e X a t o a c i d e n t e
Tony Monti lê, escreve e apaga
2007

Capa de o menino da rosa Capa de O Mentiroso








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29.4.06


ah, sim, a ciência
O texto abaixo foi publicado na revista da FAPESP (Pesquisa), edição de outubro de 2005. Como pedido dos editores, um conto com temática científica. Científica?


sono

Dentro das gaiolas, as calópias dormem. Perkins, nos Procedimentos Gerais, recomenda que se aproveite o tempo livre, quando quase nada acontece, para fazer as reflexões sobre o contexto e o observador. Tenho dormido pouco. As calópias estão mais previsíveis. Dormem, comem e, cada dia menos, se reproduzem. De noite, separadas por grades, já não gritam como faziam meses atrás. O campus é enorme. As salas de aula, as bibliotecas e os restaurantes estão vazios e fechados. Um ou dois carros por hora. Poucas janelas iluminadas, não a minha. Há uma sala ao lado para o caso de precisar de mais luz. Aqui, penumbra, escuro para as calópias dormirem e claro o suficiente para eu tomar nota da evolução do treinamento.

O Procedimentos recomenda alongamento e pequenas caminhadas durante a noite. O Handbook diz que na idade em que estão as calópias, abandoná-las por mais de quinze minutos é correr risco de perder o eventual momento em que o doppelt aparece (fascinante, sem dúvida). As caminhadas tornam-se então bem curtas. Devido também ao sono, deixo de lado os exercícios. Sei, por experiência, que resisto bem com café e coca-cola. Dormirei às oito, em casa.

O que me desagrada é que os turnos deixam pouco tempo para minha vida social. Quando entro, às dez, há quem esteja saindo para um bar, entrando no cinema, trepando ou, apenas se assim escolher, dormindo. O sono me pressiona fisicamente, me deixa cansado e de mau humor. Mas amanhã, quando acordar, é a vida social que me fará falta.

Enquanto dormem, é pouco provável que as calópias se sintam oprimidas pelas grades que as isolam. Durante o dia, o gradil todo aberto, circulam pelo viveiro. Algumas ficam paradas por horas, olhando, olhando. Não quero insistir demais no assunto, as calópias têm dormido muito, às vezes também de dia. Não há nada no Handbook sobre elas sonharem ou não. Dois artigos alemães recentes dizem que sim, mas a interpretação das medidas da atividade cerebral não convenceu toda a comunidade.

Preciso acordar, preciso comer. Na copa há um microondas. Coloco para esquentar, juntos, café e uma torta pré-cozida. Volto ao meu posto de observação. É onde acabo o lanche. Passo os olhos em todas, uma a uma, como instrui o Handbook. A calópia do cubo dezessete está de olhos abertos. Por que acordada? Seis meses sem nenhum doppelt. Pouco razoável que apareça um no meio dessa noite cansada. "... interrompe a cadência a nota mais tensa /.../ a novidade da descoberta se manifesta tantas vezes no susto ...", lembro desse trecho do mesmo Perkins num ensaio polêmico, tão inspirador quanto pouco científico. Manter os olhos abertos, mesmo nas noites mais paradas (num tom mais próximo ao do Procedimentos).

Ela não se mexe. Nunca vi uma calópia dormir de olhos abertos. Se ela notar o pouco espaço e as grades, poderá gritar e acordar todas as outras. O preto dos olhos brilha na penumbra, é como se ela me olhasse. Se está mesmo acordada, é provável que me olhe, que me procure, apesar da visão fraca desses bichos. Devo torcer para ela voltar a dormir ou, pelo menos, ficar em silêncio. Sinto-me estranho. Aguardar que algo aconteça não me parece, agora, tão científico. Nas últimas duas ou três horas do turno, meu humor vacila um pouco. Costumo me concentrar para não menosprezar os detalhes enquanto repito para mim que, depois de dormir, a vida volta a ter sentido.

De olhos fixos na gaiola dezessete, reconheço que é estranho que a calópia não seja, como eu, um animal de olhos abertos na frente do qual passa um mundo (que ela seja mais mundo e eu mais consciência). Torço pelo seu silêncio, torço pelo seu sono, não há o que fazer, apenas ficar sabendo, anotar, organizar, classificar. "Dopadas e com quatro dos cinco sentidos diminuídos, suas unhas afiadas ainda apontam rápido para a região do corpo que for tocada". (do Handbook). Observo e anoto. Escrever bastante ajuda a ficar acordado, atento ao que se escreve. Duas horas para o fim do turno, vou perdendo a curiosidade pelo doppelt improvável e ganhando curiosidade pelos motivos da minha espera. Será que não há mesmo o que fazer? A calópia me observa enquanto escrevo. Percebi um movimento acoplado de olhos e de cabeça quando virei uma página.

A fêmea da gaiola doze está doente há dias. Nada específico, está velha. Uns suecos, na festa de encerramento do último congresso, disseram que a carne das calópias tem seus apreciadores no meio acadêmico. Invento um personagem, que não sou eu, para dizer que poderia experimentar a fêmea doze, que vai mesmo morrer em uma ou duas semanas. E imagino, agora eu mesmo, que seria menos estranho comê-la que observar sua morte. Observar e tomar nota. As coisas acontecem, uma fêmea morre, alguém abre os olhos durante a noite, mas não grita, e assim não assusta quem dorme - e eu fico sabendo. Comer a carne seria mais ativo que esperar um doppelt, que ninguém sabe se acontece mesmo ou se meia dúzia de nórdicos beberrões o inventaram durante uma noite sem dormir.

Me perdi de cabeça baixa olhando o papel por dois minutos. Os olhos pretos da calópia me acompanham. Quinze minutos, é o que diz o Handbook. Melhor eu me exercitar, em menos de dez minutos retomo caneta e papel. Retiro a camiseta e inicio a seqüência curta de alongamentos. Sentado no chão, busco as pontas dos pés enquanto, tenho certeza disso, a calópia me olha. É bom sentir o chão gelado na pele nua das costas. Tendo sempre a interromper a série. Hoje o que eu penso é que eu queria levantar para perguntar baixinho para a calópia o que é que ela está esperando. Cada dia tenho um motivo. Eu não falaria mesmo com ela, mas a vontade de perguntar é verdadeira. Ou eu falaria, mais uma vez inventando um personagem, sem esperar de verdade uma resposta. Quero muito uma resposta.

Porque quando eu olho a calópia da gaiola dezessete, eu espero, apenas espero, que ela faça alguma coisa nova. É como se o mundo se mexesse de uns modos, às vezes de outros, e eu apenas olhasse, anotasse, organizasse, sem que tivesse escolhido muita coisa, sem que eu matasse uma calópia que vai morrer em duas semanas. Minha mão corre e guarda umas linhas no papel porque não é possível guardar tudo apenas na própria memória, e assim o papel e meu cérebro se assemelham, e também minha mão que corre o papel com uma caneta. E é como se eu observasse minha mão correndo, como se ela também estivesse do lado de lá, no mundo, em frente aos meus olhos e aos olhos da calópia sem que eu escolha demais o modo como tudo se move. Ainda assim, sei que em alguma horas, logo depois de dormir, terei a sensação de poder escolher e a vontade de continuar organizando, classificando e selecionando como se as minhas mãos se movessem por minha exclusiva escolha e como se eu não estivesse apenas esperando que algo interessante apareça do nada.


27.4.06


melancolia - os nomes das coisas

É sentimento sendo observado, é bastante olhar e um tanto de sentimento. Quando se olha a dor, ela já dói menos. Em melancolia, há distância.

Fico curioso também que, quando eu digo melancolia, as pessoas costumam lembrar de filmes e livros e quadros e de outras pessoas. Melancolia é raramente coisa que a gente mesmo tem, é coisa que a gente vê lá, um pouco de longe, e sente aqui um pouco só. Ou lembram de um passado prórprio que parece de outra pessoa.

É confortável saber que a tristeza dos outros não tem sentido? Que não é mais que dor. E quando eu olho minha própria tristeza, ela fica tão ridícula, e até parece que já vai passar.
(e não tem muito jeito, melancolia é azul)


24.4.06


melancolia - constatação em dúvida



seres vivos visitam museus, certo?
eles não o fariam nus, fariam?


melancolia - resumo
melancolia parece felicidade?


melancolia - quem diz isso, está citando quem?

Eu sei que eu não dialogo com a crítica, eu sei que não me lembro com certeza de duas ou três linhas seguidas do livro que li mais de trinta vezes e estudei por todos os últimos anos - às vezes invento trechos bem bonitos e atribuo à Clarice Lispector -, eu sei que não sou exemplo de precisão de raciocínio.

Melancolia é quando a gente percebe e quase aceita que o ideal está em cacos? É quando a gente reconhece religiosamente que estamos sozinhos, todos? Que discordamos sempre mas estamos em acordo sobre isso? Que sofremos das mesmas dores dos outros? Já escutei tanta gente dizendo das sutis diferenças entre angústia, ansiedade, mellancolia, tristeza, mas ainda não entendi a diferença entre melancolia e felicidade. Ainda estou com aquela dificuldade de entender como a tristeza pode ser bonita, e só. Não é porque a gente não é indivíduo? porque a gente é vários e é triste e é feliz?

Se não existisse o tempo, haveria a melancolia? A gente sofre um dia daquela dor e no dia seguinte vê que dói no outro parecido e fica feliz porque não dói mais e porque a gente é religiosamente semelhante um ao outro e assim a gente acha que não está sozinho. é? Melancolia é quando a gente acha que o que a gente chamava antes de dor - tempo -, é só o mundo mesmo, nem perfeito nem imperfeito. Ele. Ou que era só dor, que não tinha nada de errado em coisa alguma, que viver dói mesmo.

Eu tenho muitas dúvidas, muitas.


melancolia - eu nunca soube mesmo o que quer dizer isso

Uma palavra dessas - melancolia - nos afasta tanto. Estávamos tão juntos, víamos paredes, uns móveis, lembro de um quadro, tenho certeza dos corpos, das dores e dos carinhos. Quando você diz uma palavra dessas - melancolia -, você diz de tão longe que, eu ainda segurava sua mão pequenininha, e já senta falta de estar contigo.


20.4.06


mãos de cavalo



O livro do Daniel Galera será lançado nos próximos dias. Dos autores muito novos que li, ele foi o que mais impressionou. Se esse seu novo livro for melhor que os anteriores, é ótimo. Escrevi neste blog sobre o anterior, até o dia em que o cão morreu, faz já um tempo. Comprei o livro em sociedade com o Maurício, amigo. Ele leu primeiro. Lembro de quando ele passou o livro para as minhas mãos, na USP, depois de já o ter lido. Disse com ar sério "Tony, é bom, você vai gostar". Gostei muito.
(saudade do Mauricio, cadê você, rapaz?)


17.4.06


Meu amigo Abilio Godoy tem um blog.

De lá tirei a seguinte citação,
que considero belíssima e que jamais colheria sem que a ela fosse guiado por olhos que não os meus,
pinçada pelo Abílio de um compêndio de filosofia Kakamura.

"E se minha espada cortar ao meio um homem,
amigo ou inimigo, leal ou traidor, mais que sua carne,
seu espírito em dois ficará partido e, em sua próxima encarnação
e na seguinte, esse homem há de lutar sem descanso contra si mesmo
e terá em sua própria essência e em seu reflexo
a encarnação de seu pior inimigo."

Abusaki-Tikoruto Numei, xogum.
Japão, 1327, era Kakamura.


16.4.06


Continuo fora do ar, aprendendo coisas, o que pode significar apenas reformulando coisas, e, de certos pontos de vista, deformando, destruindo. De pernas pro ar. Não tenho escrito, um pouco tenho lido. O "menino da rosa" nas bancas, na revista EntreLivros. Para mim, não é fácil entender o que as pessoas gostam nesses continhos. Deve ter a tal melancolia, da qual tão pouco entendo. Continuo achando que tristeza, em si, não é bonita, não. Que pode ser, talvez, bonita a identificação, de reconhecer tristeza igual à da gente. Enfim, não sei do menino da rosa enquanto literatura, mas descobri coisas sobre o menino, isso sim. Na historinha a seguir, achei uns jeitos estranhos de me vincular à vida. Acho que consigo evitar, já, o pior.



o menino da rosa - explosões

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10.4.06

2.4.06


o menino da rosa
Na revista EntreLivros (nas bancas) deste mês de abril, quatro páginas sobre "o menino da rosa" (uma página de introdução e três com alguns dos contos), meu livrinho de contos, ainda inédito (é ... publiquei vários dos textos neste blog). Acho que minha mãe vai acabar sabendo do livro antes de ele sair em papel (era para ser supresa).








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