O Mentiroso foi escolhido como o melhor texto de 2002 pelo júri do Projeto Nascente - USP.
Tony Monti é paulista. Lê e escreve. Contrariando as previsões mais otimistas, terá trinta anos antes do fim da década. Quando você telefonar para sua casa, ele estará dormindo. Em seus sonhos, ainda mora na casa onde passou a infância. Não pretende mudar, por enquanto.
passou passou, já não é mais natal, podemos nos abraçar de novo sem o perigo de sermos felizes para sempre.
24.12.05
tudo repetido Cronópios esperam (ou são esperanças?).
Abraço para o Claudinei.
22.12.05
isso isso para questões complexas como invisibilidade, mau comportamento, transfusão de humores, anonimatices e passionalidades diversas, há um e-mail de contato ali ao lado.
21.12.05
Natal
Não gosto de Natal. Tudo meio triste, tudo muito parado. Não gosto dessas grandes paradas, tudo pára, a padaria fecha, as pessoas se fecham. Não gosto também de feriado, nem de fim de semana, nem dessas horas em que todo mundo pára junto. À força, de um jeito só. Se parassem juntos mesmo, mas param juntos separados. Seria religioso pararmos juntos. Sou muito religioso. Cada um compra suas coisinhas numa loja. Lojas diferentes, presentes diferentes, sentimentos diferentes. E uns indiferentes. Eu não gosto.
Gosto só porque alguns amigos gostam. De fim de semana, às vezes eu gosto muito. Eu queria poder ir para a Avenida Paulista, andar na calçada, tomar uma cerveja, encontrar os amigos e não ver as luzinhas piscando. Natal é triste porque é a evidência da solidão para os que são sós. Sem festa, sem árvores, sem presentes, sem musiquinhas, sem presépio. A não ser que você queira.
Feliz Natal, ainda assim, se você quer um. Seja feliz. Se você fica feliz em ouvir Feliz Natal: Feliz Natal. Porque se você quer, não tenho algo definitivamente contra os desejos de boas festas. Feliz Natal, e que é que isso vai mudar? E se você não quiser meus votos, fico quietinho e desejo as felicidades só, e te deixo saber que também eu não gosto de Natal. Não gostaremos, juntos, de Natal.
E tem mais, meus votos de felicidades, falsos assim, de que é que valem? Se eu desejar, você vai ficar feliz numa mágica? Eu desejo aqui, você fica feliz aí. É assim que quero, meu amigo. Na base da mágica. Não acredito em Natal mas acredito em mágica. E, mesmo sem mágica, porque gosto de você, gostaria que você soubesse que, se houvesse mágica, desejaria a você e produziria num truque a sua felicidade num Natal em que não acredito. Se saber disso vale alguma coisa, meu amigo, Feliz Natal. Não pelo Natal. Pelo feliz e por você.
(*nada mudou? o texto de Natal desse ano é o mesmo do ano passado?)
constatação Andei lendo meu próprio blog, os arquivos, estou impresionado com o quanto já fui interessante um dia.
18.12.05
Sono
Dentro das gaiolas, as calópias dormem. Perkins, nos Procedimentos Gerais, recomenda que se aproveite o tempo livre, quando quase nada acontece, para fazer as reflexões sobre o contexto e o observador. Tenho dormido pouco. As calópias estão mais previsíveis. Dormem, comem e, cada dia menos, se reproduzem. De noite, separadas por grades, já não gritam como faziam meses atrás. O campus é enorme. As salas de aula, as bibliotecas e os restaurantes estão vazios e fechados. Um ou dois carros por hora. Poucas janelas iluminadas, não a minha. Há uma sala ao lado para o caso de precisar de mais luz. Aqui, penumbra, escuro para as calópias dormirem e claro o suficiente para eu tomar nota da evolução do treinamento.
O Procedimentos recomenda alongamento e pequenas caminhadas durante a noite. O Handbook diz que na idade em que estão as calópias, abandoná-las por mais de quinze minutos é correr risco de perder o eventual momento em que o doppelt aparece (fascinante, sem dúvida). As caminhadas tornam-se então bem curtas. Devido também ao sono, deixo de lado os exercícios. Sei, por experiência, que resisto bem com café e coca-cola. Dormirei às oito, em casa.
O que me desagrada é que os turnos deixam pouco tempo para minha vida social. Quando entro, às dez, há quem esteja saindo para um bar, entrando no cinema, trepando ou, apenas se assim escolher, dormindo. O sono me pressiona fisicamente, me deixa cansado e de mau humor. Mas amanhã, quando acordar, é a vida social que me fará falta.
Enquanto dormem, é pouco provável que as calópias se sintam oprimidas pelas grades que as isolam. Durante o dia, o gradil todo aberto, circulam pelo viveiro. Algumas ficam paradas por horas, olhando, olhando. Não quero insistir demais no assunto, as calópias têm dormido muito, às vezes também de dia. Não há nada no Handbook sobre elas sonharem ou não. Dois artigos alemães recentes dizem que sim, mas a interpretação das medidas da atividade cerebral não convenceu toda a comunidade.
Preciso acordar, preciso comer. Na copa há um microondas. Coloco para esquentar, juntos, café e uma torta pré-cozida. Volto ao meu posto de observação. É onde acabo o lanche. Passo os olhos em todas, uma a uma, como instrui o Handbook. A calópia do cubo dezessete está de olhos abertos. Por que acordada? Seis meses sem nenhum doppelt. Pouco razoável que apareça um no meio dessa noite cansada. "... interrompe a cadência a nota mais tensa /.../ a novidade da descoberta se manifesta tantas vezes no susto ...", lembro desse trecho do mesmo Perkins num ensaio polêmico, tão inspirador quanto pouco científico. Manter os olhos abertos, mesmo nas noites mais paradas (num tom mais próximo ao do Procedimentos).
Ela não se mexe. Nunca vi uma calópia dormir de olhos abertos. Se ela notar o pouco espaço e as grades, poderá gritar e acordar todas as outras. O preto dos olhos brilha na penumbra, é como se ela me olhasse. Se está mesmo acordada, é provável que me olhe, que me procure, apesar da visão fraca desses bichos. Devo torcer para ela voltar a dormir ou, pelo menos, ficar em silêncio. Sinto-me estranho. Aguardar que algo aconteça não me parece, agora, tão científico. Nas últimas duas ou três horas do turno, meu humor vacila um pouco. Costumo me concentrar para não menosprezar os detalhes enquanto repito para mim que, depois de dormir, a vida volta a ter sentido.
(/cont)
(/cont)
De olhos fixos na gaiola dezessete, reconheço que é estranho que a calópia não seja, como eu, um animal de olhos abertos na frente do qual passa um mundo (que ela seja mais mundo e eu mais consciência). Torço pelo seu silêncio, torço pelo seu sono, não há o que fazer, apenas ficar sabendo, anotar, organizar, classificar. "Dopadas e com quatro dos cinco sentidos diminuídos, suas unhas afiadas ainda apontam rápido para a região do corpo que for tocada". (do Handbook). Observo e anoto. Escrever bastante ajuda a ficar acordado, atento ao que se escreve. Duas horas para o fim do turno, vou perdendo a curiosidade pelo doppelt improvável e ganhando curiosidade pelos motivos da minha espera. Será que não há mesmo o que fazer? A calópia me observa enquanto escrevo. Percebi um movimento acoplado de olhos e de cabeça quando virei uma página.
A fêmea da gaiola doze está doente há dias. Nada específico, está velha. Uns suecos, na festa de encerramento do último congresso, disseram que a carne das calópias tem seus apreciadores no meio acadêmico. Invento um personagem, que não sou eu, para dizer que poderia experimentar a fêmea doze, que vai mesmo morrer em uma ou duas semanas. E imagino, agora eu mesmo, que seria menos estranho comê-la que observar sua morte. Observar e tomar nota. As coisas acontecem, uma fêmea morre, alguém abre os olhos durante a noite, mas não grita, e assim não assusta quem dorme - e eu fico sabendo. Comer a carne seria mais ativo que esperar um doppelt, que ninguém sabe se acontece mesmo ou se meia dúzia de nórdicos beberrões o inventaram durante uma noite sem dormir.
Me perdi de cabeça baixa olhando o papel por dois minutos. Os olhos pretos da calópia me acompanham. Quinze minutos, é o que diz o Handbook. Melhor eu me exercitar, em menos de dez minutos retomo caneta e papel. Retiro a camiseta e inicio a seqüência curta de alongamentos. Sentado no chão, busco as pontas dos pés enquanto, tenho certeza disso, a calópia me olha. É bom sentir o chão gelado na pele nua das costas. Tendo sempre a interromper a série. Hoje o que eu penso é que eu queria levantar para perguntar baixinho para a calópia o que é que ela está esperando. Cada dia tenho um motivo. Eu não falaria mesmo com ela, mas a vontade de perguntar é verdadeira. Ou eu falaria, mais uma vez inventando um personagem, sem esperar de verdade uma resposta. Quero muito uma resposta.
Porque quando eu olho a calópia da gaiola dezessete, eu espero, apenas espero, que ela faça alguma coisa nova. É como se o mundo se mexesse de uns modos, às vezes de outros, e eu apenas olhasse, anotasse, organizasse, sem que tivesse escolhido muita coisa, sem que eu matasse uma calópia que vai morrer em duas semanas. Minha mão corre e guarda umas linhas no papel porque não é possível guardar tudo apenas na própria memória, e assim o papel e meu cérebro se assemelham, e também minha mão que corre o papel com uma caneta. E é como se eu observasse minha mão correndo, como se ela também estivesse do lado de lá, no mundo, em frente aos meus olhos e aos olhos da calópia sem que eu escolha demais o modo como tudo se move. Ainda assim, sei que em alguma horas, logo depois de dormir, terei a sensação de poder escolher e a vontade de continuar organizando, classificando e selecionando como se as minhas mãos se movessem por minha exclusiva escolha e como se eu não estivesse apenas esperando que algo interessante apareça do nada.
(*publicado na Revista Pesquisa Fapesp em outubro/2005)
14.12.05
Algum problema com o blogger faz com que, às vezes, algumas pessoas não consigam entrar aqui pelo endereço usual http://www.monti.blogger.com.br. É possível entrar, nesses casos, apenas por http://www.monti.blogger.com.br/index.html.
(*Quem souber o que está acontecendo ou como resolver o problema, poderia ajudar? Vários outros blogs estão na mesma siuação.)
10.12.05
sobre a liberdade Mordeu a boca antes de recusar o beijo, entrelaçou as pernas antes de afastar o abraço, elogiou os olhos antes de sair, de ir logo ali, onde eu podia ver. Quando você procurou meu cheiro, tudo o que se dissesse nos aproximaria, até o não (que você disse depois e eu não entendi).
7.12.05
Tenho várias caras. Uma é quase bonita, outra é quase
feia. Sou um o quê? Um quase tudo.
- C.L. -
6.12.05
A minha vida é como se me batessem com ela.
- Fernando Pessoa -
5.12.05
90% do que eu escrevo é mentira. O resto eu invento.
- Manoel de Barros -
4.12.05
Não se trata de ouvir uma série de frases que enunciam algo; o que importa é acompanhar a marcha de um mostrar.
- Martin Heidegger -
3.12.05
E os outros? Os outros não estão dentro de mim. Para os outros, que observam de fora, as minhas idéias, os meus sentimentos, têm um nariz. O meu nariz. E têm um par de olhos, os meus olhos, que eu não vejo e eles vêem. Que relação existe entre as minhas idéias e o meu nariz? Para mim, nenhuma. Eu não penso com o nariz nem, pensando, reparo no meu nariz. E os outros? Os outros, que não podem ver dentro de mim as minhas idéias e que vêem, de fora, o meu nariz? Para os outros, as minhas idéias e o meu nariz têm tanta relação, que, se aquelas, suponhamos, fossem muito sérias e este, pela sua forma, fosse muito ridículo, desatariam a rir.
- Luigi Pirandello -
Então é isso, entreguei as cópias na mão do secretário da administração da FFLCH. Ele as colocou junto com mais dezenas de pilhas de oito cópias. Meu trabalho foi para o limbo. Ele disse "é isso", claro que não é isso. Não é bom parecer que apenas cumpri uma tarefa.
Fiquei cansado, cansado, tem uma sensação de liberdade também agora. E, como sou extremamente previsível, fiquei gripado logo que não havia mais nada a ser feito. É assim desde criança, depois da semana de provas. Logo tem textos novos para publicar, mas, por enquanto, descanso. Coloco, aos poucos, as epígrafes do trabalho, que assim parece que o blog tá vivo.