O Mentiroso foi escolhido como o melhor texto de 2002 pelo júri do Projeto Nascente - USP.
Tony Monti é paulista. Lê e escreve. Contrariando as previsões mais otimistas, terá trinta anos antes do fim da década. Quando você telefonar para sua casa, ele estará dormindo. Em seus sonhos, ainda mora na casa onde passou a infância. Não pretende mudar, por enquanto.
meninos e meninas, o truque do desaparecimento. atenção. atenção. as palavras mágicas. vai desaparecer. vaca amarela.
27.11.04
ainda que o óbvio que a vida seja só isso mesmo que a vida seja mais que isso que a vida seja outra coisa que eu seja pouco que você seja pouco que pensar seja menos que a palavra seja ridícula perto do que o mundo o mundo seja o mundo seja o mundo seja apenas uma repetição seja uma repetição não seja uma repetição
ainda assim eu
de novo
novo
26.11.04
Ao lago não se chega pelo rio. Chega-se pelo alto. No lago, joguei uma carne, um fígado sem serventia para colher as planárias que não plantei. Sem pára-quedas, no lago, vive-se bem. O plano é apoiar a planta dos pés devagar e não assustar os bichinhos. Vermes só são margaridas na medida do possível. Recolhi comida e fome juntas. Um urubu não faria melhor.
25.11.04
Escrever coisas
para passar o tempo
enquanto as circunstâncias
dão conta
de andar o mundo.
Escrever sobre o nada,
sobre o que quase (me) move
e aguardar
, inconsciente como possível,
que as circustâncias
(e não eu)
...
- Meu Deus, fiquei religioso.
24.11.04
o vidro vai se romper e poderemos sair a água vai vazar para todos os lados ninguém pensa nisso porque se o vidro romper e nós sairmos e a água vazar e molhar o tapete que daqui vemos de longe o que interessará é que ela a água não estará aqui nem o vidro e nós poderemos sair nós mesmos não estaremos aqui se o vidro estourar o aquário não é mais aquário é água no tapete é vidro quebrado mas não é isso é peixe que nada no ar que respira que nem gente e que anda no tapete úmido molhado de água que era aquário é cheiro de peixe no tapete quando o vidro romper e a água vazar para fazer o tapete feder nossa liberdade terá cheiro de peixe morto
22.11.04
vida de atleta
21.11.04
apenas duas mãos * sem o que escrever, publico trechos de e-mails
Sabe, não sei se o inventor de gavetas é extremamente organizado, não. Ele não separa demais uma coisa da outra, cria uma gaveta para cada, não cria uma gaveta para várias coisas. Não conheço bem o cara, tanto que não escrevi o texto, mas acho que inventar gavetas para as coisas do mundo é o modo de ele existir e apreender essas coisas. Não criar gavetas para guardar várias coisas, mas uma para cada coisa, é o contrário de ter a rigidez da organização, é apenas ir vivendo, encontrando coisas, guardando algumas e deixando outras pelo mundo, sem guardar. Ficar desesperado depende de uma expectativa organizada. Não há desespero se não se espera nada. A tensão não pode vir de simplesmente inventar gavetas. Não sei se o cara quer criar gavetas perfeitas, acho que não, nem se o cara quer criar gavetas para todas as coisas do mundo, acho que não também. Esse seria mais o Borges. A tensão existiria se ele quisesse algo e não conseguisse. Eu não sei se o inventor de gavetas tem planos.
20.11.04
gambito do rei se eu não preciso saber disso, por que é que você diz? é porque há algum sadismo, porque é difícil fazer com que as coisas não se baseiem, também, numa disputa de poder.
(e ´precisar` não é uma categoria das mais razoáveis - que é que é necessário? estou falando de sabotagem e de auto-sabotagem. e não estou falando de mim. apenas na medida em que só falo de mim.)
19.11.04
eu
16.11.04
cinqüenta por cento 6ª Festa do Livro da USP
Mais de 100 editoras vendendo suas publicações com descontos a partir de 50%.
De 24 a 26 de novembro
Das 9 às 21 horas
Prédio dos Departamentos de Geografia e História
Campus da USP - SP
não tenho um plano * nem o que escrever ... tô pensando em começar a publicar trechos dos e-mails que tenho trocado
Se eu tenho algo a dizer? Tenho tudo a dizer. Mas acredito pouco em palavras. (pseudo-escritor, quase-mestre em Literatura, leitor semi-voraz não acredita muito em palavras). Passados Cortázar e Benjamin: do Camus, você gosta? Eu gosto, muito. Lembrei dele para falar de um mundo absurdo e sem sentido em que a gente é sozinho, embora a gente só exista sozinho no mundo mesmo. Não tem a gente sem mundo nem mundo sem a gente, mas isso não garante que as coisas façam sentido. Há limtes em nossas possibilidades de organizar as coisas. Não me lembro se é do Borges ou do Cortázar uma história de alguém que queria fazer um mapa tão detalhado da terra que o único jeito de esticá-lo seria sobrepô-lo exatamente, em uma camada bem fininha, sobre a terra toda. Em busca do tempo perdido é o auge do projeto de um mundo que fazia sentido. É como escrever a Enciclopédia no século XX. Ao mesmo tempo é a evidência da impossibilidade de escrevê-la. Coincidência: tenho lido o primeiro volume nestes últimos dias.
Não estou falando de você, estou falando das coisas que eu pensei sobre as coisas que você escreveu.
Eu quis uma vez escrever uma história que se chamaria "O inventor de gavetas" (ou o inventor de caixas). Em vez da necessidade de guardar cada coisa em sua gaveta, o cara inventaria uma gaveta para cada coisa que ele visse e quisesse guardar. Não sei aonde isso iria, mas a história era essa. Tô pensando agora, acho que tem a ver com a biblioteca de Babel do Borges, que possui todos os livros possíveis (o que não serve a nada - seria como pedir a um computador que começasse a soltar caracteres aleatoriamente sobre um papel: num tempo bastante grande, é provável que ele tivesse escrito Proust inteirinho).
litertura em trânsito Sob coordenação de Claudinei Vieira, entrou no ar oficialmente literatura em trânsito na Revista Paralelos.
15.11.04
meu e-mail do ig tem dado problemas seguidos. aposentemo-lo por enquanto. tonymonti [arroba] bol.com.br é a opção viável.
13.11.04
7:53 tony é tony má é má simples assim em minúsculas e sem pontos
Pré-estréia O Especial Paulistano da Paralelos está para sair. Aperitivo neste link.
Meu conto no Especial, aqui.
9.11.04
eu e Ana não temos cães em casa (v. 1.2)
Eu dormia. Sonhava com cachorros. Sempre sonho que eles vêm me morder. Jamais sou mordido. Quando era criança, antes de aprender a chutar cabeças, os sonhos eram terríveis. Luto como um samurai, quantos forem os cães.
Eu dormia. Já passava das dez. Ana sai cedo às quintas. Aproveito algumas horas no lado quente da cama, que em regra é o dela. Os latidos não me incomodam se ainda sobra um resto do seu perfume.
Eu dormia quando a invasão anterior começou. Trancamos a porta do quarto e esperamos os cães saírem. Ana estava divina. Passamos o dia na cama. Dois pacotes de bolacha e uma jarra d'água estavam preparados de antemão. Faz um mês.
Dessa vez, ontem, dormi demais. Despertei com o bafo de dois Dobermans destruindo as bolachas no criado mudo. Enfiei a cabeça no travesseiro e chorei enquanto ouvia, finalmente, uns poucos latidos pela casa. Não são cães bravos. Eles chegam doces e se vão doces. Mas duzentos, trezentos invasores numa casa de oito cômodos seriam um problemas ainda que fossem galinhas. Um filhote de Boxer puxava redondo o travesseiro onde eu me escondia. Deixei-os brincando. Brincavam com minha casa inteira. Um São Bernardo puxava minha calça para fora do quarto. No bolso da calça, o celular. Considerando que já havia dez cães no quarto, a invasão deve ter começado quase uma hora antes. Ainda olhei para o telefone, queria falar com Ana. Os fios estavam cortados. Queria ouvir sua voz e me sentir menos só. Trezentos cães. Há quem jamais sonhe com cachorros. Invejo Ana por isso. Estivesse comigo, ela me pegaria pela mão, lembraria que caminhando lentamente, esquerda, direita, deixaríamos a casa depois de poucos minutos e alguns tropeções. Só, eu não havia saído da cama. Sentado, pernas encolhidas e abraçadas, acompanhei o movimento por cerca de meia hora.
Tive fome. Os cães se movimentam lentos. Espalham lentos seus pêlos, destroem lentos cada pedaço de almofada, perfuram e rasgam cada página de cada livro. Não os culpo. Nem por urinar em cada parede pintada há menos de um mês, depois da última invasão. Por que duas invasões tão próximas? Onze invasões na vida, duas neste mês. Há quem se sinta escolhido. Um bisavô meu teve a casa invadida quatro vezes em um ano. Ana, quando solteira, viu os cães uma única vez. Quatro já, em três anos comigo. Dessa vez, ela os veria saindo, quando chegasse. Pensaria um, dois minutos, antes de decidir que o apropriado seria me procurar e me dar um abraço longo, me levar para um hotel, me dar um banho e dormir ao meu lado. Sim, tive fome. Não encontrei os chinelos. Receei pisar algum rabo e me assustar com o grito do bicho. Caminhei até a porta e de lá à escada. Antes de descer, não resisti e olhei o caos em fabricação. Um Rotweiller enroscara-se no fio da TV. Arrastou-se e não viu o que puxava até ouvir uma pequena explosão atrás de si. Um Pastor Alemão não apenas me encarava, bem de frente - parecia sorrir enquanto cagava sobre o tapete que, até ontem de manhã, cheirava novo.
Uma fila de Poodles subia para o quarto. Aproveitei o tamanho dos cães para descer a escada. Havia ainda algo a ser aproveitado na sala. Um abajur, dois pufes. Uma poltrona de couro ainda resistia. Ficaria nova com uma pequena limpeza.
Mas era cedo: tratei de tirar da cabeça as idéias da reconstrução e me concentrar na fome. Pouco provável era que eles tivessem conseguido abrir a geladeira. Eram tantos cães que eu quase não podia ver o chão apesar de sentir seu cheiro. Senti também a pasta sob os pés enquanto caminhei decidido ao corredor que levava à cozinha. Os cães passavam quentes esfregando-se em minhas pernas como se eu não existisse. Prefiro assim, o caminho torna-se mais curto. Da sala à cozinha, dois metros. À direita, no lavabo aberto, um Fila se desencaixava de uma fêmea de Samoieda. Um Husk Siberiano o ajudou a destrepar e logo começou a arfar e babar sobre a orelha da cadela. A tampa da privada subia de vez em quando. Na privada, havia uma cabecinha latindo, um Pinscher, imagino. Com os cães ocupados, lá dentro, fechei a porta do banheiro e me senti bem por isolar quatro dos trezentos da minha convivência. Ia já entrando na cozinha quando lembrei que, se os deixasse presos no lavabo, alguém teria o trabalho de os retirar no dia seguinte, o que era melhor evitar mesmo sabendo que não seria eu a fazer o serviço. Sempre sobra algum cão. O Pinscher, por exemplo, não conseguiria acompanhar os outros durante a retirada.
Reabri a porta e a Samoieda gemia, acho que de dor. À porta da cozinha, pouco poderia ser pior, uma manada de Cockers pretos impediam minha entrada. Cinco bichinhos imbecis, em vez de me ignorarem como os demais, faziam festa como a seus donos. Encolhi os braços sobre o rosto e tive náuseas. Caminhei em passo de formiga, de olhos fechados, até deixá-los para trás, não por vontade deles, mas pela força de dois Galgos que tinham pressa da cozinha para a sala. Quase me derrubaram, mau, mas, bom, levaram quatro dos cinco Cockers. O cãozinho que sobrou deu um último pulo sobre meu braço direito antes de seguir seus amiguinhos.
Na cozinha havia uns trinta cães. Comiam a farinha que encontraram sob a pia. Reviravam o lixo, roíam ossos. Trepavam-se em fila indiana, quatro, cinco. Maxucavam-se com os talheres. As manchinhas de sangue no chão me comoveram mais que as do meus braços e pernas.
A geladeira estava fechada. Senti dentes gozando rentes a minhas pernas. Continuavam, desde que decidi enfrentar o redemoinho, a cheirar-me as intimidades. Um resto de alma ainda me sobrava. Onde estaria Ana para me emprestar um pouco da sua? Respirei fundo e planejei meus últimos movimentos. Busquei na memória a posição de cada coisa dentro da geladeira. Calculei a quantidade de passos até a porta dos fundos. Estava aberta. A partir desta porta, apenas aguardaria o fim. Empurrei com as forças que me sobraram uma turminha de Beagles que me impedia de alcançar a geladeira. Rápido, puxei a porta. Antes de pegar uma caixa de leite, a movimentação dos cães ficou mais intensa. O cheiro. Como podem?
Passei a mão em um litro de leite, uma garrafa de suco de laranja, duas maçãs, um pedaço de queijo branco, uma lata de leite condensado e uma caixa com um resto comida chinesa. Agarrei firme e, em quatro passos largos, atravessei a porta. Fiz a volta na casa pelo corredor lateral. Respirava, já, bastante bem.
Sentei-me num banco da praça em frente à casa, coloquei as coisas ao meu lado e aguardei. No meio da tarde, quando Ana chegou, encontrou-me comendo, sujo, de olhos fechados. Mesmo que não houvesse o fedor nem eu estivesse ali aguardando, uns vinte cães em volta da casa a avisariam sobre o que acontecia. Não a vi se aproximar. Abraçou-me e me levou a um hotel antes que, no fim da tarde, eles deixassem a casa.
hahaha
sucesso
na brincadeira, perdi o último post...
e os comentários
se quiserem reescrever tudo - se não me engano, eram 71 comentários.