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(* noite sem sono, sem dormir - apago quando o cérebro estiver inteirinho, as emoções menos amolecidas e a autocrítica mais severa)
o menino da rosa - tia
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Introdução para romper o silêncio
A complexidade de A Paixão segundo G.H. nunca me abriu uma porta única para entrar. À minha primeira leitura, há não muitos anos, porta alguma foi aberta, nenhuma que eu conseguisse definir sem dúvida como porta. Duas ou três leituras depois, tantas portas tinham sido abertas que eu não sabia por qual delas entrar. Na indecisão, percebi todas elas se fechando de novo antes que eu entrasse. Depois de um tempo, portas abertas de novo, comecei a entrar sem escolher demais. A alternância entre nenhuma e muitas portas ainda não parou. Às vezes o livro me faz sentido nenhum, às vezes tanto(s) sentido(s) que tudo me parece óbvio a ponto de nem merecer ser expresso.
No processo de tomar nota (inicialmente) e escrever a dissertação (ultimamente), cada idéia de interpretação deformou a anterior. Cada nova leitura e cada nova reflexão me exigiram repensar tudo. Cada mudança na maneira como eu organizo, para mim, o livro, pede a retomada de toda mínima fração das idéias que guardo sobre ele.
A organização deste texto final da dissertação é o retrato de um percurso. A princípio, sem saber por que porta entrar, elegi três - ordem, limpeza e beleza - sem a preocupação, ainda, de sistematizar qualquer coisa. Essa primeira aproximação resultou no primeiro capítulo. Da análise da idéia de beleza, fui levado a pensar em como Clarice estrutura seu romance, ainda nesse capítulo. Agora, algum tempo depois, essas primeiras páginas me soam mais ligadas a uma tentativa de se fazer sujeito, numa crença em um tipo de liberdade que me norteou e que eu reconheci no romance.
Quando terminei a redação desse capítulo, descobri que ele funcionava para mim como paráfrase do texto e que eu precisava, então, sistematizar algumas idéias. O segundo capítulo é essa tentativa de reorganizar o livro passando por elementos que estruturam sua construção - como se dão as relações temporais e causais, como se relacionam sujeito e mundo, enunciador, texto e recepção. Listei também uma pequena série de procedimentos que dão ao romance determinado ritmo, que determinam a marcha do texto em seus grandes e em seus pequenos elementos. Nesse capítulo, as duas maneiras de entender liberdade no texto - possibilidade de escolher e não obrigação de escolher - estão mais balanceadas e associadas ao ritmo binário, afirmação seguida de negação.
Por fim, no terceiro capítulo, arrisquei um olhar mais leve sobre as questões da linguagem e da liberdade, aproximando meus pontos de vista dos do crítico Benedito Nunes, e o texto de Clarice dos de Sartre, fazendo as devidas distinções.
Texto escrito, flagrei-me mudando a terminologia, adicionando notas e parênteses a fim de amolecer as afirmações que parecessem certas demais. Sinto que cada linha poderia ser melhor escrita. Tentei tantas vezes guardar distância do texto de A Paixão segundo G.H. ... penso às vezes que, é possível, se tentasse por muito tempo ainda melhorar as linhas desse trabalho, acabaria, como Pierre Menard que escreveu o Quixote, escrevendo A Paixão.
* Entrego a dissertação na semana que vem. Por enquanto, é assim que ela começa (antes de ficar dura como pedra e de amolecer de novo no finzinho).
"Repito por pura alegria de viver: a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não vale a pena." (C.L.)