaram juntos e dilacerados. Enquanto não fediam, peixes os consumiram por dentro e por fora. Até que o cheiro alertou os urubus. Ao fim, quando a carne não mais servia aos animais superiores, os vermes deram conta de restabelecer o que antes existia.


19.9.06


a minha literatura preferida na internet inclui você e você, adoro ler suas reclamações.


17.9.06


a loucura como estratégia
Tive um sonho hoje. Nele eu explicava para uma pessoa que já me viu em momentos de pouco equilíbrio sobre meus momentos de desequilíbrio, sobre coisas que me incomodavam. Eu propunha soluções mas essa pessoa não concordava ou não entendia ou qualquer outra coisa que desagradasse minhas expectativas. Então, para mostrar que era importante, eu começava a me desequilibrar. Quero dizer: eu me desequilbrava, eu me mostrava transtornado e, agora, interpreto isso como uma estratégia de loucura. Eu me fingia de maluco no sonho para comover naquilo em que ninguém entende. Um certo indizível assume essa forma em mim às vezes. Há quem agrida, há quem se desespere. Algumas pessoas fingem-se de malucas e fingem bem o suficiente para convencerem a si mesmas de estarem amalucadas. Houve uma época em que nessas horas eu mais chorava que amalucava. Estou desconfiado de que, muitas vezes, uma energia esquisita e ruim assume formas assim azoretadas, e de que tudo talvez seja bem mais controlável do que parece na hora. Chamo de controle a possibilidade de talvez, se essa forma incomoda, escolher outra forma de gastar a energia.


apaguei de novo


16.9.06


Coloquei as sandálias hoje.
Foi gostoso, amanhã vou de sandálias e bermuda.


15.9.06


apaguei


13.9.06


Ok, decisão tomada, talvez chegue à segunda página nas próximas horas. e a escolha não foi o lead. Sinto, Jeanne e Julián, vou escrever em primeira pessoa a próxima tentativa de primeira página e a idéia é escrever tudo como uma porrada só, uma porradona, vou fazer um romance-nocaute, Lavoura Arcaica na Avenida Paulista, desde, é claro, que consiga chegar à página dois.


12.9.06


por pontos
Quando se estuda na Faculdade de Letras a diferença entre conto e romance, é comum citar a imagem do Cortázar que diz que o conto ganha por nocaute e o romance ganha por pontos. Imagem retomada, ainda apenas uma imagem até que se procure as estruturas que sustentam exemplares de um e de outro tipo. Ao tentar escrever um romance, eu vou para onde? Às vezes tenho a impressão de estar perdido, adiando sem motivo o que eu quero dizer, diferente do conto, em que me aproximo da idéia, sem dar espaço, ou me afasto da idéia apenas para pegar impulso para o golpe. As decisões num romance têm sido complicadas. Como eu trocaria o modo de narrar, o tom, o ponto de vista depois de ter escrito muitas páginas? Tenho reescrito a primeira. Parece obra sem fim. Talvez eu experimente, de novo, um conto, para lembrar de como é. Eu persegui por um tempo o conto em que os possíveis desvios fossem a negação do caminho, mais do que indiferença a ele. Não havia digressão. Dizer o contrário da coisa não é se desviar dela. Não achei o tom dessa primeira página. Talvez seja alguma obsessão minha pelo controle das coisas. O que tem acontecido agora é que tenho feito escolhas demais sem saber para onde vou. isso é diferente de não saber para onde se vai, como quando escrevi os contos que mais me agradam, mas sem me sentir escolhendo qualquer coisa. Eu era levado, sabe? É o drible treinado que sai, sem ser pensado, na hora do jogo. Se é uma escolha, é uma escolha muito mais sutil. Talvez seja falta de treino: o tom não me vem.

A última idéia é a de que não posso me forçar a escrever em terceira pessoa só porque eu acho que tem que ser assim. Eu não tenho que achar muita coisa. Tenho que escrever. Não achei a solução, estou adiando. Ocupo meu tempo, enquanto isso, reescrevendo a primeira página. Cada vez mais me parece que tenho escrito umas primeiras páginas, soltas, que a primeira à qual se seguirá a segunda será bem outra, pouco relacionada a essas todas.

(ou até eu desistir, passar à segunda página e trocar de angústia.)


10.9.06


chega de
música para engordar porco.


8.9.06


Acho que tenho escrito. Colocarei sem ordem uns fragmentos aqui. Talvez eles componham aqui mesmo um conjunto coerente. A idéia é que eles formem um conjunto coerente, mas não aqui. Minha idéia de coerência é bem ampla. Em "fragmento" colocarei as partes de uma coisa. Em "leve", espero escrever textos curtos e inteiros em si, mais que os fragmentos, que são partes mas também têm inteireza, como tudo. Quando não há muito o que publicar, é bom anunciar o que virá na seqüência. Fácil ocupar espaço assim.

Veio um pensamento aqui, tenho uma idéia sobre alguns escritores. Esses de quem falo não planejam grandes arquiteturas para em seguida preencherem com pequenas arquiteturas, cada vez menores, e assim construírem o texto. Esses de quem falo são gente interessante que vai escrevendo e dizendo os pensamentos e comentando os pensamentos e assim vem o texto, com uma arquitetura posterior à construção. A arquitetura do pensamento desses de quem falo é que se coloca no texto, não uma derivada do pensamento deles. Dá para entender? Esses de quem falo não existem, pensei agora, mas é uma boa idéia, não é?:

Tudo está em edição.


fragmento 1

Morder é mais forte, os dentes de uma apenas tocaram os lábios da outra. Morder poderia ser ou não ser gesto controlado. Apenas ameaçar a mordida foi sem dúvida controle. Houve uma vez, outro dia, em que uma havia mordido o rosto da outra. Desde então, contém-se. Antes dos dentes, houve a noite inteira e muitos dos dias anteriores. Ana sentiu na boca, um pouquinho do gosto da outra. Os meninos em volta sorriam. Diziam das duas meninas bonitas que se provocavam. Eles aguardavam o beijo, com inveja, raiva e prazer, mas viram as bocas se aproximarem e se afastarem apenas num instante mínimo. Ana viu a outra de costas deixando a pista. O ambiente cheio não permitia que ela corresse, e é provável que não corresse mesmo que estivesse num deserto. Ali, ela tinha que empurrar pessoas, pagar a conta, antes de sair à rua, pegar o carro e voltar para casa. O mundo. Não chorou depois que fechou a porta do quarto. Há quem se contenha de outros modos, Ana não quebrou nada nesse dia.


7.9.06


arestas e aparas
Na seqüência do relato sobre minha ausência da ficção: o mundo. Quis trocar umas coisas no apartamento alugado e a imobiliária me disse que a dona do apartamento não vai ajudar, que tudo é por minha conta e risco e, tudo isso, porque a proprietária é idosa e precisa do dinheiro. Sim sim, eu vou resolver os problemas do país pagando um box para o banheiro e uma persiana para a sala. Cada um por si, já que Estado não há.

Mas dinheiro não apenas falta, às vezes sobra. A maior coleção de cordéis do mundo fica em Austin, Texas, e há 11 Mentirosos espalhados por bibliotecas nos EUA e no Canadá. Compraram. Quantas bibliotecas públicas brasileiras têm o livro? Fiquei curioso mesmo. Compraram para guardar para a gente que não sabe cuidar das coisas? (dinheiro compra até amor verdadeiro)


6.9.06


A idéia agora, então, é escrever umas coisas e, como não sei bem o que escrever - andei fora do mundo e é preciso um pouco de mundo para escrever, o fora pode ser assunto, mas escrever é afirmar -, eu vou escrevendo esse preâmbulo que, por ser escrito e não só pensado, já não é tão nada assim.

A idéia é, no futuro próximo, quando eu escrever sem explicar, diferente de agora, colocar os fragmentos das coisa aqui. Tem um livro e mais uns contos planejados, e contos inéditos e a vida.

A idéia é colocar os pés no chão de novo por um tempo, mesmo que, por contar do sem chão, pareça que eu estou mais sem chão ainda. Quando conto, faço um chãozinho, o sem chão é a lembrança, a dor e o pré-sorriso antes de eu contar.


5.9.06


feia,
sua ousadia me fez olhar o feio
(e gostar)








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