e X a t o a c i d e n t e
Tony Monti lê, escreve e apaga
2007

Capa de o menino da rosa Capa de O Mentiroso








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*************** blog novo *************

*** Este blog está em novo endereço ***

*** visite: http://www.tonymonti.wordpress.com ***





30.4.04


aqui
Aqui, de onde eu escrevo, está uma confusão grande. Não falarei agora de umas cento e tantas caixinhas de CD bem à minha frente, nem das seis portas cheias de livros velhos (estudar é também acumular lixo), nem de uns poucos DVDs (do meu irmão) nem dos disquetes antiquíssimos, nem do aparelho de som nem de outros papéis, nem de algumas coisas pelo chão. Falarei agora apenas de um espacinho de 40cm x 40 cm, pouco à direita da tela do computador, onde se acumulam uns livrinhos. Tudo isso para eu dar uma olhada no que está acumulado aqui. (depois dou uma olhada nos muitos que se acumulam no meu quarto) Os demais, na estante.

Pequeno dicionário michaelis Francês-Português; Taz - Zona Autônoma temporária - Hakim Bey; Corpo Presente - João Paulo Cuenca; Tragedy - plays, theory and Criticism - Richard Levin; A Paixão Segundo G. H. - Clarice Lispector, Prometeu acorrentado (Ésquilo), Ajax (Sófocles), Alceste (Eurípedes); Tempo - Méthode de français, livre et cahier d'exercises, Bérard, Canier et Lavenne; A Tragédia Grega, Albin Lesky, Gramática Nova (Língua Portuguesa), Faraco e Moura; Coletânea de vencedores do Concurso Literário do Sesc Santo Amaro; Literatura e Música (edições senac); Literatura, cinema e televisão (edições senac); Teorias da Personalidade, Fadiman e Frager; The Raimbow, D. H. Lawrence; Agdo e Agda, Laerte; A Teoria do Romance, Georg Lukács; A Legião Estrangeira, Clarice Lispector; A Maldição do macho, Nelson de Oliveira; Todos os Fogos o Fogo, Julio Cortázar; Cassel's contemporary French (Grammar); Reunião (dez livros de poesia), C. Drummond de Andrade; Ensaios, Thomas Mann; A descoberta do mundo, Clarice Lispector; Hotel Hell, Joca Reiners Terron; Os irmãos Karamazov, Dostoievski; Ficções (11) - revista de contos; Até o dia em que o cão morreu, Daniel Galera; Metade de Arte, Marcos Siscar; Lagartixa, revista de poesia; Cartas perto do Coração, Fernando Sabino e Clarice Lispector; Laços de Familia, Clarice Lispector; A Bela e a Fera, Clarice Lispector; Defesa Siciliana, Variante Paulsen, P. Cherta; Felicidade Clandestina, Clarice Lispector; Perto do Coração Selvagem, Clarice Lispector; O Ser e o Nada, J.P Sartre.


Trilha sonora de hoje
Magical Mistery Tour


seis a dois
Eu nunca falo de futebol, não é? Aí vai: com os resultados de quarta e quinta, saímos do meio de semana vencendo de seis a dois. Resta agora o domingo.


Aro
O pai da namorada do meu amigo Edson não tem sorriso (disse isso outro dia). Lembrei de outro homem sem sorriso. Perguntaram, em 2000, ao Larry Bird (então com 43 anos), quando ele era técnico, o que ele faria depois do campeonato. "Vou embora" "mesmo se seu time ganhar o campeonato?" "Sim." "E o que você vai fazer?" "Nada." "Sei, um cara competitivo como você, vai ficar longe das quadras..." "Sim" "Sem fazer nada?" "Vou me preparar para a morte." É.


jorge quase na funhouse
(esse fim de semana!!!)
é no domingo... a partir das 20h... e custa só
$5 de entrada + $10 de consumação.
participações especialíssimas de tony monti e chepa... uivando, pulando e cantando.
deixe o fantástico e o mesa redonda pra lá e venha curtir um fim de fim de semana diferente.
funhouse - r. bela cintra, 567 - FUN HOUSE
(de e-mail enviado pelo jorge)

Para quem entendeu que isso era propaganda: não, isso é um convite.


29.4.04


Os microcontinhos, de novo



Os Cem menores contos brasileiros do século (um é meu) é o oitavo livro mais vendido na FNAC e o sexto na Livraria Cultura. Bah.


Encontrei agorinha - pedra
Dormir a esse ponto, sem ao menos um olho à espreita, como se o teto ou o céu não pudesse desabar a qualquer instante, e não houvesse em toda a extensão da terra uma só vítima do câncer ou da injustiça, um só faminto ou um único suicida, nenhuma fábrica de canhões ou nenhuma cadeira elétrica - convenhamos que é ter mesmo vocação para defunto e nem ter vindo ao mundo para outra coisa, por mais que a Constituição diga o contrário, e o rádio e a vitrola, e a bula do papa e a dos remédios - e sobretudo cada um a si mesmo diante do espelho, vestido para os domingos. - Campos de Carvalho em A Chuva Imóvel


Não, não diz nada
Por uma semana, só por uma semana, lerei e procurarei um comentário razoável entre todos os daqueles que vieram aqui pela primeira vez. O levante está prejudicado pela falta de poesia. Não há como delegar o poder e não consigo cuidar de mais que uns poucos cachorrinhos por vez. Coleira neles. Coleira em todos eles. Que é que fizeram com o mundo? Deus já deve estar desconfiando. Uma música, maestro! - os alemães tocavam música na entrada dos campos de concentração. Quantos, quantos eram gente? Em quantos eu reconheceria a alma? A alma dessa gente toda está fora delas. O que anima esse pessoal não é deles. São pedra, que é o que tem alma do lado de fora. Eu ia tomar o poder e ler poemas na rampa do Palácio.

Isso não é possível, ninguém nunca pensou em ser sincero? Mostrar-se é feio demais porque a gente é feio demais. É sentimento de culpa que faz isso, tenho certeza. Pelo menos parece haver a informação, há a culpa. Mas ainda há que se reconhecer umas coisas. Continuo na escuta. Venham tomar vinho comigo e dormir comigo. É brincadeira. Não faz sentido, não. Não é necessário entender. É preciso desconfiar. Deus já deve estar desconfiando, ele que tudo vê. Continuo na escuta. Ninguém, ninguém vai falar mal do que eu escrevo aqui? Elogio imbecil não me ganha. Que é que você acha que eu quero de você? Uma mentira igual à de todos? Eu quero sua alma. Você tem uma? Eu quero sua alma. Senão, não brinco.


Bola da vez


Indicado por alguns amigos, particularmente o Rubinho, comecei a ler Campos de Carvalho. Tenho a impressão, depois de lidas as primeiras vinte páginas, de que voltarei a falar dele em breve. Que me dizem de Campos de Carvalho?

27.4.04


Nem só de literatura vive o homem
A Festa do meu amigo Jorge Quase será no domingo, na Fun House (que é um lugar bem legal). Rola showzinho do Jorge e discotecagem do consagrado DJ Miguel Duclós (classic rock, soul e afins). Fora isso, tudo.


sobre estupros e assassinatos ( parte IV )



É comum se falar em tensões dentro de uma narrativa. Há uma segunda tensão, no entanto, que é pouco comentada. Dela se alimentam, por exemplo, alguns contos daquele tipo de conto onde nada acontece. É uma tensão que existe entre o que se diz no livro (narrativa) e o leitor imerso em seu mundo. A exploração mais ou menos explícita dessa segunda tensão não determina maior ou menor qualidade do texto.

Pode-se dizer que a literatura que eu constumo chamar de "transgressão fácil" faz um uso específico dessa tensão. Ela produz um valor diferente (ainda que óbvio) de um valor usual, como palavreado chulo, discussão aberta de tabus, abuso de drogas e violência (é uma reiteração recente típica).

De modo bastante semelhante ao uso superficial, pode-se usar tal tensão e produzir maravilhas. Lembrei agora de Laranja Mecânica, livro e filme.

26.4.04


Bromélias, quatis e sedimentos
Se é para enfeitar meu jardim.


A tamanduás, margaridas e demais amigos
Agora que o blog tem mil acessos por dia (por uns dias), como é que eu organizo um levante? Como é que eu transformo mil acessos diários em significados e idéias? Como é que se enche de significado um flash mob?


Nem margarida nem tamanduá
Por uma semana, nossos comentários serão intercalados por mensagens sem sentido de gente que parece pedra. Apenas pedra.


Sejam bem vindos
A impressão que dá é que colocar um post novo significa apenas colocar um espaço a mais para esse pessoal, que nunca leu nada do que eu escrevi, escrever mais um comentário. E eu que tinha dito estar receptivo e doce.


Cuidado

com mulheres em fotos preto e branco,
mulheres de escorpião,
mulheres que se julgam inteligentes,
mulheres que se fingem de bobas.

Nada mais no mundo oferece perigo.


25.4.04


Quando não se tem nada a dizer, ter tido algum dia algo a dizer parece bem ridículo.


Depois do fim

A velha história, querer muito dizer. Dizer o quê? Há uns meses era comum que eu chegasse de madrugada, sentasse ao computador e escrevesse um texto torto, sem sentido. Parei. Só hoje. Quando se quer muito dizer, não se controla o que se diz, pode ser bom, pode ser ruim. O fato é que eu quero dizer. O fato é que eu quero fingir que digo. Ir escrevendo enquanto me livro. Acho que o nome da coisa às vezes é "angústia", mas não serve o nome que dão à coisa. O nome mesmo da coisa, eu não sei. É a velha história, escrevo agora e apago amanhã? Talvez não seja dizer, talvez seja escutar. Mas só, escuto o quê? É fingimento, é cercar tudo o que não é, o que acaba cercando também o que é, mas de costas. Cerca-se a coisa sem olhar para ela. Olhar a coisa é já perdê-la. Não quero ninguém dizendo que eu pareço, agora, não-sei-quem escrevendo. Se você tem uma coisinha para me dizer, é uma boa hora. Estou receptivo, estou doce. Estou só. Ali em baixo, em azul, "diz aí" tem maior significado hoje. Eu quero realmente escutar. Sempre quero. Diz aí, manda um e-mail, liga aqui em casa, vem me dar um abraço. Estou receptivo. Vou dizer outra coisa, então, mas não se perca no acessório. O central é que preciso de você. O acessório é que não gosto de competir, só de brincadeira. A sério, gosto de partilhar. "A sério" é tudo aquilo que eu não consigo desconstruir. Competir a sério não é errar um chute. A sério, não - a sério, perder é o fim. Nada do que eu falo é a sério. Eu finjo. A sério é sempre o que eu não digo, enquanto digo. Desisto, aceito mesmo o acessório. Autorizo que me engane (isento sua culpa).


23.4.04


Estupro seguido de assassinato (modelo 1) - parte 3

Literatura é construção, mas não é disso que eu falava. O gosto pela violência, na maior parte do que se produz e do que se lê, é expresso sempre em imagens fortes, não necessariamente em idéias. O feio, o sujo e o caótico nunca foram tão banalizados. A produção artística tende ao apelo a emoções primárias. Também a minha produção. A vertente da arte que explora o podre da sociedade e do homem sempre existiu. Talvez o que falte seja a fantasia. Cada vez menos se sonha. Na idéia vulgar, a fantasia vai passando para o domínio da loucura. Aos meus olhos, o real é que está bem maluco. A supervalorização da lógica.Seqüências lógicas é o que se quer. Mesmo que apoiadas no ar. Tudo se apóia no ar. E em emoções. Me perdi. Talvez o que falta seja razão.

Também gosto de arte violenta, arte aguda, arte transgressora. Arte. O que me incomoda é outra coisa, que não disse ainda. Alguém sabe o que eu quero dizer para poder me explicar? Parece que a alta literatura se aproxima da piada de papagaio. Alguém entende isso? Uma imagem só, uma transgressãozinha a um valor razoavelmente aceito, um papagaio que fala o que ninguém fala, um garoto que arrota na sala de aula, um ser misterioso que destrói a marretadas a cabeça de um animal não denominado, um homem que encontra em se masturbar a única saída até que não haja mais saída. Em que tudo isso se diferencia? Isso se diferencia! Tenho certeza. Um papagaio que fala palavrões, apenas, não me parece literatura.

Talvez a literatura de seres que destroem a cabeça dos outros, ainda vivos, a marretadas, seja um bom meio para libertar a raiva contida e evitar que administradores de empresas deixem seus empregos. Ou assassinem seus patrões. Não faz com que os caras reconheçam a raiva em si. Continuam se sentindo imaculados. Eu adoro uma violenciazinha. A literatura não serve mesmo para muita coisa.


22.4.04


estupro seguido de assassinato (modelo 1) - parte 2 :


Um rapaz comprou um papagaio. Foi só sair da loja para que o papagaio começasse a xingar, falar bobagem e resmungar aos berros. O rapaz, por horas, tentou de tudo. Música, poesia, silêncio, comida. Ameaças verbais, pequenos castigos físicos. Até que o rapaz jogou o papagaio no freezer. Do lado de fora, escutava os xingamentos do papagaio. Mas em vinte minutos, silêncio. Logo se sentiu culpado. Abriu a porta e encontrou o papagaio, bem vivo, com os olhos arregalados e cara de assustado.
"Sei que meu linguajar tem sido mais do que inapropriado a este ambiente familiar e que minha atitude não condiz com a atenção que o senhor tem me dado. Gostaria de apresentar minhas sinceras desculpas e declarar que daqui em diante me portarei adequadamente.
Ainda completou o papagaio:
"Só por curiosidade: o que foi que o frango fez?"


Breu. Uma coruja e uma orquestra de grilos. Mato até a cintura. Animais sem cintura rastejam. Desta vez, nenhum vagalume. Estivesse claro, veria o mar. Lá embaixo. Imaginação. Colocou o pinto para fora e gozou. Daqui ninguém sai vivo.


Golpe único e preciso. Nenhuma chance de fuga.
Animal morto, esmagou a cabeça com duas marretadas adicionais. Um globo ocular rolou silencioso no soalho. Lamentou não ter destruído a cabeça no primeiro golpe, com o animal ainda vivo, quando a raiva primitiva latejava-lhe a alma.


Sobre literatura, escritores e leitores - ou estupro seguido de assassinato (modelo 1)

Escreverei pouco, como faria se isso fosse um blog.
Ninguém lê post maior que cinco linhas.
Escreverei seis, como teste.


Tenho a impressão de que uma boa parte do pessoal que lê literatura espera respostas fáceis. Mesmo parte dos livros "difíceis" tem respostas fáceis. Transgressão fácil é sexo e violência escancarados, rapaz que come a cunhada, assassinato a queima roupa. O pessoal não quer sutileza. Ninguém tem cinco minutos para ler uma página. Nem três. Nem cinco horas para ler uma novelinha de cem páginas. Tem duas horinhas, só. Divididas em cinco sessões ao longo do mês. Estou sendo superficial, eu sei, só tenho seis linhas. Construiu-se uma oposição radical - ou (1) se é violento e transgressor, expressamente (sexo, mortes, drogas, escatologia), ou (2) se passa por água com açúcar. Não é assim, não. Tem umas sutilezas da alma do homem e da a alma do mundo que não cabem em um estupro seguido de assassinato (modelo 1). E eu gosto de uma violenciazinha literária, sim.

Estou abusando do meu direito de ser profundo? Mais três linhas, só. A literatura está se tornando superficiais variações sobre o mesmo tema, mesmo a boa literatura. Tem-se ido pouco à sutileza, é mais fácil ser do contra assassinando um personagem por capítulo que tratar de qualquer tema que não seja tão visivelmente violento de modo mais sutil por uma extensão maior do texto. (Fico mais superficial a cada linha. Paro aqui para não cansar os mais obstinados. Porque os menos persistentes dificilmente se cansam. Eles param antes.)


21.4.04


Sessão de domingo



Assisti no domingo Les triplettes de Belleville (As bicicletas de Belleville). Desenho animado. Muito legal. E o site, para quem quiser ter uma idéia do que se trata, também é muito bom.

Me lembrou do Marinelli ...


19.4.04


Duzentos e dezessete
O segundo número da Revista Bestiário publicou meu conto "duzentos e dezessete". Também na revista, entre outros, João Gilberto Noll, Antonio Calloni e Fabricio Carpinejar.


18.4.04


Domingo de sol - vou passear

Não fique sentado durante muito tempo. Não confie nas idéias que lhe ocorrem quando você estiver muito quieto. As boas idéias virão sempre ao ar livre, em plena festa dos músculos. A vida sedentária é um pecado contra o espírito. - Nietzsche


17.4.04


Lançamento

"CORPO PRESENTE" (Ed. Planeta) de João Paulo Cuenca

Mercearia São Pedro
Rua Rodésia, 34 - Vila Madalena, 05435 - São Paulo
Fone: 11 3815 7200
Segunda-feira, 19/04/2004, 19:30


16.4.04


A Paixão Segundo G. H. - Clarice Lispector

Ah, mas para se chegar à mudez, que grande esforço da voz. Minha voz é o modo como vou buscar a realidade; a realidade, antes de minha linguagem, existe como um pensamento que não se pensa, mas por fatalidade fui e sou impelida a precisar saber o que o pensamento pensa. A realidade antecede a voz que a procura, mas como a terra antecede a árvore, mas como o mundo antecede o homem, mas como o mar antecede a visão do mar, a vida antecede o amor, a matéria do corpo antecede o corpo, e por sua vez a linguagem um dia terá antecedido a posse do silêncio.

Eu tenho à medida que designo - e este é o esplendor de se ter uma linguagem. Mas eu tenho muito mais à medida que não consigo designar. A realidade é a matéria-prima, a linguagem é o modo como vou buscá-la - e como não acho. Mas é do buscar e não achar que nasce o que eu não conhecia, e que instantaneamente reconheço. A linguagem é o meu esforço humano. Por destino tenho que ir buscar e por destino volto com as mão vazias. Mas - volto com o indizível. O indizível só me poderá ser dado através do fracasso de minha linguagem. Só quando falha a construção, é que obtenho o que ela não conseguiu.

E é inútil procurar encurtar o caminho e querer começar já sabendo que a voz diz pouco, já começando por ser despessoal. Pois existe a trajetória, e a trajetória não é apenas um modo de ir. A trajetória somos nós mesmos. Em matéria de viver nunca se pode chegar antes. A via-crucis não é um descaminho, é a passagem única, não se chega senão através dela e com ela. A insistência é o nosso esforço, a desistência é o prêmio. a este só se chega quando se experimentou o poder de construir, e, apesar do gosto de poder, prefere-se a desistência. A desistência tem que ser uma escolha. Desistir é a escolha mais sagrada de uma vida. Desistir é o verdadeiro instante humano. E só esta é a glória própria de minha condição.

A desistência é uma revelação.


Li há poucos minutos este trecho do livro que mais li na vida, escutando os Beatles, o som que mais tenho escutado nos últimos meses. Me pegaram.


15.4.04


Breu. Uma coruja e uma orquestra de grilos. Mato até a cintura. Animais sem cintura rastejam. Desta vez, nenhum vagalume. Estivesse claro, veria o mar. Lá embaixo. Imaginação. Colocou o pinto para fora e gozou. Daqui ninguém sai vivo.


14.4.04


O poeta tem de ser perigoso. - Mário Faustino
* Jaguadarte


De costas é mais difícil. De costas exige uma doação para a qual não fomos treinados. De costas, não vejo seu rosto. De costas perco o acesso para minhas mãos. De costas, sem ver e sem tocar, tudo se concentra. De costas, também. De costas, eu quero de costas.


pode guaraná?
Minha nova droga: pó-de-guaraná. Me deixa realmente acordado. Tomei guaraná em outras épocas, mas não na dose certa, a que eu encontrei recentemente, uma dose bem maior. Faz mal? Vicia? Eu não tomo café. Cafeína, no meu corpo, é artigo raro.


13.4.04


clipping

eraOdito deu:
MACROLANÇAMENTOMICRO

Eta porra! O lançamento, ontem, de Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século foi um macrossucesso. Muita gente e bate-papo e lero-lero. Estiveram, direto do Rio Grande, os escritores Cíntia Moscovich, Carpinejar, Henrique Schneider, Luiz Faccioli e Marcelo Carneiro. Do Ceará, veio o Pedro Salgueiro. Sem contar os paulistanos e paulistas todos: Marçal, Guedes, Joca, Nelson, Mirisola, Ruffato, Galperin, Cláudio Daniel, Carrascoza, Bressane, Rogério, Barbão, Ivana, Tony, Bonassi, Moacyr, Laerte, Nestrovski, Marcelo Coelho e Glauco Mattoso. E o mineiro Evandro Affonso Ferreira e o carioca Rodrigo Lacerda. E o Mucinho. E o Roniwalter. E o curitibano Bortolotto e a Fernanda D'Umbra. E os pernambucanos Xico e Adrienne e Laurentino. E o paraibano Assis Ângelo e o belo-horizontino André Sant'Anna. E os meninos Alexandre, Chico, Corsaletti, Pratinha, Santiago. E as meninas Del Fuego e Índigo. E os dramaturgos Roveri e Moreno. Quem mais? Deixa ver se lembro. Estiveram lá o José Mindlin e o Cassiano Elek Machado e o editor Plinio Martins, é claro. E o Cestaro, da editora Alaúde. E um ator da Globo que eu não lembro. E gente de cinema e gente indo ao cinema. E um montão de amigos e leitores e blogueiros e sites literários e jornais e Rede TV! Dizem que a repórter era do programa do Clô. E chegou gente que viu no jornal e levou recorte etc. e tal. Teve quem anotou na agenda. E professores da capital. E escritores e poetas outros. E o livro ficou bem legal. Com capa dura e vermelha e amarela. E a luta apenas começa. Agora é distribuir e divulgar e soltar o bicho. Valeu por tudo. Grato a todos os amigos e aos autores e é isso.


Ana, Ana, Ana, Ana e Ana
Peraí. Agora não sei mais quem é quem. Por favor, Anas, identifiquem-se melhor. Já não sei mais para quem responder o quê.


Lançamento dos Cem menores contos brasileiros do século
Um acontecimento apenas (depois conto os demais): Marcelino Freire posa para uma fotografia ao lado do Pelé. Uma moça ao meu lado pergunta: quem é aquele ao lado do Marcelino?


Não seria tão fácil se ele já não fosse fraco. Bastaram brilho nos lábios, vestido justo e um decote discreto. Em duas horas estávamos em sua cama. O membro chegou já duro à minha boca. Olhei-o nos olhos. Sorri para aumentar a surpresa. Arranquei com os dentes a carne e cuspi em seu rosto de homem.


12.4.04


O mundo independia de mim - esta era a confiança a que eu tinha chegado: o mundo independia de mim, e não estou entendendo o que estou dizendo, nunca! nunca mais compreenderei o que eu disser. Pois como poderia eu dizer sem que a palavra mentisse por mim? como poderei dizer senão timidamente assim: a vida se me é. A vida se me é, e eu não entendo o que digo. e então adoro. - - - - - -, Clarice Lispector em A Paixão Segundo G.H.


blogo-lhes
Saiu o especial blogs da Paralelos. Como tá bonitinha a revista!


11.4.04


última chamada



Os Cem menores contos brasileiros do século (um é meu) - Lançamento no dia 12/04 segunda, no Espaço Unibanco de Cinema, São Paulo, às 19.
Confira os nomes dos 100 autores do livro.


prosa reta
sem cor

humor negro
rosa preta

cheiro de flor


avesso
Desmedida, o tempo todo, é improvável. Aos vivos, ao menos.


hybris
E quem disse que passar do limite é proibido? Passar do limite é assumir o risco. Não é pecado. É até necessário. É perder o controle. É até ter prazer. É ter dor. Não, não se vaza os próprios olhos por se passar do limite. Só às vezes.


7.4.04


hybris ou I'm a loser ou eu não

Alguém conhece o orkut? Pelo que eu entendi nos últimos dias, todo mundo conhece o orkut. Menos eu. E ninguém sabe o que é o orkut. Nem eu. Eu vou explicar mas isso demanda um tempo, um espaço. O orkut é uma espécie de e-groups onde ganha quem tem mais amigos e não quem manda as mensagens mais legais. É claro que, para ter amigos, mandar boas mensagens pode ser bom. Uma boa descrição, uma fotografia bem tirada. Uma boa rede de distribuição de e-mails-convite.

Os paralelos: no google ganha quem tem mais referências. Num blog, quem tem mais visitas, mais comentários nos posts. Para isso, pode ser necessário incrementar as citações no google. Não custa nada espalhar seu endereço aleatoriamente pela internet. Criteriosamente? Como? Num chat convencional, na época em que se usava chat, século passado, quem conhecia mais gente pessoalmente, quem conhecia as verdadeiras identidades dos chatters ganhava. No icq, quem escuta mais vezes por dia aquele barulhinho da mensagem chegando. O messenger tem barulhinho de mensagem chegando? Um hacker ganha quando tem sob seu controle mais sites, mais senhas, mais caminhos, mais informações. Num canal do irc, associa-se as vitórias do chat convencional e a dos hackers. Num site para jogar xadrez, ganha quem é melhor ranqueado, ou seja, quem ganha mais partidas.

Parece haver uma facilidade na internet, por estar baseada (em) e mediada por aparelhos digitais, de se obter números sobre tudo. É fácil contar quantos e-mails se recebe por dia. É fácil separar os spams dos demais para ter uma conta mais "realista". O perde e ganha fica fácil. É viciante como bingo. É sempre um jogo. Os comportamentos são parecidos com os das três velhinhas do meu prédio, que arruamram mais algumas velhinhas, e fazem bingos-pirata no salão de festas. Órfãs de bingo. O orkut me pareceu um ponto bastante avançado no jogo. Eu tenho, já, quatro amigos. Uma miséria.

São 5:59 agora. Eu nunca tive o sono regulado mesmo. Mesmo antes de a internet existir. Antes eu lia e via TV. Dedicando-se seriamente ao jogo, passa-se a vida sem dormir, e sem os convencionais problemas de falta de companhia. Sempre há alguém online, um e-mail a ser respondido, um post a ser escrito. Se faltar o que fazer, pode-se assumir três identidades diferentes e ser três pessoas. É como se sempre houvesse o que comer, sempre, é infinito. Como a desmedida do Édipo, que queria saber, saber. Tem algumas coisas que a gente sempre quer, a não ser que tomemos uns cuidados que não tomaremos. Desmedida. Quem sabe demais fura os próprios olhos. E quem internet demais?

São 6:10 exatamente agora. Não vou postar nada até segunda-feira. Podem acreditar. Quem vier aqui neste intervalo (de hoje a segunda) e perceber que continuo sem postar nada, saberá que passou da medida. Porque eu avisei que não ia postar. Para que voltar? Só segunda, meus queridos, só segunda. Voltarei com mais fome, comerei com gosto comentário por comentário feitos aos posts.

*o que é hybris? (procure no google)
*o que é orkut? (disse o Cardoso: geek pride
É uma rede de EXPANSÃO de contatos, que basicamente dá uma INCREMENTADA necessária nos setores de PERSONALS - que diversos sites já possuiam, tanto de forma amadora como PROFISSIONAL -, combinando-os com um recurso VINTAGE da rede chamado FÓRUM DE USUÁRIOS.)


O resto é fim-de-semana


6.4.04


Errata
Os últimos posts estão horríveis.


5.4.04


Eu quero ter fome.
Eu quero enfiar a comida na boca
e sentir mais fome enquanto me sacio,
às vezes sem pressa,
sem esperança,
principalmente sem esperança.
(esperança é o contrário de fome)

Não furar os olhos ao ver a comida
ao vislumbrar o sabor,
a carne.
Ao encarar a saciedade,
e a fome,
que não acabam.

Comer à mesa
de garfo e faca,
com as mãos.
Comer também com os olhos,
não para matar a fome
mas para alimentá-la.

Eu quero ter fome.
Com fome,
comida sempre há.


3.4.04


Uma teoria do abraço

Cansei de verdades sem sorriso.
A teoria do abraço não tem pés nem cabeça
nem boca,
nem olhar.
Nem me alimento de abraços escritos
enquanto os tenho tão perto que não os posso apenas ver.

Mentira que quero ser ouvido.
A palavra é extática quando gritada por
cem mil pessoas.
Envolvido, pouco ouço minha voz.
Talvez eu segure o choro para não chamar a atenção.
Para não me isolar no gozo.
Chorarei daqui a pouco
pois enquanto escrevo não tenho braços além dos meus.

A palavra aponta para fora.
Quero sair deste quarto
agora.


Abraçar alguém consiste em escolher uma pessoa, esperar que ela se posicione a sua frente, de frente, abrir os braços com lentidão suficiente para que ela perceba sua intenção e (isso é necessário para completar o movimento) iniciar a recepção. Por fim, envolver com os braços o tronco dessa pessoa. (outra opção é abraçar)


razão
Sim, a razão era um beco sem saída. Há um esquecimento. Há um esquecimento. A gente esquece de ser racional o tempo todo. A memória, esta sim, é que é cruel. A razão faz seu papel. A razão é um dos pólos. A razão é a parte que organiza. A memória é que media, é que faz a gente não esquecer de ter razão. E o outro pólo é a não-razão, quando a gente esquece. A gente esquece. Foi da razão que eu tirei uma idéia. Pode ser que alguma falta de memória tenha ajudado o raciocínio. Minha razão inventou que a vida tem que ser um negócio intrinsecamente bom. Porque a civilização vai sobrevivendo. Tem que ser bom, porque só assim os seres continuam vivendo. Para buscar uns prazeres. A vida. E depois a gente tem que esquecer, aí é que a falta de memória ajuda, a gente tem que esquecer que esse é um raciocínio com arestas. A falta de memória é que é boa. A gente tem que esquecer que talvez a gente viva um tempão mal com uma promessa de felicidade. Não estou falando da promessa religiosa construída pela cultura. Vou chamar de uma religiosidade natural. Isso a gente já tem que esquecer, não pode lembrar, não pode pensar nisso. Que a gente é enganado mas não é nem por uma ideologia. A gente é enganado por uma coisa que é material na gente. Não vou dar mais nomes a essa coisa. Mas é uma enganação que está fisicamente encrustada em todo mundo. Só essa mentira já daria conta da vida. Uma vida horrível com uma expectativa boa. Ou a vida é boa mesmo. E paramos aqui, e esquecemos o resto. Basear-se na razão para chegar a essa conclusão é uma merda. Mas a gente não consegue parar de lembrar de pensar de lembrar de pensar. A gente esquece até que pode dizer se está bem ou não quase sem pensar. Um sorriso é sem pensar ou quase. Já se diz. Como é que eu esqueço a parte certa do texto, hein? Eu esqueço. Eu consigo. A vida é boa. No fundo. Eu sei sem pensar. Prefiro assim. E a razão não me deixa parar de escrever, para aparar as arestas do raciocínio. Para não mentir para mim. A verdade não me serve sempre. Vou parar de escrever num ponto bom e esquecer o resto. Meus queridos, um abraço. É assim que me sinto: meus queridos, mais um abraço.








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