O Mentiroso foi escolhido como o melhor texto de 2002 pelo júri do Projeto Nascente - USP.
Tony Monti é paulista. Lê e escreve. Contrariando as previsões mais otimistas, terá trinta anos antes do fim da década. Quando você telefonar para sua casa, ele estará dormindo. Em seus sonhos, ainda mora na casa onde passou a infância. Não pretende mudar, por enquanto.
melancolia - touro a unha
Quando o gordinho começou a falar bobagem no concerto de violões, foi que um pessoal gostou, que a arte não é objeto e o gordinho, que é artista, sabe disso de algum jeito, ele fala bobagem, faz caras e dança enquanto toca. Quatro violões tocaram e tive a impressão de que eles tinham pouca dúvida: concerto de música é ficção ou realidade? Música é ficção? O que eu suponho é que são a mesma coisa, só que a realidade normalmente tem mais duração, não acaba depois do bis (não mais que normalmente, que também a realidade explode e some às vezes). E o rapaz ao meu lado disse que um certa melodia era melancólica. E aí é que eu confundo mesmo as coisas, a palavra encobre algo e eu nunca entendo. Voltei àquela dúvida, melancolia parece felicidade? Por que é que todo mundo bateu palmas depois da melancolia. Se fosse mais tristeza que felicidade, não seria o caso de sair, ir embora? Vaiar? A gente é mais complexo, acho, o concerto foi lindo, todo aquele ritual é de verdade, não é ficção. E agora, de uma dúvida, tenho duas, que acho que são a mesma, ficção e melancolia devem ter relação, penso nisso quando a realidade aqui me der um sossego.
22.5.06
interessante, não?
mas acaba.
20.5.06
melancolia - cercando o gado, agora de longe
É isso, a gente tem prazer estético com coisas das mais macabras. No cinema, no livro e na rua, não precisa ser ficção. É viva a consiciência de que se trata (ou não) de ficção, mas é também discreta nessas coisas que dão mais prazer. É assim para mim. Talvez tudo tenha alguma relação com a gente pensar, pensar, e se colocar tão pouco nesas questões de vida e morte. Essas que nos fazem mais vivos. Quando a vida torna-se evidentemente luta pela vida, surge um prazer que pulsa na gente. Morreu o alpinista brasileiro no Everest. Que é que ele foi fazer lá? A resposta mais razoável que encontrei é "morrer". Ele foi morrer, deu azar, morreu. Porque quando a gente vai morrer e não morre, a vida é só felicidade. A gente que fica de cinema em livro em escrivaninha em biblioteca em escritório, tudo bem comportado e contido, a gente acaba procurando um jeito de morrer. Para não morrer, mas às vezes a gente morre. Quando o carro quebrou e eu tive que resolver o problema ali mesmo, eu mesmo com meus braços e minhas mãos, se não o fizesse não chegaria (onde?), o stress da correria deu muito prazer. Não morri. Minhas mortes são mais ridículas, são, cada um tem suas covardias. E quando cessam os tiros entre a bandidagem e os guardiões da nossa Lei, noite calma em São Paulo, a vida volta a não ter sentido nenhum e eu fico deprimido de novo. Qual a diferença entre isso e ver um filme?
* Pouco ânimo agora para confessar minhas mortes esteticamente mais violentas.
18.5.06
melancolia - ontem fui ao cinema
Que pobreza mais linda, que desigualdade social poética, que vira exposição de arte, uma beleza, ganha prêmio em foto preto e branco, e não é culpa de indivíduo algum, nenhum em especial, o que autoriza arte, o que deixa que se consuma a seca, a pobreza, que um espírito qualquer de aventura se instale quando polícia e ladrão se enfrentam, porque rico não morre, é estatístico, a pobreza é linda, a seca é linda, a desigualdade é uma beleza. Tiroteio de polícia e ladrão é filme, rico vê de longe, é emocionante.
E o pessoal fica brincando de achar solução, que é bem bonito também estético poético, uma beleza. E assisti ontem ao Árido Movie, e gostei bastante, antes eles do que eu, e começo a pensar que o país, para ser mais justo, teria que perder grande parte do que os ideólogos explicadores do Brasil chamam de identidade nacional. A gente se entende bem só na propina, na desigualdade e na exploração, e um tal orgulho de ser brasileiro atrapalha demais, gostei mesmo do filme, aquela falta de água toda, aquela pobreza, gostei, o Estado privado. Tinha que não ser o Brasil? Quarta no fim da tarde, pertinho da Paulista, assisti, pobreza vira arte, o filme diz isso também, gostei bastante por isso, e a gente fica torcendo para o casalzinho ficar junto, e eles ficam e fazem uma exposição em São Paulo com as fotos da seca, da água milagrosa que tem esquema com o governo. Rico não morre.
* ótimo, esqueci até da minha depressão
17.5.06
"As palavras de que nos servimos para exprimir nossas idéias foram criadas em épocas diferentes, nas mais diversas circunstâncias e pelos mais diferentes indivíduos ou grupos de indivíduos." Elas são formadas não sobre a "natureza das coisas", mas sobre necessidades instantâneas de designação - sem um acordo e um cuidado sistemático de correspondências com os sentidos. A palavra liberdade é isso: tem "mais valor do que sentido". Mais grave ainda: os homens não têm consciência desta origem fortuita e desordenada e tendem a "atribuir a esta formação geológica acidentada propriedades de uma arquitetura". (Valéry na tradução de Adauto Novaes)
16.5.06
mais dúvidas [minhas dúvidas nunca são apenas retórica] O pessoal tem falado muito em presídio, segurança, celular e não tem falado muito em educação, saúde, distribuição de renda e inclusão social. Sim, há uma questão mais ou menos urgente e deve ser resolvida: segurança agora, para sobrar o que distribuir. Mas eu exagero se acho que falar de polícia e ladrão não ajuda muito?, se acho que polícia e ladrão deviam ir à escola e ganhar um dinheiro e ter casa?
E eu tenho uma sugestão pra ninguém ter que sair de casa no meio do tiroteio, é possível viver uma vida alternativa sem sair de casa. Sério.
15.5.06
resumo e fim E, sobre o livro do Galera, gostei muito.
(todo mundo tem gostado, não?)
(e todo o resto que escrevi são só idéias desconexas, minha própria viagem sendo alimentada pelo livro)
eu não leio poesia (e não sei o que é melancolia
nem sei de artifícios que evitem assonâncias terríveis)
"Te amarei como nunca, agora
Que já é ficção."
(Ronaldo Bressane, n'A Máquina do mundo)
14.5.06
III - animal racional (quando a gente está na escola, insistem em dizer "animal racional" para distinguir o homem - racional - dos outros animais, esquecendo-se da aproximação evidente - animal.) * o fim de um post ** eu vou revelar passagens do livro
Para Hermano, há uma sensação boa de liberdade em agredir o outro e, assim, fugir às regras. O que o oprime é cumprir o que se espera dele. Os significados fornecidos pelos recortes usuais que sua cultura lhe oferece não são suficientes para lidar com uma agressividade explosiva, também sua, que lhe dá prazer, como era seu também o prazer calmo da submissão. Essa liberdade explosiva vem, assim, com cara de transgressão.
O título do livro, Mãos de cavalo, me lembrou das "patas humanas demais" de G.H. : as ferramentas para o homem experimentar as coisas, embora possa se desconfiar que há muita coisa nos interstícios invisíveis que passam entre os dedos. É preciso fingir bastante para ignorar a própria agressividade.
chico é preciso dizer, achei que tivesse dito (não tinha), gostei do Budapeste.
13.5.06
II - enormes patas humanas * continuação de um post ** eu vou revelar passagens do livro
Em Mãos de cavalo, a identificação talvez se relacione, em parte, pela citação de elementos de cultura de massa, de marcas que não existem mais, de um passado próximo que já é história. e que muita gente viveu. Porque as grandes cidades se parecem, e cada vez mais há grandes cidades, e tanto aqui em São Paulo quanto em Porto Alegre garotos montavam as mesmas bicicletas. Jogava-se Stunts em boa parte das grandes cidades do mundo. Mas há uma segunda identificação menos neutra, mais claramente cruel.
Hermano, o protagonista, é um rapaz correto: estuda, não agride os outros (garantindo o bom funcionamento da sociedade), consegue um excelente emprego, ganha muito dinheiro. Tem, como seus, grande parte dos valores de sua sociedade. É forte, consegue, diferente de tantos outros, seguir tais valores. Ao mesmo tempo, tem que conseguir se desfazer, desde sempre, de uma agressividade selvagem e, para continuar sendo correto, não é contra os outros que deve explodir. Implode. Corre de bicicleta, o mais rápido possível, para cair, gosta de ver seu sangue fora da pele, vive cheio de cicatrizes, pratica escaladas pondo em risco sua vida. A correção, para ele, inclui a auto-agressão.
E neste sistema de valores e de ações está preso. Não parece haver muita liberdade aí. As pessoas são parecidas porque não há muitos modos de ser melhor. E ser melhor é resultado de seguir à risca regras independentes de suas escolhas. No caso de Hermano, liberdade, ele experimenta apenas às vezes, duas vezes, segundo o narrado no livro, em trinta anos: quando acerta um golpe injustificável num colega de bairro e quando, depois de abandonar os planos, ajuda um garoto a se desvenciliar (e depois a bater) de outros garotos que o agrediam. Liberdade, neste caso, torna-se bem o contrário da idéia socialmente aceita de que, seguindo as regras sociais, será recompensado (em dinheiro) com a possibilidade de escolher seu futuro (escolher o que comprar).
*** segue ainda um ou dois parágrafos
12.5.06
I - o óbvio * início de um post
Tenho a impressão de que escrever, para ser lido, não é escrever sobre si, mas escrever sobre os outros. E talvez a melhor maneira de fazer isso seja escrever sobre si. Porque se o outro não está na gente, está onde? As identificações e os estranhamentos dependem de o livro, escrito por outra pessoa, ser o meu livro. Eu acho (quanta falta de certeza!). E, quando o livro é lido, pouco importa se o autor descreve sua vida ou inventa uma vida. Importa mesmo é se ele escreve a minha vida, se ele dá alguma forma ao que eu tenho dificuldade de formular. Eu quero ler sobre mim, necessariamente, eu tony eu mulher eu criança eu pedra eu grego eu épico eu trágico eu autor. E, para o escritor, isso importa pouco, eu acho, porque cada um deve ter seu método, escrever sobre si intencionalmente ou sobre si barata, sobre si igual ou diferente de uma imagem qualquer. Ou método nenhum. Isso faz diferença é para o leitor que se vê ou não no livro, qualquer que seja o "si" de sua visão, se vê e se identifica, se vê e estranha.
10.5.06
0,000833 Comecei ontem o romance que preparo há meses. Escrevi já cinco linhas cheias a serem revisadas. Apago quando?
7.5.06
Puskas Sandor
Acabei agorinha de ler Budapeste, do Chico Buarque. Gostei, uma brincadeira boa, exercício de baixo impacto para o cérebro. Fiquei curioso é sobre o que pensam as pessoas sobre o livro, fiquei curioso de saber o que um leitor de exercícios outros acha de Budapeste. Aceito comentários. Porque o livro é todo brincadeira e tem livro que é de outro tipo. Quem lê Camus gosta de Budapeste? Quem lê Clarice Lispector gosta de Budapeste? Quem lê Ian MacEwan, quem lê Daniel Galera, quem lê Drummond, quem lê Manoel de Barros. Ou o Chico é muito fofo e Budapeste é ótimo? Curiosidade séria mesmo, de saber as coisas. Quantas dúvidas.
4.5.06
(3) ressaca moral permanente -
viciei em pedir desculpas.
tenho pensado muito em duas coisas:
(1) tudo é para sempre - me desespero um pouco com isso e depois acabo me convencendo que tudo e nada são coisas tão absolutas que não se deve se preocupar com elas nesse mundinho de migalhas.
(2) "Perdida no inferno abrasador de um canyon uma mulher luta desesperadamente pela vida". (é da Clarice Lispector) A vida é luta pela vida.
2.5.06
Nota informativa breve: estou sem celular, quebrou. Perdi, com o fato, meu despertador, meu receptor de mensagens de texto e de voz, meu lança-torpedos e minha agenda telefônica. Por favor, amigos, mandem e-mail atualizando os telefones. Sim? O que ganhei por não ter um celular, ainda não sei (mas suspeito). Se o sistema se restabelecer, com o mesmo número ou com número novo, aviso. Ainda recebo e-mails (como já é público, mensagens no orkut não têm sido lidas com freqüência).