O Mentiroso foi escolhido como o melhor texto de 2002 pelo júri do Projeto Nascente - USP.
Tony Monti é paulista. Lê e escreve. Contrariando as previsões mais otimistas, terá trinta anos antes do fim da década. Quando você telefonar para sua casa, ele estará dormindo. Em seus sonhos, ainda mora na casa onde passou a infância. Não pretende mudar, por enquanto.
Depois do sucesso dos cartazes do evento PÓQUET: Ruído e Literatura >>> escritores que tocam, músicos que escrevem <<< - que em suas dez edições se tornou um dos eventos culturais mais cultuados nos anos de 2002 e 2003, em Porto Alegre, (passadas as datas, os cartazes eram retirados por pessoas que já os haviam reservado com os donos dos estabelecimentos onde estavam fixados, com o propósito de colecionar) - Paulo Scott (escritor, autor dos livros "Ainda orangotangos", Livros do Mal, 2003, e "Histórias curtas para domesticar as paixões dos anjos e atenuar os sofrimentos dos monstros", Sulina, 2001) e Fábio Zimbres (editor, cartunista e ilustrador; Revista Animal, Edições MINI-TONTO, Caderno Ilustrada da Folha de São Paulo) iniciam um novo projeto: o "Na TáBUA".
Serão três cartazes em formato A3, com edição mensal, contendo contos curtos, na parte superior, e desenhos, na parte inferior, (sempre em preto e branco), para serem afixados em livrarias, cafés e espaços culturais, inicialmente, em cinco cidades: Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e Belo Horizonte.
A cada mês, haverá convidados (escritores e ilustradores) que realizarão trabalhos inéditos especialmente para o "Na TáBUA". Na primeira edição (mês de agosto), além de Paulo Scott, haverá os textos de Luiz Ruffato (Eles eram muitos cavalos, BOITEMPO) e Daniel Galera (Dentes Guardados, LIVROS DO MAL), com os desenhos de Fábio Zimbres. Na segunda edição, estarão Marçal Aquino e Cardoso (do cardosoonline).
Participarão das outras edições, os escritores: Luiz Fernando Veríssimo, João Gilberto Noll, Daniel Pellizzari, Sérgio Sant´anna, Cíntia Moscovich, Marcelino Freire, Clarah Averbuck, Joca Terron, Ivana Leite, Sérgio Fantini, Gilson Vargas, Fabrício Carpinejar, Cecília Giannetti, Frank Jorge, Ronaldo Bressane, Tony Monti; e os desenhistas: Angeli, Adão Iturrusgarai, Alemão Guazzelli, Guilherme Pilla, Emerson Pingarilho, Carlos Ferreira, Rodrigo Rosa, dentre outros estrangeiros (argentinos e espanhóis).
Serão trinta edições (portanto, mais de dois anos) que virarão um álbum de luxo a ser publicado ao mesmo tempo no Brasil e na Espanha, possivelmente com o apoio da editora espanhola MEDIA-VACA.
A idéia básica - além da diversão de fazer (o projeto será tratado sem pressa) - é misturar meios, realizar com cuidado artesanal (não exatamente na contra-mão, mas complementarmente ao que se constata, hoje, na media eletrônica) a veiculação dos novos nomes e estilos - literários e do campo da ilustração - que têm a admiração dos realizadores.
O lançamento ocorrerá em São Paulo, no dia 05 de agosto, na Mercearia São Pedro, Vila Madalena, às 20 horas, com a presença de vários escritores e ilustradores que participarão do projeto.
terça-feira Na terça-feira próxima, dia 3 de agosto, será lançado o Fragmentos de Alberto, Ulisses, Carolina e eu, de Julián Fuks (que é gente muito boa). O livro ganhou o Prêmio Nascente da USP em 2003. Não li o livro do Julián, ainda, mas os livros que ganham esse Prêmio costumam ser bons. Dos pulbicados, li um só, O mentiroso, e afirmo sem medo de errar que é o livro que mais mudou minha vida. Eu estarei lá.
30.7.04
Repostagem - Terceiro encontro mundial organizado pelO mentiroso (o blog!) É hoje, a partir das oito e meia da noite, no Escócia Burguer (Rua Augusta - em frente ao Espaço Unibanco de cinema). Os anfitriões, desta vez, serão a Lilia, o Zé Medeiros (de novo) e o André Fernandes (confirmados, os três!). Quem for, verá.
Em cismar, sozinho, à noite Sonhei com isso. Tivesse sonhado uns duzentos anos antes, escreveria mais três estrofes e completaria um sonetinho à italiana.
Nem gota da palavra que cuspiste
Escapa desta sede que invento
com medo que reclames do intento
de eu ter, sem te pedir, tudo o que existe.
28.7.04
Primeiro convite - Terceiro encontro mundial organizado pelO mentiroso (o blog!) Será na sexta-feira, a partir das oito e pouco da noite, no Escócia Burguer (Rua Augusta - em frente ao Espaço Unibanco de cinema). Os anfitriões, desta vez, serão a Lilia, o Zé Medeiros (de novo) e o André Fernandes (confirmados, os três?). Quem for, verá.
Segundo convite Na terça-feira próxima, dia 3 de agosto, será lançado o Fragmentos de Alberto, Ulisses, Carolina e eu, de Julián Fuks (que é gente muito boa). O livro ganhou o Prêmio Nascente da USP em 2003. Não li o livro do Julián, ainda, mas os livros que ganham esse Prêmio costumam ser bons. Dos pulbicados, li um só, O mentiroso, e afirmo sem medo de errar que é o livro que mais mudou minha vida. Eu estarei lá.
Informações: 03/08, terça, a partir das 20:00, Bar Balcão, Rua Dr Melo Alves, 150 - Cerqueira César.
26.7.04
Paraty (13) - afinal, o que é literatura (2) Tanto escritor de romance grande por Paraty. Gostei foi do que disse o Angeli. Não me lembro das palavras. Digo como se fossem minhas. E são. Mas são dele também. Que o que se escreve ganha intensidade quando se fala de uma questão para a qual ainda não se tem boas respostas. Neste ponto, escrever, para o escritor, é ir desvendando enigmas. Não é a resposta, é a pergunta. A Rê Bordosa é o Angeli. Era. Enquanto foi questão, foi personagem. (Ana sou eu? - em algum idioma, sim)
Mas ainda existem as questões que nunca chegam a uma resposta, há os temas que nem são perguntas, são um pouco menos, são um olhar. Literatura, acho, se faz disso também. Olha eu falando de mistério e enigma de novo. Idéias fixas. Literatura também é o olhar sobre o insondável. Quem é que entende o que eu quero dizer?
Paraty (12) - o que é literatura (1) Não tem poesia na FLIP, não na in-FLIP. Se são poetas, estão lá pelos contos e romances. Poesia não é FLIP. Só na rua, no meio do redemoinho. Poesia não vende, isso sem dúvida, talvez não vender se relacione à séria questão de a festa ser patrocinada por multinacionais e empresas brasileiras enormes. Dinheiro é um critério de Literatura na FLIP. Eu adorei tudo, já não disse? Poesia não vende, lembrei uma ou duas vezes por lá, enquanto me divertia.
24.7.04
constatação curtinha o número de acessos ao blog aumenta quando diminuem de tamanho os textos aqui publicados.
há também mais acessos quando eu sou mais explicitamente pessoal, quando me desmancho em angústias, quando reclamo da vida.
tendência: poucos acessos nas próximas semanas.
23.7.04
Rio só curva
O homem do rio dormia. Sonhava com mulheres, foi o que me disse depois. Acreditei, mas não descarto que tenha mentido. Seus trapos e seu cheiro combinavam com a água escura, com as embalagens plásticas e com o esgoto que, associados, eram o rio do homem. Morava embaixo da ponte azul. Já tinha corrido todas as outras cores de pontes cinza de São Paulo. O homem do rio dormia. O mato o escondia da visão de quem passava nos veios de carros que cercam o rio. A fumaça e o barulho que ardiam em mim, aos sentidos do homem eram paisagem.
Tossi para chamar sua atenção, ainda a uns cinco metros dele. Nem porta nem janela nem teto. Formalidades: esperei que me convidasse a entrar, mas ele não acordou. Desci mais a costa. A dois metros do homem, arranquei uma pedra do chão de terra e mato. Mirei na cabeça. Pedra pequena, mirei foi no rosto do insensível. Arremessei fraco. Um besouro: o homem espantaria com a mão a pedra que já teria sumido. Acertei o peito e ele acordou. Coçou o sovaco. Seu corpo acompanhava o contorno das pedras. Procurou com os olhos o invasor. Perguntou com a cabeça o que é que havia. Mostrei ambas as mãos espalmadas e sorri sem expor os dentes. Sentou-se e, olhando para mim, deu duas palmadas fortes na pedra a seu lado. Sério. Aceitei o convite, caminhei os dois metros que nos separavam e sentei ao lado do homem.
continua ...
(*trecho inicial de rio só curva)
22.7.04
Grand Guignol As used today, the term 'Grand Guignol' (pronounced Grahn Geen-yol') refers to any dramatic entertainment that deals with macabre subject matter and features ¿over-the-top¿ graphic violence. It is derived from Le Theatre du Grand Guignol, the name of the Parisian theatre that horrified audiences for over sixty years. The theatre was founded in 1897 by Oscar Metenier, a playwright of the naturalist movement who had previously been associated with André Antoine's Theatre Libre. A typical evening at the Grand Guignol Theatre might consist of five or six short plays, ranging from suspenseful crime dramas to bawdy sex farces. But the staple of the Grand Guignol repertoire was the terror play, which inevitably featured eye-gouging, throat-slashing, acid-throwing, or some other equally grisly climax. (retirado de http://www.grandguignol.com/, onde há informações completas sobre o tema).
Como já disse, está rolando um sangrento especial Grand Guignol na Paralelos. Há lá o candiru.
21.7.04
Paraty (11) - vaidade Um dos principais temas em Paraty foi a exposição e aproximação pouco comum que tiveram escritores e seu público. Há os mais sociáveis, os menos sociáveis. Fiquei pensando no caso específico de três deles, que se dizem reclusos, que se dizem tímidos, que se armam, até, de timidez, e que enfrentaram a exposição. O que eu quero dizer, aviso antes de dizer, é que a questão não é tão simples, que artista é meio pavão, que escritor, no mínimo, acha que tem uma coisa para dizer, e quer ser escutado. Não é possível não se expor, a questão é mais complexa que dizer que o Luis Fernando Veríssimo morreu de timidez e disse muito pouco nas duas mesas de que participou. Pois foi o único escritor, o tímido de plantão, que esteve em duas mesas regulares da FLIP. Porque ele quis. Não precisava, precisava? Tem dinheiro suficiente, publicidade suficiente, meios suficientes para dizer sem estar lá. Não precisa aparecer em eventos para alguns milhares de pessoas, precisa? Se não quiser, não. Pois esteve lá, em duas mesas, no meio da confusão. Ficou tenso ao ler um texto, tremeu discretamente. Eu desconfio que deve haver para ele algum prazer em vencer o palco armado de timidez. Timidez pode ser estratégia, sem deixar de ser timidez mesmo. Não é fingimento, não é mentira. Estratégia, só. E tirou foto com crianças, e deu autógrafo, e andou na rua e não se escondeu em Paraty. Esteve em todos os lugares o tempo todo.
Sobre o Angeli, menos a dizer, passou discreto, disse bem, tomou quieto sua cerveja. Vaidoso, artista, mas discreto. O Marlon Brando disse uma vez que para reconhecer um ator numa festa basta olhar para o cara que se entedia quando a rodinha onde ele está pára de falar dele. Ator, artista. Alguma relação deve haver. Não quero dizer o contrário do que digo, nem o contrário do que dizem, quero apenas relativizar umas coisas.
O Chico Buarque não passa discreto nem que quiser. Só se não passar. Ou passou e eu não vi? O Caetano Veloso, de quem todo mundo diz que é pavão mesmo, ficou bem quietinho. Perguntaram ao Chico Buarque uma vez qual seria o melhor momento do seu show. Ele disse que era o fim, que tudo aquilo era uma via-crucis. Que seja, a via-crucis leva justamente à redenção. Algum prazer deve haver. E não é pecado, não.
20.7.04
Guignol apéritif
De novo, não! Não agüento esses pelinhos. Lembra da época em que você pescava? E eu dizia "tem que tirar a cabeça". Você pesca, você limpa, você prepara. Achei que tivesse aprendido, mas foi só mudar a brincadeira, tenho que explicar tudo de novo!? Homem é igual a criança. Tem que tirar os pelinhos, João. Todos. A cabeça, os pés - os pés são nojentos. Uhh. Tem que cortar tudo em quadradinhos bem pequenos. Ou em bife. E deixar tudo bem passado. É mais fácil ensinar um cachorro! E, João, principalmente, olha para essas mãos ahh não quero ver bicho com cinco dedos em cima da minha mesa. Isso é coisa que se come nesses botecos por onde você anda. Aqui, não! Tem que arrancar as mãos, João!
* Também na Paralelos, especial Grand Guignol, também com texto meu: Candiru, mais um conto sobre bichinhos. O que é Grand Guignol? no editorial.
Paraty (10) - hoje não tem Paraty So I wasn't dreaming, after all, she said to herself, unless, unless we are all part of the same dream (Lewis Carrol - Through the Looking-Glass)
18.7.04
Joga as tranças ...
Paraty (9) - Futebol sem gol (2) Eu adoro Chico Buarque. Ainda assim, pretendo não repetir o nome dele nos próximos vinte dias. Para não desgastar a imagem.
Mote à reflexão: arte e artista são coisas muito diferentes? Que é que há além do ser humano? Com gol mesmo também é arte. Com gol mesmo é bem humano. Sem gol pode ser arte. Sem gol é artificioso? No futebol não é preciso usar a palavra.
Paraty (8) - futebol sem gol Ouvi uma vez o Mário Chamie defendendo a idéia do futebol sem gol, a pura arte, um balé. Em Paraty, não fiz gols.
Mas tem uma história. Em 99, juntei meus trocos e fui para Barcelona (e uns arredores). Era aniversário de 100 anos do clube Barcelona. Chamaram para a festa uns ex-jogadores. Bati uma bola com o Ronaldinho. Eu e o Adal. Lindura. Futebol sem gol, tocamos a bola numa rodinha de brasileiros. Eu, o Ronaldo, o Adal e mais uma meia dúzia.
Em Paraty, festa literária, não joguei bola com o Ronaldinho.
17.7.04
sábado Estou com problemas de comunicação na Bat Caverna. Se eu sumir, sumo depois de ter agora avisado.
Paraty (7) - nem um telefonema Há um ano, pelas vias mais improváveis, Lygia Fagundes Telles apareceu no lançamento do meu livro e levou um mentiroso para casa. Na despedida, ainda me disse "tchau, menino" e depois de um sorriso acrescentou "agora me dá um beijo". Caprichei. Desde então, aguardava um telefonema, um e-mail, uma carta. Notícias, enfim. Em Paraty, a Lygia passou e não me viu, anônimo. Foi por causa das ruas de pedra - em Paraty todo mundo anda olhando para baixo, para não tropeçar. Quase que não a vejo também, na rua, por causa das pedras.
Quando saí de São Paulo, desliguei o celular e não telefonei para ninguém. Voltei e estava tudo igual. Igual. Menos eu. Em Paraty, dividi a rua com todo mundo, dividi a cerveja com todo mundo, todo o meu mundo foi Paraty por dias. Abracei a cidade (e não se abraça sozinho). O Paul Auster em todo lugar, Luis Fernando Veríssimo em todo lugar, a Luciana, a Lidiane, a Tatiana, o Fransueldes, o Claudinei, o Alessandro. Em todo lugar. Legal que as ruas sejam de pedra e não ladrilhadas com pedrinhas de brilhante.
Surpresa as perguntas do Miltom Hatoun. A que ele fez ao Paul Auster era a minha pergunta. Quem é que leu A Invenção da Solidão? É daquelas coisas reais ("it´s truth" disse o Paul Auster) que de tão extraordinárias são inverossímeis. O Chico Buarque, não o vi na rua. Dizem que esteve. Esteve muito, isso sim, foi nos jornais. O Chico Buarque se disse cansado de ouvir escritor dizendo que lê Kafka, Flaubert e Dostoievski. Que se escritor não lê seus pares, os contemporâneos, quem é que lerá?
* num dos próximos textos, a pedidos, o futebol com Chico Buarque
Paraty (5) - tietagem, música e e outras literaturas Fiquei imaginando o que seria da Festa Literária de Paraty sem os eventos não literários. Não falo da cerveja e do pessoal na rua, que isso aconteceria de algum modo. Não do mesmo modo, quase certeza. Sem a música e os músicos, a FLIP teria sido mais literária e menos festa. O Chico Buarque disse, sobre os escritores, que eles são esquisito. "Eles", disse o Chico. Porque o Chico é músico. E só um músico lotaria todos os auditórios disponíveis. E as escadas, e os arredores. E saiu do auditório sob apalusos e gritinhos histéricos. O Paul Auster (uma das grandes atrações estritamente literárias), que dividiu a mesa com o Chico Buarque, passaria como passou a Margaret Atwood. Discreta. Uma fila de quatro horas aguardaram meia hora de autógrafos do Chico. Liz Calder, a patrona do evento, se derramou em elogios às canções do escritor. Ninguém se derramou de elogios, de modo semelhante, a nenhum escritor que não fosse músico, que eu tenha visto. A música seduz demais. Eu adoro Chico Buarque. Fui a um show dele uma vez. Meninas de quinze a setenta anos gritavam Chicôôoo. Minha namorada, ao meu lado, quietinha. Seduzido, eu também, disse que ela podia gritar se quisesse. Chicôôoo.
Enfim, dos não escritores (alguns também escritores), gostei do pocket show do Caetano, mesmo tendo ele lido a letra da própria música. Não achei o fim da picada. Não achei nada. Fui alertado que ele lia, já tinha visto, e só então percebi que não era o procedimento usual. A carta do Manuel Bandeira ao Guimarães Rosa, lida por ele, é linda. Gostei da vivacidade do Chico Buarque, não o via vivo assim há um tempo. E gostei muito do Angeli, que sabe que fazer arte política não é fazer arte sobre políticos, que parece saber muito das coisas do mundo, que diz que faz histórias e personagens enquanto não entende as histórias e os personagens. Quando entende, dá um jeito de parar. Entendi o Angeli. Foi o escritor (incluí nessa categoria os escritores não escritores), dos que assisti, que mais me despertou interesse sobre a própria obra. Escritores são mesmo gente muito esquisita.
14.7.04
Baixou a repressão Este blog, já há algumas semanas, vai caminhando para a imbecilização. A fim de frear e inverter o processo, os posts sobre Paraty serão diminuídos em número. Seriam uns doze. Serão uns seis. A opção agora é pelo silêncio.
Paraty (4) - cerveja, Kubrick e o resto Passou também pela mesa do Beija Flor, falando de Chaves e Kubrick, mais um montão de gente. Isso aqui tá parecendo revista de fofoca, me dou conta só agora (este último post, a parte 3, deveria ser apagado e reescrito inteiro). Abraço aos que eu citar. História eu conto depois, quando tiver algo significativo a dizer. Baixou a censura.
Julian Fuks (lança livro em breve pela 7 Letras, aviso quando ele me confirmar a data) e Adauto Leva. Alessandro Garcia, que já tinha me citado no seu blog e não lembrava disso. Lembrou. Não sou só eu que esqueço as coisas. A encantadora Simone Paterman Brasil esteve também sempre por perto. A Fabíola Moura, dos olhos azuis. Passaram também pela mesa a Mara Coradello - finalmente pudemos trocar nossos livros e conversar - e o Paulo Scott. Gostei de todos, isso não é comum. (em vez de revista de fofoca, parece agora coluna social - preciso afiar o estilo.)
13.7.04
Prosa do observatório
Acabei de reler, agorinha, o Prosa do Observatório, do Cortázar. Estava procurando uma citação. Na verdade, eu já tinha a citação, queria era entender o contexto. Que livro estranho esse. Diferente. Será que alguém leu e quer me dizer algo sobre ele? (a citação que eu procurava era: "Nada mais material e dialético e tangível que a pura imagem que não se ata à véspera."
Paraty (3) - o pessoal que fez História Fiquei em Paraty num albergue cheio de gente legal. Um dos melhores momentos em Paraty foi com essa gente, bebendo e falando bobagem numa mesa do Beija Flor, o bar onde falta cerveja quase todo dia. Começamos falando de qualquer coisa e encontramos um bom assunto no cinema - passamos por Godard e Fellini, acabamos em Chaves e Chapolin. O pessoal:
A Lidiane (Soares Rodrigues) é ótima. A Lidiane fez uma disciplina comigo na USP há uns anos sobre a Clarice Lispector. Coincidência. Esteve quase sempre por perto em Paraty. Esteve por perto no dia em que o pessoal só não viu o sol nascer porque o dia estava nublado. Espero poder encontrar a Lidiane de novo por aqui. A Lidiane é amiga da Luciana (Bilhó Gatamorta).
Quando vi a Luciana no albergue, tinha certeza de que a conhecia. Disse isso pra ela, num dia em que já tinha bebido um pouco (até pensei que soaria para ela como paquera barata o "te conheço de algum lugar", mas ela disse que também me conhecia). Concluímos que era dos corredores da USP. Acrecentou que talvez nos conhecêssemos de outro lugar também. Um dia depois, na mesa no Beija Flor, trocando os e-mails, reconheci o e-mail dela. Voltando para o albergue, desconfiei que tivéssemos feito alguma disciplina juntos. Descobrimos. Realmente estudamos na mesma sala. Fizemos até um trabalho juntos! Ah, a memória. Como é que não lembrei disso? Ainda não sei se ela sabia disso desde o princípio e achou estranho que eu não lembrasse ou se, como eu, não lembrava mesmo. (no albergue, contei a história para o Fransueldes, o Claudinei e o Alessandro, companheiros de quarto. Fui escovar os dentes. Quando voltei, eles ainda estavam rindo. Da minha falta de memória.)
Com a Luciana e a Lidiane, estava a Tati (que prefere ser chamada assim, sem o "ana" do fim do nome). Um encanto a Tati (ana Cristina Carlotti). Que eu me lembre, nunca fiz nenhuma disciplina com ela na USP, mas não duvido. Estudei com as duas amigas dela e demorei para lembrar. Talvez me lembre de algo nos próximos dias. Da Tati é o rosto que fechou a matéria sobre a FLIP no Jornal Nacional de sábado.
Com as meninas, o Fransueldes (de Abreu), que eu já conhecia da USP e do mundo. Sempre fazendo piada, o Fransueldes. Boa gente. (achei razoável colocar um artigo masculino ("o") antes do nome do rapaz. Certo, Fran?)
Com todo mundo, o Claudinei (Vieira), figura única. Fumando o cachimbo e bebendo cerveja desde o café da manhã. Este pessoal todo fez História lá na USP. Estiveram comigo grande parte do tempo em Paraty. Não esquecerei mais de vocês. Espero encontrar todos, logo, aqui por São Paulo.
(no primeiro dia, antes de chegar ao Beija Flor, numa esquina começaram a se reunir os famosos. Todo mundo ali na rua, de Luís Fernando Veríssimo a Caetano Veloso, de Milton Hatoun a Cacá Diegues. Não, acho que o Cacá Diegues não apareceu nesse dia. Paul Auster, substituamos por Paul Auster. E todo mundo. Todo mundo ali na rua, na esquina, batendo papo antes da cerveja. Atrasando o bate papo e os copos que beberíamos no Beija Flor, vejam só! E quando chegamos ao bar, a pimeira de uma série de vezes, acabou a cerveja. Mas sempre tem outro bar aberto. Quando fecha o último, abre o primeiro.)
Paraty (2) - o onipresente Logo nos meus primeiros minutos em Paraty, encontrei o Marcelino Freire se ambientando. Encontrei o Marcelino umas trinta vezes em Paraty. Na manhã seguinte, ele faria, com o Daniel Galera e com o Joca Terron, também os encontrei várias vezes na cidade, a palestra de abertura da FLIP 2004. Como eu não tinha ingresso, avisei o Marcelino que eu não estaria presente. Acabei indo. Por vias tortas, entrei na tenda dos autores (onde aconteciam as paletras) mesmo quando nem sabia quem estava lá dentro. Uma vez estava parado com a Luciana (Bilhó Gatamorta) e com a Lidiane (Soares Rodrigues) - já que todo mundo é escritor, coloco os sobrenomes também - na entrada do auditório e uma mocinha perguntou se a gente não queria entrar, que ainda havia lugares vagos. Eu nem pensava em entrar. Acabei assistindo a uma bela palestra com o Raimundo Carrero e com o Pierre Michon. (Do Raimundo Carrero, diversas histórias e idéias - lembro de uma anedótica: Graciliano Ramos e sua ranzinzisse vão ao engraxate. O engraxate lhe pergunta "e então, amigo, quais as novidades?", ao que Graciliano responde "nossa amizade.")
Pouco antes da palestra com o Marcelino, encontrei mais uma vez com ele, acaso. Cumprimentou-me e... preciso contar uma coisa antes. Parênteses.
(Na Primavera dos Livros de 2003, eu estava na platéia para assistir a uma mesa redonda com prosadores. Já tinha conversado com alguns dos componentes da mesa antes de a palestra começar (Nelson de Oliveira - o mediador -, Marcelino Freire, André Sant'Anna, Ivana Arruda Leite, Marçal Aquino e Cadão Volpato). Sentado na minha cadeira no auditório, vi o Nelson apresentar a mesa. Em seguida, diz "quero agora chamar aqui à mesa um rapaz...". Era eu. Fiquei nervosíssimo. Falei desse dia aqui no blog "foi uma merda mas foi bom". Armação do Nelson de Oliveira e do Marcelino Freire. Lá do palco, olhei a platéia, bastante gente, vi meu orientador do mestrado em pé lá ao fundo. Quando comecei a falar no microfone, minha voz me soou como a de um gaúcho, viagens enquanto falava. Aproveitei um momento em que o microfone estava na outra ponta da mesa e falei ao Nelson, ao meu lado, "você podia ter me avisado antes". Ele respondeu "nada paga a cara de bunda que você fez quando eu te chamei à mesa". Enfim, nada mais.)
(Voltando à Paraty) Encontrei o Marcelino pouco antes da mesa em que ele participaria e ele me disse: "se faltar alguém, vou chamar você para compor a mesa". Rimos.
Assisti ao Marcelino, ao Joca e ao Daniel lendo seus textos. Eu, ao lado da Fabíola Moura (a Fabíola eu conheci no meu primeiro ano de faculdade de Letras, faz uns bons anos já. Estava numa aula de Lingüística, professor Tatit. Olhei para o lado e vi os olhões azuis dela. Não esqueci, e ela nem sabe disso. Agora, talvez fique sabendo.). Disse a ela que o Marcelino era muito bom falando em público. E o Marcelino foi muito bom em público - acabou com a brincadeira. Escolheu os textos a dedo ("literalmente a dedo", disse alguém na mesma noite, já não me lembro quem, e eu não entendi), leu, interpretou. Houve palmas no meio da leitura, risadas. O Marcelino sabe fazer essas coisas. No dia seguinte, andou pelas ruas e agradeceu os parabéns com cumprimentos, sorrisos, abraços e cinco minutinhos de prosa. Uma simpatia o onipresente Marcelino.
* amanhã conto da Luciana, da Lidiane e do pessoal que fez história
12.7.04
Paraty (1) - a vida em Paraty Cheguei a Paraty na quarta de tarde. Estava quente. De bermuda, fui passear pela cidade. Esqueci de São Paulo em minutos. O clima era parecido com o do Forum Social Mundial, de Porto Alegre. Um pouco menor. Um pouco mais rico, talvez. Voltei com a mesma sensação de "querer viver", vontade de fazer coisas. Gente legal num lugar legal. A princípio, esperava apenas flanar pelas ruas, sem entrar nos eventos fechados. Não tinha ingressos para nada. Acabei assistindo a quase dez (talvez dez) mesas. Paraty é a tentativa do que o Chico Buarque me disse, que escritor é gente muito esquisita, gente reclusa, que é preciso conversar, beber cerveja, jogar bola, conhecer gente, olhar o rosto dos outros. O Chico disse, eu concordei, sempre penso nesse mundo solitário, na necessidade de fazer menos solitário o mundo da palavra. Gosto de gente. Paraty foi cerveja, bate-papo e o rosto dos outros. Rostos lindos. Aos que conheci em Paraty (não sei se a festa ajudou no julgamento): gostei de todos vocês. Não há nenhum a quem eu gostaria de excluir da memória desses últimos dias.
Cheguei a Paraty com metade do pensamento em São Paulo, nas coisas daqui. Esqueci rápido de tudo. Saí de Paraty querendo ficar mais, apesar de saber que todo o circo seria desarmado em poucas horas e ficariam as ruas vazias. Voltei.
Estou lembrando aqui dos rostos e das pessoas e dos nomes e dos fatos. Um abraço, dei um abraço em quase todos. Lembrança boa.
*pretendo escrever mais sobre Paraty nos próximos dias, apesar de não ter tomado nota de nada, não deu tempo
11.7.04
sono Conto a partir de amanhã.
7.7.04
antes de ir quando é que eu vou tirar férias sem querer estar aqui e lá ao mesmo tempo? e em todos os outros lugares, e tempos. às vezes descubro em mim uma vontade de infinito que me assusta.
5.7.04
festa literária de Parati Na quarta vou para a FLIP. Quem vai?
Cinco dias de não-São Paulo. Fios desconectados. Quando eu voltar, todo mundo com sorriso no rosto, hein?!
4.7.04
futebol sem gol Estendo um dos braços para chamá-lo.
Com a outra mão, cubro os olhos. Aguardo.
A bola sob um dos pés. O silêncio das arquibancadas é rompido
até explodir histérico.
Não abri os olhos.
O lance, sem bola nem gol, foi agora do outro.
Ainda de olhos fechados, recebo seu abraço.
Rola a bola.
Parei com ela à frente e esperei que o outro se aproximasse.
Um touro arranca o pano das minhas mãos.
Toco a bola entre suas pernas.
Ele me agradece com um beijo no canto da boca.
Gosto de simplesmente ir (às vezes tenho medo de apenas ir).
O mundo pergunta, não é silêncio virgem.
No gramado, depois do gozo, a bola continua nos meus pés.
A platéia espera atenta a mágica seguinte. Há sorriso mesmo na expectativa.
Gozar não é morrer. Gozar não é o fim.
2.7.04
Fechei os olhos
para ficar invisível.
(se você pedir, abro os olhos.
Abrir os olhos, sozinho, é risco enorme)