e X a t o a c i d e n t e
Tony Monti lê, escreve e apaga
2007

Capa de o menino da rosa Capa de O Mentiroso








????




*************** blog novo *************

*** Este blog está em novo endereço ***

*** visite: http://www.tonymonti.wordpress.com ***





25.10.04


Fragmento: a porta é por onde se entra

Um objeto complexo como A Paixão segundo G.H. nunca abre uma única porta à entrada de um sujeito. À minha primeira leitura, feita há não muitos anos, porta alguma foi aberta, pelo menos nenhuma que eu conseguisse definir, sem dúvida, como porta. Duas ou três leituras depois, tantas portas tinham sido abertas que eu não sabia por qual delas entrar. Na indecisão, parece que todas elas foram fechadas novamente. Depois de um tempo, comecei a entrar pelas portas, sem escolher demais. A alternância entre nenhuma e muitas portas ainda não parou. Às vezes o livro me faz sentido nenhum, às vezes tanto(s) sentido(s) que tudo me parece óbvio a ponto de nem merecer ser expresso.

Conforme fui tomando nota (inicialmente) e escrevendo a dissertação (ultimamente), a idéia de totalidade que não existia na primeira aproximação ao livro foi se formando. Mas foi também se deformando a cada nova leitura e a cada nova reflexão. Cada parágrafo escrito da dissertação exige a releitura de todas as páginas anteriores e posteriores a ele. Cada mudança na idealização do todo exige a mudança de toda mínima fração das minhas idéias sobre o livro.

Por essa dinâmica tensa na minha relação com o A Paixão segundo G.H. e com a dissertação é que tento me impor, sempre, apesar de também dinâmica, uma noção de totalidade. Tomo isso como modo de organizar pensamentos e evitar que a dissertação seja tão ou mais caótica que o objeto que me dispus a estudar.

Enfim, é preciso organizar, não aderir simplesmente ao discurso da autora. De algum modo, é mais ou menos como o esforço de G.H. para pôr ordem em sua experiência disforme com a barata.

A ordem atual da minha produção sobre o livro está baseada em uma idéia de totalidade que, acredito, precisa ser apresentada agora, de modo a localizar neste todo as partes já escritas da dissertação, além de resumir o que ainda está por ser escrito.




mariana newlands é uma garota esperta.


24.10.04


andré fernandes voltou a publicar no seu contob .


23.10.04


Sentei sozinho no degrau da porta do bar. Lá dentro o barulho, a festa, a bebida. Mulheres também, poucas. Nessas horas gosto de imaginar quem poderia sentar-se ao meu lado. Pensei em Marina mas poderia pensar em qualquer um. Ou ninguém. Marina não estaria lá. Não considerei pouco prático da minha parte lembrar dela nesta hora. Pensar não concretizaria nada aos olhos dos outros, verdade, mas apararia umas pontas vivas que, embora discretas, insistiam em me perguntar algo sem resposta "que é que você está fazendo aqui?"


21.10.04


repostagem:

Sobre cervos suculentos e cadelas no cio
v. 1.1

Ao contrário dos demais, o japonês chegou andando sem se apoiar em nada. Sentou-se numa cadeira à beira da piscina e, sem muita dificuldade, retirou o agasalho vermelho e branco. Retirou, em seguida, as duas pernas e um dos braços. Arrastou-se até a beira da piscina e deixou-se cair na água. Logo que emergiu, levantou o braço bastante forte e segurou a borda com firmeza. Sorria e observava o público. Nas demais raias, representantes de outros países deixaram suas cadeiras de rodas, suas muletas e seus técnicos, e ocuparam as posições de largada.

O estilo do nado não é previamente determinado devido às evidentes diferenças entre os competidores. A restrição é que se possua no máximo dois dos membros do corpo. Neste ponto, o japonês começava inferiorizado, já que possuía apenas um. O nadador sueco impressionava. Estava já cansado enquanto aguardava a ordem de largada. Acima da água, sua cabeça balançava de um lado para o outro desenhando um oito no ar. Embaixo da água, o tronco sustentava o movimento. A ausência de pernas e braços era compensada por um tórax superdesenvolvido.

Ao tiro de largada, a maioria dos atletas partiu com facilidade em direção à borda oposta. Em pouco menos de dois minutos teriam ido e voltado percorrendo assim os cem metros da prova. O loirinho sueco, logo que foi dado o tiro, mergulhou e voltou à tona, segundos depois, cerca de dois metros à frente. Colocou-se então de costas, rosto para cima, e debatendo-se venceu centímetro a centímetro os primeiros metros da prova. Seu rosto, visível a todo o público, agonizava como que à beira da morte. Cada músculo dedicado à tarefa única de chegar à margem oposta. Nisso não se diferenciava dos demais. (atravesasar a piscina, apesar das diferentes bandeiras, era o total das regras morais dos oito atletas) Miríades de bestas concentradas atrás de uma única presa ou de uma única fêmea. Não existiram para eles, durante os minutos da prova, o público, a vida, cervos suculentos ou cadelas no cio. A compulsão pela realização da tarefa apagou de suas mentes mesmo as medalhas dos três primeiros colocados, o hino nacional e o beijo da grega que colocaria a coroa de louros nos vencedores. Seus lábios vermelhos tocariam o rosto dos melhores, mas eles, da piscina, não pensaram nisso. O japonês, já recomposto dentro do seu uniforme, assistiu das arquibancadas, com as pernas cruzadas, à entrada da grega no parque aquático. Caminhava bem em suas pernas humanas. A princípio, o japonês invejou os dois americanos e o alemão que compuseram o podium e que receberiam os beijos. Mas quando a moça se aproximou do americano terceiro colocado, sentado em sua cadeira de rodas, sorrindo e balançando louco sua perna direita e seu braço esquerdo, o japonês fechou os olhos e deu as costas para a piscina. Não viu o americano receber o beijo da mulher a quem nunca mais nenhum dos dois veria.


20.10.04


porque isso é um blog
ontem um rapaz me parou num corredor, se apresentou e disse "você não ganhou aquele prêmio?". eu achei estranho, mais estranho quando ele, depois de alguma conversa, me perguntou meu nome. o cara sabia coisas sobre mim sem saber meu nome. ainda tentei me livrar de qualquer coisa, não sei o que, e perguntei como é que ele sabia quem era eu. ele disse que não se lembrava, que alguém tinha dito para alguém, mas que outra pessoa também tinha dito, não tinha certeza.

deve ser por isso que os candidatos a prefeito emporcalham a cidade com seus nomes e números.


19.10.04


mágica
o truque do desaparecimento, coisa assim, a varinha mágica, as palavras mágicas e o mágico some, deixa a internet e vai ler um livro, os espectadores ficam sem espetáculo, encaram-se sós, sentem o próprio corpo. são até capazes de buscar umas idéias superficiais mas autênticas em algum lugar. o mágico não volta, alguém foi ler um livro. mais um e mais um. mágica. não, os mesmos. ao fim de alguns dias, o mágico volta e: nada. nada. a maioria ainda esperava o fim do truque. o mágico agradeceu as palmas. nada, nada parece diferente. lentas, as coisas. lentas, as superfícies. da próxima vez, tentará o mágico outras geometrias.


crise?
do portal literal, sobre este blog (texto de Marcelo Moutinho, com colaboração de Flávio Izhaki):

O mentiroso, de Tony Monti - O autor posta trechos experimentais e pequenos contos próprios. Trabalha bastante as entrelinhas e o não-dito, encampando a idéia que dá nome ao blog e ao seu livro de contos. Atualmente, O mentiroso está em crise de identidade, e muda de nome a cada dia. Atualizado diariamente. Em www.monti.blogger.com.br.

hehe, boa essa.


17.10.04


fransueldes tem um blog.


16.10.04


porque não adiana trocar kant por hegel por sartre por platão por aristóteles
se a razão diz não. se a razão diz não. se a razão diz não. chame o papa ou me dê um abraço.


14.10.04


sobre os nomes
É coincidência que Clarice, Rachel, Lygia e Cecília não sejam Lispector, Queiroz, Telles e Meireles? E que Joaquim, João, Carlos sejam Machado, Rosa e Drummond? Bandeira, Macedo, Cruz e Souza. Mário é Mário porque há Oswald. João Cabral é João Cabral. Graciliano é Graciliano.


A moralidade. Seria simplório pensar que o problema moral em relação aos outros consiste em agir como se deveria agir, e o problema moral consigo mesmo é conseguir sentir o que se deveria sentir? Sou moral à medida que faço o que devo, e sinto como deveria? De repente a questão moral me parecia não apenas esmagadora, como extremamente mesquinha. O problema moral, para que nos ajustássemos a ele, deveria ser simultaneamente menos exigente e maior. Pois como ideal é ao mesmo tempo pequeno e inatingível. Pequeno, se se atinge; inatingível, porque nem ao menos se atinge. "O escândalo ainda é necessário, mas ai daquele por quem vem o escândalo" - era no Novo Testamento que estava dito? A solução tinha que ser secreta. A ética da moral é mantê-la em segredo. A liberdade é um segredo.

Embora eu saiba que, mesmo em segredo, a liberdade não resolve a culpa. Mas é preciso ser maior que a culpa. A minha ínfima parte divina é maior que minha culpa humana. O Deus é maior que minha culpa essencial. Então prefiro o Deus, à minha culpa. Não para me desculpar e para fugir mas porque a culpa me amesquinha.


* d'A Paixão Segundo G.H.


13.10.04


Mas se eu gritasse uma vez só que fosse, talvez nunca mais pudesse parar. Se eu gritasse ninguém poderia fazer mais nada por mim; enquanto, se eu nunca revelar a minha carência, ninguém se assustará comigo e me ajudarão sem saber; mas só enquanto eu não assustar ninguém por ter saído dos regulamentos. d'A Paixão Segundo G.H.


Roma
os caminhos me levavam hoje ao CINUSP mas desisti. hoje não teve Fellini.


12.10.04


esconda suas fraquezas, meu querido, quero você forte.


questões ordinárias
será que um dia eu vou envelhecer?
existe a possibilidade de eu um dia ter cinqüenta anos?


9.10.04


Fellini 5
Ontem foi dia de satyricon. Ainda prefiro la dolce vita.


6.10.04


Fellini 4
Por falar em Fellini, fui informado há meses, logo que publiquei duzentos e dezessete (sobre o último do Marinelli), que Fellini cita Marinelli em um de seus filmes, antes mesmo de Marinelli existir. (se não me engano, em oito e meio - que eu devo assistir pela primeira vez na semana que vem durante o ciclo Fellini do CINUSP). A surpresa agora é ter encontrado um texto do Alessandro Garcia sobre Zaragalli, cuja obra dialogou sempre com a de Marinelli, às vezes no acordo, às vezes no impasse, às vezes no desacordo.


Fellini 3
Hoje foi dia de La Strada.


metamorfose
Saiu ontem o segundo número da Revista Metamorfose, do pessoal da faculdade de Letras da USP. Sucesso. O Eduardo feliz, a Andréa feliz, todo mundo feliz. Na revista, conto meu. Dei uma folheada, muito legalzinha. Não perca.


Fellini 2
Em La dolce vita, a estrela do cinema interpretada por Anita Ekberg entra numa fonte que encontrou por acaso às cinco da manhã. Marcello (Marcello Mastroiani), que estava lá para cuidar da moça, olha a cena e, deslumbrado, diz "você está certa, você está certa, todos os outros estão errados".

Em Clown, um circo se apresenta em Roma. "parabéns, foi um sucesso." "não, ninguém riu" "parabéns pelo sucesso" "mas ninguém riu" "ninguém ri aqui".


4.10.04


Fellini
Procuro bem menos o diretor no filme do que procuro o autor em qualquer livro. Procuro, mas menos. No cinema estou mais próximo de sonhar do que quando leio. Talvez por força das demais atividades literárias, eu leio acordado demais.

La Dolce Vita começou e eu reclamava comigo, nos primeiros minutos, de um possível excesso de falas. Passou. Três horas num cineminha não muito confortável com um som não muito bom. Foi bom. Algumas cenas muito, muito boas num filme muito, muito bom.

E, como se eu fosse jornalista: Ciclo de filmes de Federico Fellini no CINUSP, de segunda a sexta, às 16 e às 19.


2.10.04


Sobre avestruzes suculentos e cadelas no cio

Ao contrário dos demais, o japonês chegou andando sem se apoiar em nada, sentou-se numa cadeira à beira da piscina e começou a retirar o agasalho com alguma dificuldade. Retirou, em seguida, as duas pernas e um dos braços. Arrastou-se até a beira da piscina e deixou-se cair na água. Logo que emergiu, levantou o braço bastante forte e segurou a borda com firmeza. Sorria e observava o público. Nas demais raias, representantes de outros países deixaram suas cadeiras de rodas, suas muletas e seus técnicos, e ocuparam as posições de largada.

O estilo do nado não é previamente determinado devido às evidentes diferenças entre os competidores. A restrição é que se possua no máximo dois dos membros do corpo. Neste ponto, o japonês começava inferiorizado, já que possuía apenas um. O nadador sueco impressionava. Estava já cansado enquanto aguardava a ordem de largada. Acima da água, sua cabeça balançava de um lado para o outro desenhando um oito no ar. Embaixo da água, o tórax e o abdome sustentavam o movimento. A ausência de pernas e braços era compensada por um tórax superdesenvolvido.

Ao tiro de largada, a maioria dos atletas partiu com facilidade em direção à borda oposta.. Em pouco menos de dois minutos teriam ido e voltado percorrendo assim os cem metros da prova. O loirinho sueco, logo que foi dado o tiro, mergulhou e voltou à tona, segundos depois, cerca de dois metros à frente. Colocou-se então de costas, rosto para cima, e debatendo-se venceu centímetro a centímetro os primeiros metros da prova. Seu rosto, visível a todo o público, agonizava como que à beira da morte. Cada músculo dedicado à tarefa única de chegar à margem oposta. Nisso não se diferenciava dos demais. Concentravam-se como macacos atrás de um único avestruz, como cães atrás de uma única fêmea. Não existiram para eles, durante os minutos da prova, o público, a vida, avestruzes suculentos ou cadelas no cio. A compulsão pela realização da tarefa apagou de suas mentes mesmo as medalhas dos três primeiros colocados, o hino nacional e o beijo da grega que colocaria a coroa de louros nos vencedores. Seus lábios vermelhos tocariam o rosto dos melhores, mas eles, da piscina, não pensaram nisso. O japonês, já recomposto dentro do seu uniforme, assistiu das arquibancadas, com as pernas cruzadas, à entrada da grega no parque aquático. Caminhava bem em suas pernas humanas. A princípio, o japonês invejou os dois americanos e o alemão que compuseram o podium e que receberiam os beijos. Mas quando a moça se aproximou do americano terceiro colocado sentado em sua cadeira de rodas, sorrindo e balançando louco sua perna direita e seu braço esquerdo, o japonês fechou os olhos e deu as costas para a piscina. Não viu o americano receber o beijo da mulher a quem nunca nenhum dos dois possuiria.


1.10.04


eu por aí
De vez em quando tenho a surpresa boa de receber algum elogio pel'O mentiroso. As últimas semanas têm sido legais. Daniel Galera, Flora Sussekind, um pessoal da Unicamp (Faculdade de Letras) e mais três ou quatro pessoas que apareceram do nada para dizer que gostaram do livro. Curioso é que os contos foram escritos há mais de dois anos (três anos no caso dos mais antigos), publicados há mais de um, e que as questões que os motivaram já não me são tão próximas. Eu tenho escrito outras coisas, tenho escrito diferente.

Hoje, acordei e fui dar uma olhada nos e-mails. Novo número da Revista Bestiário. A surpresa boa de hoje foi uma mini-resenha do Paulo Scott sobre o livro.








[Powered by Blogger]