O Mentiroso foi escolhido como o melhor texto de 2002 pelo júri do Projeto Nascente - USP.
Tony Monti é paulista. Lê e escreve. Contrariando as previsões mais otimistas, terá trinta anos antes do fim da década. Quando você telefonar para sua casa, ele estará dormindo. Em seus sonhos, ainda mora na casa onde passou a infância. Não pretende mudar, por enquanto.
Shakespeare Morreram juntos. Que pensaram os outros?
Julio Cortázar Cinco pessoas caminham numa praça. Ao meu lado, alguém diz "Tony" (com acento no y, para dar um ar francês - a língua francesa era um dos nossos assuntos possíveis). Então, eu penso que meu nome é nome de santo (Antônio). Digo isso. Mas a pessoa ao meu lado já sabia que eu ia dizer isso e se assusta. Há certos absurdos que, em geral, leitores e literatura não aceitam. Em vez de contar o que aconteceu, que é inverossímil, inventa-se um cara que vomita coelhinhos ou uma história com dois enredos ou uma pessoa que nunca esquece nada. O leitor, então, aceita tudo sem reclamar.
28.6.04
sobre a literatura e a vida a coisa não é um enigma. a coisa não é um amontoado de peças que se resolvem. a coisa não é um problema com uma resposta. agora é que me dou conta que estou definindo pelo que não é e não pelo que é. acho que é isso. a coisa não é apenas o que pode ser. não há controle. não há caminho único. não há separação. é uma coisa e é a outra.
não é dizer uma coisa para dizer outra que poderia ser dita de outro modo. é dizer uma coisa pela coisa. não é 'o que é, o que é'. a brincadeira não é assim. não é enfeitar a coisa pra depois tirar os enfeites e encontrar exatamente o que se tinha. é dizer o cru. não é um texto de dez linhas para dizer uma palavra. é um texto de qualquer tamanho para dizer a coisa. e não dizer.
me desculpem a falta de concretização. é isso a coisa. querer ter o controle não é a coisa não é a coisa não é a coisa. não dá para ter a coisa. às vezes é possível ser a coisa. desculpem o mau jeito.
entendi uma coisa é sobre não entender
eu sempre acho que não entendi alguma coisa
não importa
é legal querer entender
é legal não parar de querer entender quando não se entende
é legal que entender seja uma brincadeira
entender não é coisa séria demais
não entender acontece
não entender também é uma brincadeira
brincadeiras são coisas sérias
27.6.04
livro com capa bonita e as mulheres de cabelo vermelho da fnac?
a felicidade por 1,20 Fim de tarde pela Paulista, fui ao MacDonalds e comprei uma casquinha mista a 1,20. Quem compra qualquer coisa no MacDonalds tem direito a quinze minutos de internet. Demorei no sorvete para adiar o que eu já sabia que faria. O prazer de adiar um prazer é ótimo. Então, olhei e-mail e blog. Enquanto isso a Tatiana, mocinha simpática da internet do MacDonalds (na Paulista, próximo à Augusta), passava e sorria. Vale a pena conhecer a Tatiana. Em seguda, continuando o passeio, fui à Livraria Cultura. Como sempre, olhei a banca das novidades e procurei meu livro na estante de Literatura Brasileira. Às vezes tem, às vezes não tem (se não tiver, encomende, por favor). Quando eu não tinha livro publicado, imaginava que meus livros ficariam ao lado dos do Josué Montello. Acertei. Eles ficam.
Da Livraria Cultura à Fnac, a distância é perfeita. Dá tempo de pensar em nada sem que o caminho seja infinitamente longo. Na Fnac, o procedimento é parecido. Novidades e Literatura Brasileira. Um DVD de um show do David Gilmour numa TV enorme. Mais uns minutos de prazer.
Eu nunca li O apanhador no campo de centeio. Tinha vários empilhados na Fnac. Mas, como é caro! Sentei, então, num banquinho, me acomodei como pude. Cheguei a ficar confortável. Enfim, li o primeiro capítulo do apanhador. São vinte e seis capítulos. Lendo uma vez por semana na Fnac, acabo o livro perto do Natal (e eu posso ler mais de um capítulo por vez). Recomendo a Fnac como biblioteca pública. Não conheço nenhuma outra biblioteca com tantos livros recém publicados.
a arte de passear Num dos mutos lugares por onde passei ontem, um rapaz dizia para seu amigo: "detesto mentir. mas, para as pessoas de quem gosto, é inevitável."
26.6.04
agora Se eu sair agora, ainda pego um resto de sol para caminhar na Paulista. A partir de agora, estou lá.
25.6.04
hoje: a visão dos místicos Abri a janela do quarto e olhei lá para baixo.
Nenhum carro, nenhuma pessoa.
As luzes acesas estavam acesas.
As apagadas, apagadas.
Uma árvore no fim da rua continua onde estava ontem.
Uma brisa soprou e uma folha podre caiu.
Eu vi.
O mundo ainda existe.
23.6.04
Mais entrevistas: Eu adoro meus amigos: Mariana Há uma coisa esquisita entre mim e a Mari. Falo só de mim agora: me vejo em tanta coisa que ela escreve, e que ela fala, e que ela faz, que às vezes me assusto. Acho que (1) nós somos emocionalmente parecidos e (2) nós somos racionalmente parecidos. Temos as mesmas questões e as resolvemos de modo semelhante (ou nos enrolamos de modo semelhante). Não sei, mesmo!, se ela também vê as coisas desse jeito. Posso estar imensamente errado, nos conhecemos há pouco tempo. Talvez seja pretensão minha achar que às vezes leio as entrelinhas do que ela escreve. Com o tempo eu descubro. (beijo, mariana)
A Mariana escreve melhor a cada dia. (gostar da Mariana parece às vezes egocêntrico, tanto há de mim nela)
A entrevista com ela está ali na coluna da esquerda.
eu gosto de morenas
Ontem de tarde, me apaixonei. Pela segunda vez, pela mesma mulher. No mesmo ano. Na mesma sala de cinema. O filme, moça com brinco de pérola, é bonito. Uma relação interessante entre o artista e a mulher. Gostei. Como no caso do Encontros e desencontros, fico sem saber se gostei porque me apaixonei por Scarlett Johansson ou se gostaria de qualquer jeito do filme. Desconfio que foi porque me apaixonei.
dias intensos
quando eu finalmente
repousar como quero
o silêncio
22.6.04
estou confuso
21.6.04
umas historinhas só Tive uma idéia nessas últimas produtivas horas. Talvez a gente vá ao cinema e essencialmnete goste ou não goste do filme. Depois de gostar ou não, a gente interpreta o filme de acordo com uma meia dúzia de modelos de gostar ou não gostar que a gente tem na cabeça. Há quem tenha, por exemplo, apenas modelos que associam gostar a finais felizes. Se a pessoa gosta do filme, interpreta o final do filme como algo feliz. Se não gosta, interpreta como algo triste, o final. Talvez haja quem tenha muitos modelos na cabeça. Começo a notar muitas pessoas que têm um ou dois modelos, no máximo.
Falei que ia desintegrar? Desintegrou.
quem puxa aos seus não degenera é a trilha sonora de hoje.
Escrever coisas
para passar o tempo
enquanto as circunstâncias
dão conta
de andar o mundo.
Escrever sobre o nada,
sobre o que quase me move
e aguardar
, inconsciente como possível,
que as circustâncias
(e não eu)
...
- Meu Deus, fiquei religioso.
enquanto as circunstâncias, escrevi isso:
Fé
À beira da escada rolante na linha verde amontam-se centenas de pares mínimos de passos de formiga. Ao fim, sobem em duas filas: os animais não se conhecem. Espalham-se, no andar superior, em objetivos diferentes (como modo particular de complicarem suas existências). Alguns encaminham-se a um novo trem. Esperam-no em desorganização aparente os pares de pés atrás da faixa amarela. A máquina vem e dispara em cada animal um sinal para o movimento, mas apenas quando ela parar. Ninguém ultrapassa a faixa amarela até que tudo esteja imóvel e que soe a campainha, sinal de que podem caminhar. Hoje, eu vi, o trem veio, todos esperaram, entraram os que eram de entrar e saíram os que eram de sair. Ninguém, mais uma vez, ninguém se jogou nos trilhos.
eu sempre falo de angústia - definição da semana: angústia é eu querer uma coisa que depende mais das circunstâncias que de mim.
- constatação da semana: não tenho muita angústia, mas tenho bastante consciência da existência dela. no meu caso, pode-se chamar a angústia, quando há, de pontinha de angústia.
eu nunca falo de mim Ter uma causa muito grande e pouco o que fazer por ela - como querer estar agora na Lua com alguém que está no Sol - pode impulsionar o trabalho, em qualquer direção, nem que seja para esquecer por minutos o assunto que angustia.
antes de mais nada Além do celular, meu e-mail tem estado sentimental. O tonymonti[arroba].com.br ainda funciona, mas só deixa os e-mails aqui em casa quando está no ponto alto de sua curva de excitação. Opção: tonymonti[arroba]bol.com.br
20.6.04
perspectivas Violaram meu carro. Roubaram: o step e, acredite, meus óculos. Agora terei que te olhar mais de perto.
1 2 3 No meio do redemoinho tenho novamente quinze anos.
uff - mais um post post Estou cansado. Muito. E ainda tem o lançamento do Abilio hoje. No Madame Satã, 19:30. Coloco a roupa preta, vou até lá, dou um abraço no amigo. Volto. E durmo.
Que semana corrida foi essa!? Cinqüenta coisas a fazer e eu só fiz uma.
E amanhã tenho encontro acadêmico importante.
Enquanto isso, cansado, aguardo que as circunstâncias (o que não sou eu) me peguem pela mão e facilitem meu sono.
(isso é finalmente um blog)
19.6.04
19 mentiras: finalmente um post (em vez de um texto) 1 - Não bebi nem uma gota de cerveja hoje. André Fernandes e sua paciente companheira, Paula, estão de prova.
2 - Arrisquei a vida por 10 reais. Hoje. Não foi dessa vez. Ganhasse, teria ganhado a vida.
3 - Emprestei meus melhores CDs dos Beatles. ***editado***
4 - A tarde foi ótima. Desculpe a TPM (item 5). Você nem percebeu?
5 - Fosse eu mulher, diria que tudo passa: TPM.
6 - Meu celular resolveu não funcionar. *** voltou agora*** (pós edição)
7 - Pelo fim da educação técnica até que educação política seja dada. Ainda escuto quem defenda a educação estética em primeiro lugar.
8 - Eu jamais falei de você nesse blog, acredite. Falasse, você se assustaria.
9 - Só falo de mim mesmo.
10 - E minto.
11 - Quero fugir para a praia, mas não quero dizer o porquê. Quro voluntáris para fugir cmigo.
12 - Esqueci uma letra em algum lugar.
13 - Pode perguntar demais. Se eu não quiser, não respondo.
14 - Porra, que saudade é essa?
15 - Se eu continuar escrevendo nesse blog, e bebendo cerveja, só às vezes, será que acabo o mestrado?
16 - Eu e minhas circunstâncias. Fosse só eu, hmm, cancelaria o item 14.
17 - Para que colocar hifens em fim-de-semana?
18 - Tivesse dez amigos e uma namorada, aceitaria um cachorro. Porque nem só de felicidade vive um homem.
19 - Não fosse eu ateu católico, agnóstico religioso, crente heterodoxo, comunista xiita tropicalista, escreveria mais 19 mentiras. Não fosse eu assim, não precisaria guardar meia dúzia de idéias (falsas) para amanhã.
19b - Abraço a todos, beijo a todos.
19c - Todos.
17.6.04
Ana Luísa Eu ia dar o nome de Ana Paula à personagem. Minha amiga Ana Paula não é essa aí do texto. É verdade que minha amiga Ana Luísa também não é. Que é que eu faço se tem Anas de todo o tipo me perseguindo? A personagem tinha que se chamar Ana, mas não queria só Ana. Ana Luísa. Ana Luísa, Ana Luísa não é você, você sabe disso, né? É, é preciso tomar cuidado com os nomes. N'O mentiroso, há duas Vanessas. Minha amiga Vanessa, bem humorada, riu ao perceber antes que eu percebesse que as duas eram prostitutas.
Eu sei, eu sei, o texto é longo. Cansei dos textos curtos. Daqui a uns dias volto com eles. Sim, este texto é um pouco maluco. Sim, esse texto é meio esquisito. É, eu gosto do texto, fico mais leve por tê-lo escrito. Talvez os últimos parágrafos ainda aumentem num futuro próximo. Sei de umas coisas de Ana Luísa, a personagem, que ainda não escrevi.
Ana Luísa não tem pintas nas nádegas
Ao prazer agudo e imediatamente físico de arrancar o último pêlo extra da sobrancelha une-se o prazer prolongado e ritual de, com a tesourinha, cortar uma a uma as pontas duplas do cabelo. Após o banho, dentes escovados, seca-se com cuidado em frente ao espelho. Os olhos azuis fixam-se no redondo exato dos seios antes de percorrer a pele lisa a procura de uma gotícula de água. Veste, nesta ordem, a calcinha e as meias brancas e a blusa de seda, também branca. Toma o cuidado de ajeitar as peças para que a simetria entre as porções esquerda e direita do corpo se mantenha. Veste a calça jeans e o tênis branco trinta e seis. Fecha as portas dos armários, recolhe os pedacinhos de cabelo e os deposita no cesto de lixo do banheiro. Devolve tesourinha e pinça à gaveta. Penteia o cabelo. Devolve o pente a seu lugar na penteadeira. Toma o bolsa que esperava sobre a cama. Antes de sair pela porta da sala, belisca cada um dos mamilos para que a pele se contraia do mesmo modo em ambos sob a blusa semitransparente.
No elevador, respira ora pelo nariz, ora pela boca, para circular e sentir o hálito mentolado da escovação dos dentes. O Peugeot 206 azul metálico de Ana Luísa voltou ontem do lava-rápido. Em São Paulo, não existem lava-lentos. Ana encaixa a coluna no encosto do banco, apóia a mão esquerda no volante e dá a partida no motor. Liga o ar condicionado e o som. Brahms. O portão da garagem abre lento após o toque no controle-remoto. Vidros fechados. Em cada sinal, homens desejam Ana Luisa. Ela percebe os olhares mas jamais saberá suas intenções. No shopping, encontra uma vaga distante. Pára. Abaixa-se fingindo pegar qualquer coisa no chão. Verifica se os bicos dos seios precisam ser beliscados. Em geral, não, graças ao ar condicionado.
O elevador do shopping é bastante limpo. Ele tem vidros nas laterais. Pode-se ver de dentro para fora e de fora para dentro. Ana aperta o botão do piso superior, o dos cinemas, e mantém-se olhando para o display com o número do andar. No segundo andar, entra um rapaz que olha diretamente para seus seios antes também de fixar os olhos no display. Nenhum dos dois olha para fora. Ana gosta de chamar a atenção do rapaz que parece bastante educado. A confusão para comprar o ingresso incomoda enquanto Ana escolhe o filme que considera ser o mais vazio. Um filme macedônio que tinha sido indicado para o Oscar de filme estrangeiro. Dentro do shopping em São Paulo. Ana Luísa gosta do contato com outras culturas e outros modos e pensar.
Ana Luísa entra com a sala ainda vazia, era das primeiras da fila. Senta-se e verifica o branco das próprias roupas e, discretamente, a forma em que se acomodam os seios de acordo com a posição em que se senta. No cinema, o calor das pessoas, o frio da sala vazia, o resto de calor da sessão anterior, e o ar condicionado desligado durante o intervalo entre as sessões - e, agora, novamente ligado - fazem da temperatura da sala um caos. Impossível a temperatura de um bico ser a mesma da do outro. Cruza os braços enquanto a luz não se apaga e enquanto, cinema sentado e filme começado, tudo não se estabiliza na temperatura de cruzeiro. Os rapazes que passam por Ana a observam sem disfarce, uns sujos, ela pensa. Os trailers começam, ninguém senta a seu lado. Estivesse num cinema fora do shopping, haveria mais solitários dispostos a ocupar um lugar a seu lado. Um rapaz puxaria um papo qualquer, talvez sobre a temperatura, e Ana pensaria nos próprios seios e no esforço do rapaz para não olhá-los diretamente. Esperaria o silêncio, o filme, esperaria que ele não falasse mais nada até o fim. Esperaria mesmo que ele não existisse.
Quando a cena é bem branca, é possível ver uma manchinha escura na tela. Sujeira. Ana pensa que isso é um desleixo sem tamanho da sala de cinema. Ana não vai ao teatro porque no teatro pode-se ver o cuspe do ator, sentir o cheiro das coisas. Não o cuspe proposital: o cuspe que escapa. No teatro, pode-se ver o pó que não é elemento de cena. Pior ainda, no teatro, os moderninhos acham que podem fazer piada do público. Ana Luísa abomina ser observada por ator. Abominaria também ser olhada pelo público. Cinema é mais higiênico. Quando o filme é bom, a sujeira que aparece está no lugar certo. Puseram a sujeira ali. O incômodo vem a Ana só de pensar numa peça de teatro em que o ator apontasse para ela, viesse em sua direção. Quando ela quer falar com alguém, ela mesma procura essa pessoa. Ana balança um pouco a cabeça, não muito, para não ser notada, tenta pensar em outra coisa e torce para o filme começar logo. Ana Luísa se lembra de que o filme é Macedônio e que pode ser ruim. Começa então a associar filme ruim a peça de teatro.
Na tela, uma cena escura e uma mulher em um quarto. As cortinas brancas, o lençol branco e os perfumes e cremes na penteadeira não parecem com a Macedônia. Uma lâmpada é acesa. A mulher está nua. Seu cabelo negro, liso, está bem penteado. Uma câmera desseca o corpo. Está bem depilada. Os pêlos da virilha estão aparados. A jovem se move lentamente sobre a cama, aparentemente para que a câmara possa filmar cada milímetro do corpo. Nenhuma outra intenção. Nas nádegas, nenhum sinal de celulite. A pele muito branca era quase um céu. A vagina, uma pele rosada ser serventia. Uma pinta na nádega esquerda quebra a simetria e perturba Ana. A pinta não sai da tela por minutos. A menina caminha até o banheiro, rosa, e senta-se no vaso sanitário. Parte do público ri ao ouvir o som dos gases expelidos generosamente e das fezes chegando à água da privada como uma chuva de pedras em um lago. Sua face está bastante vermelha. Ela coça os pêlos aparados da virilha ainda sentada e leva os dedos ao nariz com a intenção de experimentar alguma raspa de cheiro sob as unhas. Torce um pouco os lábios enquanto aspira o ar. Com a mão esquerda, ergue um pouco o seio direito e abaixa o pescoço. Põe a língua para fora e a estica ao máximo, com a pele do rosto em sangue. Treme no esforço. Após algum tempo consegue alcançar o bico do seio e umedecê-lo. Apóia as costas na parede, ainda sentada, afasta bastante uma perna da outra e respira fundo algumas vezes. Os bicos ficaram tão diferentes que pareciam como de duas pessoas diferentes.
Ana Luísa cruza os braços, abaixa a cabeça decidida. Não muda a posição, ainda que o pescoço doa. Pelo tempo que o filme dura, não olha mais para a tela. Distrai-se, ou concentra-se, em si. Os letreiros sobem e as luzes são acesas. Ana espera a última pessoa passar antes de se levantar.
16.6.04
Ana O texto a seguir é da época em que as mulheres não se chamavam apenas Ana. (Sim, ainda sou perseguido; quase entregue de tão insistentes são as Anas) Fosse hoje, Júlia seria Ana. Ouvi um comentário sobre esse texto que acho que ajuda na definição dele em relação ao livro todo (O Mentiroso). Me disseram que todos os contos do livro, menos esse, parecem tristes mas são alegres, parecem feios mas são bonitos. E coisas assim. Sobre esse conto, me disseram que ele parece bonito, mas é feio, mas é bonito; parece feliz, mas é triste, mas é feliz. Ele é o que parece, mas não é uma questão de simplesmente ser. Os outros contos não são, assim, bobos.
É também o conto que encarna mais claramente a idéia da mentira que deu o título ao livro. (Vou lembrar disso da próxima vez que me perguntarem o motivo de o livro ter o título que tem - há mais dois textos do livro ali na coluna da esquerda.)
É o conto de que eu mais desconfiava no livro, por isso é que deixei por último. Começo a gostar mais dele. Vou escrever mais um, dia desses, mais ridiculamente bobo que esse. Para Ana.
O bilhete óbvio * texto do livro O Mentiroso (editora 7 Letras)
Júlia -
Digo Júlia porque é seu nome, o primeiro e registrado, quase neutro. Diferente seria Julinha, que deixaria claro um carinho específico demais, significativo demais em relação a uma verdade anterior a que eu gostaria de me referir sem ter que pensar na existência ou não de verdades anteriores. Julinha é como dizem seus pais, sua irmã, e provavelmente também os parentes que não conheço. Minha relação com você não é de parentesco, embora por vezes tenha respondido sua demanda de proteção com um abraço paternal. Ju é como eu te chamava quando você passeava de mãos dadas com aquele seu vizinho que estudou comigo sem que tenhamos nos tornado amigos. Dizia Ju porque ele dizia Ju, eu supunha que seu nome fosse Juliana. Eu dizia Ju. Para ele, era "a Ju" quando falávamos de você e eu mentia.
Eu tinha medo de olhar diretamente para você. Culpa infundada por desejar, apenas um pouco naquela época, a mulher de alguém não muito próximo. Eu olhava de lado, no meio da roda, gostava de te ver sorrindo para os outros e, de vez em quando, encontrar seus olhos. Eu fingia que eles olhavam para mim, mas sabia que quem os olhava era eu. Os amigos gostavam da Ju. Eu gostava da Ju e ousei conhecê-la, Júlia.
Sem ser previsto, você deixou de ser intangível quando tomei à mão seus seios substantivos. Gosto assim, Júlia é você e não um aspecto do que é.
Eu -
Se digo, sou eu. Bem queria que fosse mais que isso, que pudesse realmente dizer, em vez de apenas esboçar, fingir. Se digo uma só vez, digo pouco, digo dez, vinte vezes, digo mais, mas não digo tudo, há o que eu não diga nem sozinho. E não por não querer mas por uma combinação indefinível de não saber e não poder.
Eu nunca é mim. Quero dizer-me, dizer já não sou eu.
Eu, tudo o que realmente existe. Se digo o que digo para te agradar, minto. Pois digo para mim, digo porque não quero você longe.
Sou perigoso porque não pareço perigoso. Há quem suponha que eu seja capaz de declarar amor sem vígulas. E acertam, porque sei mentir.
Eu sou o que ao voltar de um banho, na primeira vez em que você dormiu em minha cama, encontrei-a deitada, vestida com uma camiseta minha, lendo um Goethe que eu mantinha ao lado da cama sem nunca ter tomado a decisão de lê-lo. Eu disse irrefletidamente, num impulso, "Júlia, eu te amo", disse sem explicar, porque se explicasse não seria eu, mas palavras - e sem explicar, não seria eu, mas você. Eu sou antes de dizer, mas se nada dissesse, você me ignoraria.
Eu sou o que sabe e não consegue dizer.
Te -
Costumo misturar os pronomes, digo te porque quero dizer do jeito que você quer ouvir. Digo uma frase pronta.
Você é quem eu jamais saberei se me entende e a quem eu dirijo meu impulso de dizer.
Você é aquela que escondeu o rosto quando pela primeira vez nos abraçamos, escondeu o rosto também depois do abraço, mas não escondeu certa tensão nos seios sob sua blusa de seda clara.
Amo -
Amar é só um palavra, sinto dizer, diferente de elefante e mar, que, se são palavras, ao menos parecem coisas.
Júlia, amor é o que me faz lembrar de que a vida é o que transforma uma despedida em uma festa de despedida. Você é o estopim. Júlia, se você um dia me entender, será pura coincidência. Jamais teremos certeza disso. Talvez amor seja o fato de nos entendermos - acompanhado invariavelmente da dúvida de termos nos entendido.
Eu quero dizer.
Bilhete óbvio, bilhete inútil.
Agora como falarei de um amor que não tem senão aquilo que se sente, e diante do qual a palavra "amor" é um objeto empoeirado? (A Paixão segundo G.H., Clarice Lispector)
15.6.04
As palavras sumiram e, hoje, não me interessam. Tinha aqui até escrito umas linhas. Apaguei. Não é público, não publicarei. Coloquei a figura aí ao lado porque tinha dito que escreveria algo sobre a parada gay. Não quero, quero ficar quietinho e ignorar a vida em tempestade depois da bonança. Fosse hoje dia de bonança, além das palavras, sumiria eu. (talvez pareça o contrário, estou bem)
billie holiday mandou lembranças
14.6.04
os comentários sumiram e não fui eu quem os seqüestrou
temos, enquanto não voltam, o e-mail
(post scriptum: dei um jeito de ter comentários novos, mas os antigos se foram, pelo menos por enquanto).
o cão sem plumas sem posts, resolvi mudar o nome do blog uma vez por semana (e não mudarei, é claro). foram título nos últimos segundos:
eu, ana e uns cachorros sem nome
eu, ana e uns cães sem nome
ana e uns cães sem nome
ana e nosso cão sem nome
cão sem nome
boi sem nome
12.6.04
Tenho aqui na frente um livro de ensaios sobre a Clarice Lispector. Na capa, uma foto dela na conhecida entrevista ao jornalista Júlio Lerner, da TV Cultura. Na foto, ela não está lá muito bem. Meses antes da morte. Na entrevista, uma pessoa amargurada, deprimida. Não é como se ela estivesse tímida. Tímidos podem ser legais. A entrevista é terrível: Clarice parece destrutiva. Selecionou de si o pior, aquilo que as pessoas tentariam esconder se soubessem da existência. Não seria amigo daquela mulher, o que nega a sensação que tenho ao ler quase tudo o que ela escreveu. Adoraria ser amigo da Clarice, mas não a da foto.
não leia - quando eu quiser falar contigo, vou até aí Abaixo os endereços IP, pelo fim da internet, dos olhos mágicos, dos aparelhos de celular, dos telefones, das câmeras em elevador. Pela possibilidade de chegar à casa de alguém, de surpresa, e esta pessoa não estranhar. Pela chance de esperar a pessoa pentear o cabelo e lavar o rosto. Quero poder convencer alguém face a face, sem aviso. Sem antecipações, apenas a vida. Sem precipitações também. Ir, voltar, decidir o que fazer na hora. Sim ou não, por hoje e só, sem pré ou pós tensões. Sem causas nem efeitos. Sem enquadramentos, sem caixinhas para arquivar pessoas. Guardamos o que for do agrado. Jogamos fora o que não servir. Cada pedacinho. Sem dar nomes. Sem falar. Te pego pela mão e te levo. Fecha os olhos e confia. Te guiarei também eu de olhos fechados, duas pessoas, não há com o que se preocupar.
Doze de junho, dia do enxadrista, antes acompanhado.
11.6.04
Descarrego (parte 3):
Ao lago não se chega pelo rio. Chega-se pelo alto. No lago, joguei uma carne, um fígado sem serventia para colher as planárias que não plantei. Sem pára-quedas, no lago, vive-se bem. O plano é apoiar a planta dos pés devagar e não assustar os bichinhos. Vermes só são margaridas na medida do possível. Recolhi comida e fome juntas. Um urubu não faria melhor.
Alguém passou correndo uma vez, duas, cinco. Passa correndo sempre a não ser que eu o pare e diga algo. Então esta pessoa responde feliz e segue com pressa seu caminho. Pessoas com pressa vão a algum lugar aonde eu não vou. Hoje não a segui mas amanhã ou depois talvez o faça.
Arrumou os lençóis limpos, apagou a luz e tentou dormir, mais um vez. Sob a escuridão, acima da cama, para o caso de falhar novamente, uma corda pendia do teto.
Na mesa à frente, restos, pacotes, latas, pratos, panelas e talheres sujos. Levantou-se, caminhou até a pia. Abriu a primeira gaveta e tomou nas mãos a última faca limpa. Afastou-se um passo da pia e rasgou o próprio peito.
10.6.04
Continuando a sessão com não-muito-inéditos:
Breu. Uma coruja e uma orquestra de grilos. Mato até a cintura. Animais sem cintura rastejam. Desta vez, nenhum vaga-lume. Estivesse claro, veria o mar. Lá embaixo. Imaginação. Colocou o pinto para fora e gozou. Daqui ninguém sai vivo.
De costas é mais difícil. De costas exige uma doação para a qual não fomos treinados. De costas, não vejo seu rosto. De costas perco o acesso para minhas mãos. De costas, sem ver e sem tocar, tudo se concentra. De costas, também. De costas, eu quero de costas.
Abraçar alguém consiste em escolher uma pessoa, esperar que ela se posicione a sua frente, de frente, abrir os braços com lentidão suficiente para que ela perceba sua intenção e possa, isso é necessário para completar o movimento, iniciar seu movimento de recepção, e por fim envolver com os braços o tronco dessa pessoa. Outra opção é abraçar.
9.6.04
Com o tempo reduzido pela urgência de um trabalho, republico, por uns dias, pequenos textos não-muito-inéditos. Nada impede que amanhã eu tenha uma história para contar. Eu daria o título de vão em cacos se eles fossem todos publicados juntos. Separados, dou título algum. Espero que a existência de textos curtos não impeça ninguém de dar uma olhada em eu e Ana não temos cães em casa.
Foi pouco Porque havia o mundo porque havia os outros. Porque falei de coisas você acreditou no dito e não viu meus olhos. Deu tempo de pensar. Da próxima vez tentemos o óbvio antes de expressá-lo. Antes de nos vermos ridículos antes de nos sentirmos culpados antes de nos perdermos no mundo antes de nos querermos corretos antes de nos acharmos sozinhos.
Paixão A mocinha guardou, guardou. Até que uma coisa guardada começou a incomodar. Jogou fora tudo o que tinha guardado de uma só vez. Começou de novo a guardar, guardar. Um dia, novamente, uma coisinha guardada desagradou. Jogou tudo fora de novo. Nunca suspeitou que guardar não era ter, nem era ser. E nunca aprendeu a guardar e desguardar aos poucos e aos pedaços.
Entrou rugindo, o leão, no picadeiro. Com pressa, tropeçou num balde d'água e assustou dois palhaços em monociclos antes de se trancar na jaula, sem atraso. Arfava cansado. Na hora exata, como ponto alto do espetáculo, atravessou com os dentes o tórax de mais um domador.
sua mãe não me conhece se você se matar, não ficarei sabendo.
Disse outro dia que demoro dias para escrever qualquer texto, mesmo um curtinho. Escrevi um agora, em duas horas. Experiência nova. Queria chamá-lo "Os invasores" para provocar determinadas pessoas. Mudei. Eu e Ana não temos cães em casa. Falta revisar. Aí vai.
eu e Ana não temos cães em casa
Eu dormia. Sonhava com cachorros. Sempre sonho que eles vêm me morder. Jamais sou mordido. Quando era criança, antes de aprender a chutar cabeças, os sonhos eram terríveis. Luto como um samurai, quantos forem os cães.
Eu dormia. Já passava das dez. Ana sai cedo às quintas. Aproveito algumas horas no lado quente da cama, que em regra é o dela. Os latidos não me incomodam se ainda sobra um resto do seu perfume.
Eu dormia quando a invasão anterior começou. Trancamos a porta do quarto e esperamos os cães saírem. Ana estava divina. Passamos o dia na cama. Dois pacotes de bolacha e uma jarra d'água estavam preparados de antemão. Faz um mês.
Dessa vez, ontem, dormi demais. Despertei com o bafo de dois Pastores Alemães destruindo as bolachas no criado mudo. Enfiei a cabeça no travesseiro e chorei enquanto ouvi, finalmente, uns poucos latidos pela casa. Não são cães bravos. Eles chegam doces e se vão doces. Mas duzentos, trezentos invasores numa casa de oito cômodos seriam um problemas ainda que fossem galinhas. Um filhote de Boxer puxava redondo o travesseiro onde eu me escondia. Deixei-os brincando. Brincavam com minha casa inteira. Um São Bernardo puxava minha calça para fora do quarto. No bolso da calça, o celular. Considerando que já havia dez cães no quarto, a invasão deve ter começado quase uma hora antes. Ainda olhei para o telefone, queria falar com Ana. Os fios estavam cortados. Queria ouvir sua voz e me sentir menos só. Trezentos cães. Há quem jamais sonhe com cachorros. Invejo Ana por isso. Estivesse comigo, ela me pegaria pela mão, lembraria que caminhando lentamente, esquerda, direita, deixaríamos a casa depois de poucos minutos e alguns tropeções. Só, eu não havia saído da cama. Sentado, pernas encolhidas e abraçadas, acompanhei o movimento por cerca de meia hora.
Tive fome. Os cães se movimentam lentos. Espalham lentos seus pêlos, destroem lentos cada pedaço de almofada, perfuram e rasgam cada página de cada livro. Não os culpo. Nem por urinar em cada parede pintada há menos de um mês, depois da última invasão. Por que duas invasões tão próximas? Onze invasões na vida, duas neste mês. Há quem se sinta escolhido. Um bisavô meu teve a casa invadida quatro vezes em um ano. Ana, quando solteira, viu os cães uma única vez. Quatro já em três anos comigo. Dessa vez, ela os veria saindo, quando chegasse. Pensaria um, dois minutos, antes de decidir que o apropriado seria me procurar e me dar um abraço longo, me levar para um hotel, me dar um banho e dormir ao meu lado. Sim, tive fome. Não encontrei os chinelos. Receei pisar algum rabo e me assustar com o grito do bicho. Caminhei até a porta e de lá à escada. Antes de descer, não resisti e olhei o caos em fabricação. Um Rotweiller enroscara-se no fio da TV. Arrastou-se e não viu o que puxava até ouvir uma pequena explosão atrás de si. Um Épagneul Bretão não apenas me encarava, bem de frente - parecia sorrir enquanto cagava sobre o tapete que, até ontem de manhã, cheirava novo.
Uma fila de Poodles subia para o quarto. Aproveitei o tamanho dos cães para descer a escada. Havia ainda algo a ser aproveitado na sala. Um abajur, dois pufes. Uma poltrona de couro ainda resistia. Ficaria nova com uma pequena limpeza.
Mas era cedo: tratei de tirar da cabeça as idéias da reconstrução e me concentrar na fome. Pouco provável era que eles tivessem conseguido abrir a geladeira. Eram tantos cães que eu quase não podia ver o chão apesar de sentir seu cheiro. Senti também a pasta sob os pés enquanto caminhei decidido ao corredor que levava à cozinha. Os cães passavam quentes esfregando-se em minhas pernas como se eu não existisse. Prefiro assim, o caminho torna-se mais curto. Da sala à cozinha, dois metros. À direita, no lavabo aberto, um Fila se desencaixava de uma fêmea de Samoieda. Um Husk Siberiano o ajudou a destrepar e logo começou a arfar e babar sobre a orelha da cadela. A tampa da privada subia de vez em quando. Na privada, havia uma cabecinha latindo, um Pinscher, imagino. Com os cães ocupados, lá dentro, fechei a porta do banheiro e me senti bem por isolar quatro dos trezentos da minha convivência. Ia já entrando na cozinha quando lembrei que, se os deixasse presos no lavabo, alguém teria o trabalho de os retirar no dia seguinte, o que era melhor evitar mesmo sabendo que não seria eu a fazer o serviço. Sempre sobra algum cão. O Pinscher, por exemplo, não conseguiria acompanhar os outros durante a retirada.
Reabri a porta e a Samoieda gemia, acho que de dor. À porta da cozinha, pouco poderia ser pior, uma manada de Cockers pretos impediam minha entrada como elefantes. Cinco bichinhos imbecis, em vez de me ignorarem como os demais, faziam festa como a seus donos. Encolhi os braços sobre o rosto e tive náuseas. Caminhei em passo de formiga, de olhos fechados, até deixá-los para trás, não por vontade deles, mas pela força de dois Galgos que tinham pressa da cozinha para a sala. Quase me derrubaram, mau, mas, bom, levaram quatro dos cinco Cockers. O cãozinho que sobrou deu um último pulo sobre meu braço direito antes de seguir seus amiguinhos.
Na cozinha havia uns trinta cães. Comiam a farinha que encontraram sob a pia. Reviravam o lixo, roíam ossos. Trepavam-se em fila indiana, quatro, cinco. Maxucavam-se com os talheres. As manchinhas de sangue no chão me comoveram mais que as do meus braços e pernas.
A geladeira estava fechada. Senti dentes gozando rentes a minhas pernas. Continuavam, desde que decidi enfrentar o redemoinho, a cheirar-me as intimidades. Um resto de alma ainda me sobrava. Onde estaria Ana para me emprestar um pouco da sua? Respirei fundo e planejei meus últimos movimentos. Busquei na memória a posição de cada coisa dentro da geladeira. Calculei a quantidade de passos até a porta dos fundos. Estava aberta. A partir desta porta, apenas aguardaria o fim. Empurrei com as forças que me sobraram uma turminha de Beagles que me impedia de alcançar a geladeira. Rápido, puxei a porta. Antes de pegar uma caixa de leite, a movimentação dos cães ficou mais intensa. O cheiro. Como podem?
Passei a mão em um litro de leite, uma garrafa de suco de laranja, duas maçãs, um pedaço de queijo branco, uma lata de leite condensado e uma caixa com um resto comida chinesa. Agarrei firme e, em quatro passos largos, atravessei a porta. Fiz a volta na casa pelo corredor lateral. Respirava, já, bastante bem.
Sentei-me num banco da praça em frente à casa, coloquei as coisas ao meu lado e aguardei. No meio da tarde, quando Ana chegou, encontrou-me comendo, sujo, de olhos fechados. Uns vinte cães em volta da casa a avisariam sobre o que acontecia, ainda que não houvesse o fedor nem eu estivesse ali aguardando. Não a vi se aproximar. Abraçou-me e me levou a um hotel antes que, no fim da tarde, eles deixassem a casa.
7.6.04
a tragédia e o sonho Ainda não são cinco da manhã. Acabo de acordar e logo dormirei novamente. Tive um sonho torto. Sonhei que estava numa casa onde não moro. Não era a casa onde usualmente estou quando sonho e percebo que sou criança. Esta é a casa onde morei até antes de mudar para a atual. Mas no sonho de hoje, eu estava na casa de praia, onde passei vários verões e fins de semana até ter uns quinze anos. Depois disso voltei pouco para lá. Percebo que, mesmo acordado, e mesmo depois de uns bons anos, esta casa é presente como a outra, aquela onde eu morei. Eu tinha acabado de voltar da escola. Encontrei meu pai e minha mãe na cozinha. Minha mãe parecia não ter feito nada para comer. Eu tinha fome. Perguntei se ela não faria nada. Os dois me olhavam. Ela disse que tinha colocado algo no forno. Antes, eu tinha passado um bom tempo dormindo na escola. Achava que tinha dormido de domingo a terça de manhã. Minha mãe, percebendo que eu estava meio desorientado com o tempo, disse para eu olhar o relógio na parede. Olhei enquanto preparava algo para comer. Oito e meia. Da manhã. Como é que eu esperava o almoço pronto às oito e meia da manhã? Minha irmã estava me procurando. Precisava fazer um trabalho sobre pessoas inteligentes e me procurava. Oito e meia da manhã. Não podia ser terça, eu tinha dormido mais do que até oito e meia da manhã de terça. Era quarta. Eu tinha dormido até quarta. Desespero. Meus pais apenas confirmaram. Era quarta. Não me deram nenhuma bronca por ter sumido nem por ter dormido demais. Imaginei que não fosse tão criança, pelo comportamento deles. Eu já tinha certas liberdades. Dentro de mim, imaginava como eles podiam achar que eu era inteligente se eu não conseguia nem controlar meu sono. O sonho acabou e eu me senti bem. Pronto para escrever meu mestrado inteiro e um romance revolucionário. Encontrei umas coisas nesse sonho que, agora quase acordado, me parecem liberdade. E poder. A sensação de ser poderoso é boa. Achei em mim a bagunça, sem me sentir culpado demais. Liberdade parece agora a sensação de poder escolher sem se submeter às amarras da cultura, e sem necessariamente ignorá-las. Organizar o mundo do jeito que eu quiser. É muito poder. Dormirei de novo em alguns minutos. Espero que quando acordar, tarde, tenha curado uma dor de garganta que agora ameaça, antes que ela se estabeleça.
Estou sem o que dizer. Auto-censura em alta. Ontem escrevi alguma coisa e apaguei três horas depois. Fico quieto, por enquanto. O espaço para comentários está aberto aí embaixo. Será comentário do nada. Podemos chamar genericamente de "dizer". E o e-mail e o telefone.
Ontem de noite, foi legal Foi ótimo.
4.6.04
É amanhã, sábado: Segundo encontro mundial blog do Tony Será no sábado (5), no Escócia Burguer, em frente a Espaço Unibanco de cinema. O primeiro foi um sucesso. Estarei lá, pelas 20:30. O anfitrião será, dessa vez, o Zé Medeiros. Certo, Zé? Cerveja gelada, conhaque quente e coca-light.
Três coisas de que gosto (história para criança)
As três coisas de que eu mais gosto no mundo são cheese salada, história e abraço. Mas não nessa ordem. Não tem ordem.
Se um dia você estiver com fome e me encontrar com um cheese salada nas mãos, é possível que eu te dê uma metade e fique com a outra metade. Um cheese salada nunca é um abraço e um chesse salada nunca é uma história. Só às vezes. Um cheese salada às vezes é outra coisa.
Pode acontecer de um dia nos encontrarmos e eu te contar uma história e você me contar uma história. História, a gente não precisa dividir como cheese salada. É como se eu tivesse um cheese salada, você chegasse com fome e os dois comessem, cada um um chesse salada. Contar história é a multiplicação dos pães. É verdade que história quase nunca é um cheese salada e só às vezes é um abraço. Mas uma história é sempre várias histórias e várias coisas. De repente, eu conto uma história e, além da a história, você escuta um abraço.
O abraço é igual a história porque quem dá abraço não perde meio cheese salada. Ainda por cima, quase sempre quem abraça tem que ser abraçado. A gente não abraça sozinho. O abraço às vezes é um cheese salada. Um abraço é sempre uma história.
Às vezes um abraço é o mundo.
2.6.04
clara mcpiffs (a nelson de oliveira)
clara mcpiffs é a mulher mais bonita deste mundo. não conheço outros mundos. a senhora mcpiffs tem um tipo de beleza que se renova, que inclui na beleza a própria reafirmação. foi a linda clara mcpiffs sem seios. quando os seios cresceram, a senhorita mcpiffs tornou-se linda. e já era antes. a beleza da jovem e desejada senhorita mcpiffs transformou-se, após o casamento, na beleza da desejada, desejo jamais declarado, senhora mcpiffs. linda, sempre, e sempre diferente. a linda senhora mcpiffs de segunda passada não era a linda senhora mcpiffs de ontem. e a de anteontem, não a vi neste dia, era a linda senhora mcpiffs que, por não tê-la visto, imaginei.
ontem, clara mcpiffs foi atropelada. uma perna e uma orelha destruídas, a cabeça amassada. no hospital, antes de a morte ser declarada, enquanto a reanimavam, arrancaram-lhe a perna e a orelha, e deram uma desamassada na cabeça. acabo de voltar do enterro. senhora mcpiffs, com seios, sem uma perna e sem uma orelha, é a mulher mais linda do mundo.
(*por enquanto, a historinha é essa, assim, inverossível. já há uma versão "Ana Clara" para Clara Mcpiffs, mas ainda em estudos.)
Segundo encontro mundial blog do Tony Será no sábado (5), no Escócia Burguer, em frente a Espaço Unibanco de cinema. O primeiro foi um sucesso. Estarei lá, pelas 20:30. O anfitrião será, dessa vez, o Zé Medeiros. Certo, Zé? Cerveja gelada, conhaque quente e coca-light. (aviso com três dias de antecedência para o pessoal dos estados vizinhos poder pegar o ônibus a tempo)
Segundo caderno d'O Globo Rocinante está na Capa do Segundo Caderno do Globo!. E tem um trecho d'O mentiroso lá. Só não descobri como acessar e ler o texto todo pela internet. (boa parte do texto da capa pode ser lido fazendo o cadastro gratuito n'O globo online.)
clara mcpiffs em edição
1.6.04
papinho besta Uma pessoa que não pretendo incluir na lista de agradecimentos é meu dentista. Doeu. Fiquei imaginando minha língua mexendo na boca, aquele pedaço esquisito de músculo. É provável que dentista sonhe com língua. Para dentista, língua só atrapalha. Domingo fui a uma churrascaria, fazia já uns dez anos que não ia a uma. Não volto nos próximos dez. Imagino que alguém possa sentir prazer em ser servido a cada trinta segundos. Diferentes tipos de carne. Eu prefiro ser servido uma só vez. E curtir devagar a comida. E conversar, se for o caso. Em churrascaria não tem papo. Em dentista também não.
With a little help from my friends (v. 1.4)* *atualização permanente