e X a t o a c i d e n t e
Tony Monti lê, escreve e apaga
2007

Capa de o menino da rosa Capa de O Mentiroso








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26.2.06


Dois - o vício



Nem sempre é como subir uma escada, são apenas duas as pernas. Lilia não ficou um segundo em frente ao primeiro degrau antes de decidir qual dos pés erguer. Passam as semanas, Lilia cobre seus motivos com histórias diferentes, levanta uma perna depois a outra, inventa suas razões. Quando acaba a escada, Lilia percebe que respira. Antes de subir, respira sem perceber. Viajou por semanas no ano passado, divertiu-se como se subisse uma escada, parou depois de vencer os degraus para descansar um pouco, uma vez em algumas semanas é assim, Lilia pára e descansa, o corpo pede. Depois cansa, descansa, o corpo pede, um degrau depois do outro. Umas vezes, tem a impressão de que tudo o que se tem é subir a escada, mas há que se descansar depois de cada degrau, depois de cada escada e depois de cada mês.


25.2.06


eu ainda me surpreendo
"Calma quase sem alegria, o que me seria um bom equilíbrio: com as horas de escultura eu aprendera a calma quase sem alegria. Na semana anterior eu me divertira demais, freqüentara demais, tivera por demais tudo o que quisera, e desejava agora aquele dia extremamente como ele se prometia: pesado e bom e vazio. Dele eu faria o mais longo possível."
PSGH, C.L.


e esse carnaval que não acaba!?


23.2.06


slice



Match Point é filme para homem. Gostei. Como poderia não gostar? Fiquei até satisfeito em cair nos golpes mais baixos, em me apaixonar tão fácil, mais uma vez, pela Scarlett Johansson. Assim como em Encontros e desencontros, saí imaginando qual seria minha percepção do filme se não tivesse me apaixonado. Scarlett Johansson é filme para homem. "você sabe que você perturba os homens?", disse um personagem para ela. Eu gosto de Woody Allen, mas isso não interessa. Eu gosto de personagens paranóicos, neuróticos, psicóticos, amalucados, apaixonados, mas não os encontrei no filme. Ótimo, assim mesmo. Scarlett Johansson acaba de ultrapassar os camelos na lista dos principais animais que me levam ao cinema. Ainda estou na dúvida sobre sua posição em relação aos pingüins.


22.2.06


porque as anas
Recebi um pacotinho, pelo correio, da ana rüsche. Dois livros, o seu rasgada e o medianeira, do Fábio Aristimunho Vargas. Agradeço. Adoro receber pacotinhos pelo correio. A vida faz sentido quando os pacotinhos chegam. Gosto de títulos e nomes em minúsculas também. Um pinguinho de felicidade, no mínimo, quando chega o pacotinho.


19.2.06


Éramos dois caras numa mesa, de olho na mesma menina. Dos três, apenas ele não sabia. Não era necessário fazer nada: observei. O incômodo dela em relação a seus vínculos duplos, e desconhecidos dele, faria com que a situação não evoluísse a nada que não fosse embriaguez. Um abraço, na despedida, e mais dois quando nos encontramos por acaso na semana passada, sem ela.

Marco abraça esquisito, não diz nada ao abraçar. Balança a cabeça concordando com o assunto que não temos, fecha um pouco os olhos, ameaça sorrir, aceita resignado. Sem palavra, compartilha uma idéia de que a vida é mesmo uma bosta, e que continua (que é que se faz?, nós nada, o tempo dá conta), como se quisesse me confortar ao me receber no velório de um amigo dele e não meu.

* da série "escrever é muito difícil"


a mansa agressão
"Mas receio começar a compor para poder ser entendida pelo alguém imaginário, receio começar a "fazer" um sentido, com a mesma mansa loucura que até ontem era o meu modo sadio de caber num sistema. Terei que ter a coragem de usar um coração desprotegido e de ir falando para o nada e para o ninguém? assim como uma criança pensa para o nada. E correr o risco de ser esmagada pelo acaso."
PSGH, C.L.


14.2.06


Se não fosse difícil, é provável que eu matasse mais. Se morre envenenado um parente e depois morre um amigo num assalto que ninguém presenciou, não é anormal que comecem a desconfiar de você. Em certos aspectos da vida e da morte, não há muitas chances. De repente, é mais fácil encontrar outro jeito de sumir com as vontades. Tenho a impressão até de que mais mata quem acha que não vai matar. Quem quer matar, e conhece uns motores da vida, mata pouco. É até bonito esse companheirismo de não matar para ninguém ter nunca medo da gente. Ou de matar escondido para não perder as amizades.

* da série "escrever é muito difícil"


desisti já do meu amor por carolina?


9.2.06


a noite *
Mais uma noite, como é que se dorme? Eu digo agora que é o calor que não deixa, mas não é ele. Eu apenas não durmo. Viro, viro, hoje pelo menos tenho idéias que não são o sambinha que acabei de escutar, que escutei há horas, nem um tabuleiro de xadrez, coisa mais maluca de sonhar, nada pior que sonhar que tudo é um tabuleiro de xadrez, hoje nem teve sambinha. Resolvi que vou abrir mão de uma idéia, vou jogá-la no mundo sem o devido cuidado, vou fazer de um conto o que eu gostaria de fazer de um romance. Vou escrever ao vivo, assim, e comentar enquanto escrevo. Eu queria mesmo era fazer um romance e, em paralelo, comentar o que eu estivesse pensando. Vai ser um conto e só. É mais ou menos como o Cortázar quando ele escreve O Jogo da amarelinha e deixa ao leitor a opção de ler a história menos as divagações. Mas não é a mesma coisa. Tive o plano absurdo, há uns meses, de escrever o romance e escrever o diário do romance, que seria outro livro embora também o livro. Vou fazer isso no blog, com cara de rascunho, talvez dure uns dias, não sei quanto tempo nem quantas páginas durará o conto. Menos ainda agora, no meio de uma noite sem dormir. O conto tem nome, isso é bom porque parece que eu planejei tudo, mas não planejei nada, planejei só que tem duas histórias e que tem uma estrutura complicada, tem um pouco de poema no conto, e tem um pouco daquele roteirista do John Makovich, aquele cara que ficou mais famoso que os atores e os diretores dos filmes que inventou, o Charlie Kaufman. Escrevi uma vez um conto que parece esse que eu estou querendo escrever, para uma coletânea que deve sair logo, de contos a partir de poemas, é um conto confuso e esquisito e com roteiro torto. Acho que esse novo será menos torto. Chama-se se eu não te amasse, Carolina e, é claro, pode ainda mudar de nome. A partir de agora, enquanto o conto estiver no ar, está tudo em edição neste blog que muda de nome a cada semana (sempre esteve tudo em edição, mas agora eu estou avisando, o que é mais uma informação para ler o conto).

* http://www.sensesofcinema.com/contents/directors/02/antonioni.html
A noite (La Notte) é o nome de um filme impressionante do Antonioni, lembrei agora dele, que já fez parte de um texto meu que nunca ninguém vai ler. Em A Noite, descobri o Macello Mastroiani, coisa maluca que ainda não desdescobri.


1.2.06


Às vezes eu fujo.
Se já fugi, sinto-me só.


vanessa *

Nós migrávamos em grupo para a casa da praia. De noite, quando íamos passear no centro, a Vanessa sempre demorava mais para se arrumar. Quando saía do quarto, parecia igual a todos os outros, tão bem ou tão mal vestida quanto nós. Mas estava melhor. Nos detalhes, visíveis mas irreconhecíveis, a Vanessa passava horas. A bermuda, a camiseta e o chinelo, de um modo que ela sabia e nós não, ficavam melhores nela. Horas de arrumação para sair igualzinha aos outros.

* da série agora inaugurada "escrever é difícil"








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