O Mentiroso foi escolhido como o melhor texto de 2002 pelo júri do Projeto Nascente - USP.
Tony Monti é paulista. Lê e escreve. Contrariando as previsões mais otimistas, terá trinta anos antes do fim da década. Quando você telefonar para sua casa, ele estará dormindo. Em seus sonhos, ainda mora na casa onde passou a infância. Não pretende mudar, por enquanto.
a novidade do poema
foi ana arremessar as roupas
para longe
que foi, nunca viu? - disse
enquanto se vestia
e eu olhava
sarau (3)
no centro da roda pode
fora não
Entrou rugindo, o leão, no picadeiro. Com pressa, tropeçou num balde d'água e assustou dois palhaços em monociclos antes de se trancar na jaula, sem atraso. Arfava cansado. Na hora exata, como ponto alto do espetáculo, atravessou com os dentes o tórax do domador.
30.3.04
Golpe único e preciso. Nenhuma chance de fuga.
Animal morto, esmagou a cabeça com duas marretadas adicionais. Um globo ocular rolou silencioso no soalho. Lamentou não ter destruído a cabeça no primeiro golpe, com o animal ainda vivo, quando a raiva primitiva latejava-lhe a alma.
De novo Vim da China sem grandes problemas, a não ser no desembarque em São Paulo. Talvez seja péssimo, mas não vou contar sobre a China aqui. O que vale é que a partir de agora os posts não são mentira. Os dos últimso dias, já tinha avisado, escrevi antes de ir. Voltei descansado, animado. Penso em viajar para um lugar mais distante da próxima vez. Testar as possibilidades humanas. No vôo, li A invenção da Solidão, do Paul Auster, presenteado pela editora chinesa que me convidou para a viagem. Ela tinha o exemplar em português, de uma vinda ao Brasil, não entendi bem. Deu-me. De novo, entrei no livro do Auster como se fosse ler uma história de ficção, e de novo ele começa a contar uma história de si mesmo, e de novo eu começo a desconfiar da história, se ficção ou não. Lembro-me de quando eu li um livrinho do Borges chamado Borges Oral, que reúne umas conferências que ele proferiu em uma universidade, não me lembro qual. Uma das tais conferências era sobre Swedenborg. Lembro-me bem, li o livro na praia, sol agradável, ao lado da namorada. Lembro dela deitada, se bronzeando, e eu tentando fugir do sol e lendo. Lembro também da grande dúvida que tive sobre a existência ou não do tal Swedenborg, de quem, até então, não tinha escutado falar. O relato era tão fantástico que duvidei de sua autenticidade embora houvesse uma introdução dizendo que não se tratava de ficção. Passei mesmo a duvidar das informações dos outros ensaios: o livro, a imortalidade, o conto policial e o tempo - todos muito agradáveis, como tudo que o Borges escreve.
29.3.04
Eu não gosto de poesia
letra todo livro é moral
todo livro nasce da culpa
todo discurso é justificativa
para uma decisão que seria tomada
mesmo que nenhum discurso existisse
letra todo livro é moral
todo livro nasce da culpa
todo discurso é justificativa
para uma decisão que seria tomada
se nenhum discurso existisse
letra todo livro é moral
todo livro nasce da culpa
todo discurso é justificativa
para uma ação que existiria
mesmo que nenhum discurso existisse
letra todo livro é moral
todo livro nasce da culpa
todo discurso é justificativa
para uma ação que existiria
se nenhum discurso existisse
sarau (2)
só diria um poema hoje se não tivesse quem o escutasse.
* de original anônimo chinês
28.3.04
sarau (1)
hoje não vou dizer um poema não vou dizer um poema não vou dizer um poema
*traduzido do chinês, por mim, há dois minutos (autor desconhecido)
27.3.04
Ali é dia Dor em mim, faz sol lá em cima.
Se há lá sol, fá mi ré dó.
* este seria meu micro-conto-poema n'os cem menores contos brasileiros do século. Agora é outro.
26.3.04
Cheguei
.
Não há dúvida. Sinto-me o próprio Bill Murray. Com trinta anos a menos. Uma grana a menos também. Não importa. Dôo metade dos meus livros por menos cinco anos na minha idade. Acabo de descobrir o porquê de eu ter aceitado o convite para a China sem pensar duas vezes. A revelação do dia: não precisarei responder e-mails e comentários. Na volta, ânimo renovado. Estou devendo respostas? Tardo e só falho às vezes. Aguardem. Descobri também que meu cabelo está um lixo. Vou cortar o cabelo na China! E, como é sexta, tomar cerveja chinesa. Nada como a rotina. O cara do hotel me disse que tem uma casa aqui onde tem mulher barata. Eu disse para ele beer. Vou ter que procurar sozinho. Cerveja apenas, ele não sabia onde encontrar. Ou não sabia como explicar. Ou tinha participação no lucro da sauna. Se não fosse tão improvável, procuraria fora do hotel um barbeiro que falasse inglês, só pelo gosto de conhecer mais um pouco da cidade. Moças e rapazes, vou comprar uma bicicleta - oito dólares e ainda recupero dois na revenda (devolução). Um apartamento em Pequim custa muito menos que no Brasil. Quanto tempo será que eu preciso para aprender o idioma? Se der, fico mais uns dias, vou ficando... Até.
25.3.04
Cape Canaveral
1 - Dia 30 de março, na FNAC da Paulista, a partir das 19:30, Nelson de Oliveira lança sólidos gozosos & solidões geométricas.
2 - Dia primeiro de abril, quinta, na Fnac de Pinheiros, São Paulo (Avenida Pedroso de Moraes, 858, telefone (11) 4501 3000, a partir das 19 horas), lançamento do romance Universo baldio, de Nei Duclós. O lançamento será junto a O Fantasma de Luis Buñuel, romance inédito de Maria José Silveira, e os relançamentos de Cleo e Daniel, de Roberto Freire, Trinta anos esta noite e Filhas do Segundo Sexo, de Paulo Francis.
3 - Segunda-feira, 5 de abril, no bar Genésio, Rua Fidalga, 259A, Vila Madalena, lançamento dos livros Domingo, de Francisco Slade e O Trágico e outras comédias, de Verônica Stigger, ambos da coleção Rocinante, editora 7 Letras, a mesma d'O Mentiroso. Será lançado também o número 12 da Revista Ficções, com textos de André Sant'anna, Sabina Anzuategui e Bruno Zeni, entre outros.
4 - Segunda, 12 de abril, na Livraria do Espaço Unibanco de Cinema, a partir das 19, lançamento do livrinho Os 100 menores contos brasileiros do século, com seis palavras (um conto) escritas por mim.
OS CEM MENORES CONTOS BRASILEIROS DO SÉCULO
"A antologia Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século foi capa hoje do caderno Ilustrada, da Folha. Clique aqui para ler. Se não conseguir, leia algumas informações, a saber: a microantologia será lançada no dia 12 de abril, a partir das 19 horas, na livraria do Espaço Unibanco de Cinema, na Rua Augusta. O livro reúne 100 autores, deste século XXI e de todo o Brasil, em 100 microcontos inéditos, feitos exclusivamente para o projeto. O desafio: cada conto não poderia ultrapassar 50 LETRAS (sem contar título, pontuação e espaço). Conheça, clicando aqui, a relação dos que toparam a empreitada. Antes, saiba: o projeto é uma realização da Ateliê Editorial, em parceria com a eraOdito editOra. O projeto gráfico é assinado por Silvana Zandomeni. A quantidade de página: 216. O preço ainda será definido. A obra conta, ainda, com um microprefácio (de 50 PALAVRAS) assinado por Italo Moriconi, organizador da antologia de Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século (Editora Objetiva)."
*do blogueraOdito
No jardim chinês,
o velho
traça lento
a nanquim uma flor.
Não corre o risco
da vida em branco.
24.3.04
Amanhã, quando pisar solo inóspito, serei finalmente o estrangeiro
não entenderei placas de trânsito
não saberei pedir informação
um teste ao mundo globalizado
nada é mais estranho que a vida
não falarei
Quando o outro é tão outro
fica evidente que calar-se
negar-se a algo
não é aceitar seu oposto.
Estou no avião. Haverá uma escala em Paris dentro de poucas horas. Eu, que tenho dificuldade de dormir fora de casa, não dormi até agora. Não descarto uns cochilos, mas não dormirei de verdade. No vôo, poucos chineses por enquanto. Talvez entrem mais em Paris. Ao meu lado, uma francesa descerá logo. Posso praticar um pouco de francês com ela. Lembrei-me da história de quando estávamos em um trem de Barcelona para Paris - eu, o Adalberto e a Evelise. Eu e o Adalberto perguntamos à Evelise, que já tinha estado em Paris, como eram as francesas. Ela disse que elas se pareciam com a Isabelle Adjani, mas com cara de menininha. Não é um mal começo. A francesa ao meu lado é das maiores americanófilas que eu já conheci. Gostei não. Encaixa-se na descrição da Evelise também. Adorei.
A comida é padrão internacional. Não deve ser fácil ter um cardápio para um vôo com paradas em São Paulo, Paris e Pequim. Quando fui a Madrid, comi Pollo, hoje comi Poulet. Cardápio de avião.
Por enquanto, aeroporto e avião, São Paulo e Paris são idênticas. Pequim também, e eu nem estive lá.
Fico feliz com todos os comentários que já chegaram para a brincadeira do texto colorido. Será que alguém ficou curioso com o significado do ideograma de ontem? Eu fiquei. Em que diferem um ideograma japonês e um chinês?
Como não dormirei, terei bastante tempo para nada. O tempo vai parar a qualquer momento. As janelinhas estão paradas. As poltronas estão paradas. Quase todas as pessoas estão paradas. Em outro contexto, estaria na situação ideal para uma angustiazinha. Tenho algo a fazer, mas só daqui a várias horas. Um nada me separaria da minha liberdade. Sorte poder olhar todos esses rostos e corpos, escutar essas línguas desconhecidas. Sonhar com o que quiser, sorrir no meio dessa gente toda que pouco olha meu rosto. A francesa ao meu lado disse que eu tenho um sorriso bonito. Merci. Pedi um uísque minutos depois do jantar. Normalmente, não gosto de uísque. Agora gosto, talvez por já ter bebido a minha dose. Há pouco, no meio desse tempo difícil de apreender, lembrei-me de que, na China, eu terei que acordar cedo, o que será facilitado por meus hábitos noturníssimos no Brasil. Todo esse tempo dormindo de dia, insone de noite, sem saber que estava treinando para uns poucos dias. Me sinto um pouco chinês.
23.3.04
Por uns dias, nada. Vou para a China e volto logo. Talvez dê para ir ao lançamento do Nelson de Oliveira na semana que vem, o Nelson que foi tão atento e gentil quando recebeu meu livrinho num pacote do correio. Ótimos esses pacotes surpresa, como o que recebi de uma editora chinesa que disse que quer publicar meu livro na China, mas só se me conhecer pessoalmente. Vou amanhã. Chego lá quando? Não importa muito, vou para a China. Com o dinheiro da passagem, eu faria duas edições do meu livro aqui. A China deve estar com a grana. Deixei programados, com um amigo, posts para os próximos dias, como se eu os mandasse diretamente de onde eu estiver.
eu achava que gostava de gente, mas confundi as coisas
eu gosto de umas pessoas, só
tô de mau humor
parece?
domingo é um mau dia
sábado é bom
meu amigo edson
namora uma moça cujo pai não tem sorriso
perdeu
eu não acreditei na hora, mas o edson não mente
só de lembrar o sábado, em cinco linhas, meu humor melhorou um pouco
Tony,
não é sério,
é brincadeira
21.3.04
Aí, ô, imbecil, não me encha o saco com esse seu vazio enfeitado. Se quer conversar, vai ter que aceitar antes que a gente não vai se entender. Não tem jeito, querido: quando você localizar a falha no meu discurso, melhor esquecer. De onde você tirou a idéia de que eu acredito no que falo? Conversar é só uma brincadeira, como quando esfrego meu nariz no seu antes de trepar. E aí continuamos a brincar. O que você fala, Pedro, é só um enfeitezinho, como seu cabelo mal cortado, sua barriga de cerveja, sua unhas roídas, seu carro do ano e sua casa na praia. Se ainda quer brincar, estou escutando.
20.3.04
Brincadeira do texto colorido
Funciona assim: eu escrevi um texto colorido ali embaixo. Aí você escreve um texto. Depois de uma semana, mais ou menos, eu coloco colorido o texto mais legal que eu receber. Vale qualquer texto, mas tem que ser "resposta ao meu texto colorido". Aí, depois da primeira semana, eu vejo como a brincadeira continua. O prêmio é que o texto que eu achar mais legal vai ficar colorido. E depois eu arrumo mais um prêmio. Talvez. A "resposta" ao meu texto não pode ser maior (um pouquinho, até pode) que meu texto ali embaixo. Podem me mandar a "resposta" num comentário "Diz aí" (de preferência) ou para o meu e-mail. O seu texto pode ser qualquer coisa, desde que seja um texto. Não é para responder uma pergunta, eu não fiz uma pergunta. Sacou? Não precisa ser uma resposta à voz que fala, é uma resposta ao texto. Pode ser uma historinha, um poema. Hmmm. Explico mais?
Sabe por quê, sabe por quê? Porque tem lógica o que eu falo, percebe? Não é assim para justificar o que eu já queria antes de falar, não é assim como você diz que é para o bem de todo mundo. Para o bem de todo mundo sempre é para o seu bem. Quando eu falo, se eu tiver um motivo só meu bem egoísta, eu escondo melhor, dá para perceber? Você nem esconde direito. É isso que é justiça, é esconder melhor os próprios motivos de um jeito que o outro ache que os meus motivos são dele também. Vai tirar o corpo agora? Você não agüenta com sujeira, eu sei. Ontem sonhei com você, você era a que eu conheci lá não sua cidade. Só que aquela continou vivendo lá. E eu ia para lá com você. Sonho. Eu ia mas você já estava. E você era essa que mora aqui comigo, e eu ia para lá e você ficava, mas ia comigo. É sonho. Eu casei com duas mulheres. No meu sonho, você é duas. A única coisa que sobra sou eu mesmo. O resto é tudo diferente. Até você, que mora comigo, são duas. Eu casei com duas no meu sonho. Minha estratégia é a seguinte: vou revelar tudo, revelo até que é uma estratégia, aí você me acha muito inteligente e entende meus motivos. Minha estratégia. E teve a vez em que eu sonhei que era outra pessoa. Mas isso eu resolvo comigo. Percebe a lógica? Os meus motivos eu escondo. Eu também tenho uns medos. Ser inteligente é bonito demais, é? Mesmo depois de ficar magoada? Não entendo você, não, acho que é porque você mente muito mal. Você nem organiza essas suas coisas, fala como se desprezasse minha inteligência. Você acha que umas desculpinhas já me convencem, é? Você tem que me enganar, Ana. E me arruma um jeito de organizar minhas coisas. Senão, fica quietinha. Se não for para me enganar, some.
19.3.04
Links Coloquei os links em ordem alfabética. Agora não consigo encontrar mais os que quero, vou mudar.
"confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever?" * (Rainer Maria Rilke e uma penca de gente que o leu e que não o leu)
Que bobagem é essa? Que liberdade há em não conseguir viver de outro modo? A gente busca dar um sentido para essa vida sem sentido, e alguns escrevem, e gostam tanto que a eles parece impossível viver sem escrever. Difícil encarar dificuldades. Bastante fácil encontrar um discurso romantizado sobre nós mesmos. Impossibilidades é o que queremos. Um discurso que justifique uma decisão que já tomamos. Criar o discurso organizado que abone aquilo que às vezes chamamos de escolha é mais fácil que duvidar do caminho escolhido. Aceitar possibilidades. Se me fosse vedado escrever. Talvez fosse uma benção. Talvez eu fosse empurrado para um caminho mais fácil, mais feliz. Até mesmo feliz. Escrever porque só é possível viver assim é parecido com matei porque sou um animal. it's my life, disse o serial killer. Ok, talvez sejamos mesmo assassinos por natureza, talvez não sejamos dignos de qualquer ética, mas apenas do discurso ético. É bem provável que nossos motivos sejam pulsionais, e matar e escrever sejam a mesma coisa. Começo a entender algumas estratégias. Não há liberdade, não é mesmo? Somos bem mais bichos. Vontade de organizar uns gritos. É bom, dá a impressão que a gente está conversando. Jeito discreto de gritar. É parecido com matar gente.
Do caderno de definições
I
vão é um buraco que não serve para nada
tudo é uma coisa grande que não existe
ser é o contrário de humano
bicho é tudo que não é planta nem pedra
gota é um pedaço de chuva
o sol já vai nascendo
a vida, às seis da manhã, é de uma obviedade mórbida
II
homem
homem não é mulher
homem não é macaco
homem não é margarida
homem não é bagunça
mulher é homem
mulher não é homem
mulher não é macaco
mulher pode ser margarida
mulher é diferente
18.3.04
O último Este é o último palhaço do Agnaldo Nicoleti do meu arquivo. A não ser que eu resolva mexer em um arquivo em formato esdrúxulo que está guardado em algum lugar. Não me lembro.
A Nara disse que palhaços não são engraçados, que são assustadores. Sabe o que eu acho assustador? Boneca(o) com jeito de gente. As que têm cara de bebê são terríveis. Não ponho uma figura aqui porque não gosto. Mesmo que não estejam à mostra, começo logo a imaginar as juntas malfeitas, os cabelos amarrados, caindo, as partes escondidas faltando, o vazio nas vísceras, no cérebro. Jogar bola, jogar bola é legal.
17.3.04
a tranqüilidade de que necessitava É muito bem ordenada a tragédia. Tudo é seguro e tranqülizador. No drama, com todos esses traidores, esses malvados fanáticos, essa inocência perseguida, esse fulgor de esperança, torna-se horrível morrer, como um acidente... Na tragédia pode-se ficar tranqüilo... No fundo, são todos finalmente inocentes. Não porque um mata e o outro é morto, é apenas uma questão da distribuição dos papéis. Além disso, a tragédia é especialmente tranqüilizadora, porque desde o começo já se sabe que não há esperança, essa esperança suja... No drama se luta, porque de alguma forma ainda a gente espera salvar-se. Isso é repugnante. Isso tem um sentido. Mas aqui tudo é absurdo. Tudo é vão. Ao fim, não há mais nada a tentar. * uma citação de Jean Anouilh sobre a tragédia Antígona, no interessante livro A Tragédia Grega, de Albin Lesky.
16.3.04
palhaço é um bicho engraçado *by Agnaldo Nicoleti
15.3.04
Querela Acabaram à força com a polêmica do Editorial, escrito pelo André Sant'anna, na Paralelos para o especial Rocinante. Suspenderam os comentários. E apagaram boa parte dos comentários anteriores. Uma pena. Não culpo a Paralelos, embora eu provavelmente tivesse deixado a discussão correr.
Dois livros Tentei começar a ler um livro outro dia. Não gostei. Parei antes da metade. Melhor não dizer o nome, certo?, autor vivo. Falo dos bons, ignoro os demais, ok? Gostei foi do que acabei há uns minutinhos. 1933 foi um ano ruim, John Fante. O melhor do Fante, dos que li. Percebe alguma sutil semelhança entre John Fante e Tony Monti? Coincidência. Por essa sutil semelhança, que não é só do nome, é talvez que eu tenha gostado do livro. Imigrantes. Tem algo de mim no livro. Nenhuma relação direta entre o que ele escreve e o que eu escrevo. Não. É outra coisa.
12.3.04
Querela Interessante o Editorial, escrito pelo André Sant'anna, da Paralelos para o especial Rocinante. Se passar por lá, não deixe de ver os comentários, que a coisa está ficando engraçada.
Hoje, nada. Chega de fingimento. Quem mandar um abraço escrito, ganha um abraço escrito. Sacou a lógica? E assim por diante. (como?)
11.3.04
ernesto Antes do fim, publicado em 1999, é um livro das memórias de um senhor nascido em 1911, cujas duas grandes paixões morreram, a esposa (Matilde) e o filho (Jorge). Não é possível que todas as memórias estejam no livro. As referentes a essas duas pessoas têm destaque, sempre associadas ao sentimento de que tudo aquilo não existe mais. Sua seleção e o modo como abordou os fatos deixa suspeito um pessimismo próprio dos que querem muito. Ernesto perdeu as paixões e vive num mundo terrível. Quase cego, já não pinta, lê ou escreve como antes fazia. O retrato do século XX até os dias muitos próximos a hoje é contundente. Estamos, como civilização, à beira do abismo. Se os jovens das gerações anteriores lutaram para construir um mundo melhor, os de agora, se lutarem, o farão para que a destruição não seja irreversível. A ilusão da razão e do progresso parece cada vez mais monstruosa. Ao fim, Ernesto Sabato ainda encontra forças para enviar uma mensagem de confiança aos tais jovens, mensagem que saiu com cara de desesperança. Sabato não é dos que não acredita em nada, é dos que oscila entre a esperança e a desesperança, entre o beco sem saída da razão pura e as demais as possibilidades humanas. É dos que bucam o absoluto até o fim, passou de adepto do materialismo dialético a crítico dele, andou pelos jardins surrealistas e pelas reuniões anarquistas de Buenos Aires. Foi físico, trabalhou em alguns dos mais importantes laboratórios do mundo, abandonando a ciência pela pintura e pela literatura, para se aproximar do homem e as paixões humanas.
10.3.04
Fracassamos sobre os bancos de areia do racionalismo
demos um passo para trás e voltemos a tocar
a rocha bruta do mistério. (hans urs von balthasar)
antes do fim "Descobri em Cioran a coerência de um homem autêntico, e partilhamos pensamentos de notável semelhança. Como a necessidade de desmistificar o racionalismo que só nos trouxe a miséria e o totalitarismo. E também a imbecilidade dos que crêem no progresso e no avanço da civilização." - Ernesto Sabato, em Antes do fim.
dinheiro público privada abaixo "Imagine se, em vez de telenovelas patrocinadas por leis de incentivo, tivéssemos grana para editar e distribuir aos milhares livros do Bukovski, Leminski, Celine, Rimbaud, Artaud, Marcelo Mirisola, Sebastião Nunes, Otávio Ramos, etc, etc, etc?" - trechinho de um texto do Ademir Assunção lá no espelunca.
9.3.04
Perros Tenho lido o Ernesto Sabato, um livro atrás do outro. Uma expressão se repete com pequenas variações: "matar como a um cão", "como mataria um cão", "morreu como um cão". É uma expressão da língua espanhola ou é o Sabato? Alguém sabe?
8.3.04
eu por aí Saíu uma resenha d'O mentiroso na Paralelos. Saiu uma entrevista minha lá também. Tudo como parte de um especial Paralelos sobre a coleção Rocinante, da 7 Letras. (Tem também uma entrevista que eu fiz com a Clarah Averbuck.) (O autor de "Catete" é o Flávio Izhaki, não eu).
O Túnel Ia dormir. Resolvi ler umas páginas, descansar a cabeça. Li as oitenta páginas de um livro que eu tinha começado há uns dias. E, quando acabei, olhei pela janela e vi os primeiros traços alaranjados num céu azul bem escuro. Lembrou-me de uma cena do livro, uma das cenas finais. Não reproduzo a cena porque não quero contar o livro. Não leio resenhas para só saber dos livros quando os ler. Juan Pablo Castel encontrou a única pessoa que o entendia. Apaixonou-se. Mas não conseguiu comunicar-se com ela. Não conseguiu fazer com que tirassem, juntos, exlusivamente dessa relação perfeita, o que animaria suas vidas. Relação perfeita no meio de uma vida cheia de complicações, passados, disse María Iribarne de outro modo. É ótimo encontrar um livrinho do qual a gente gosta. É um gostar diferente, talvez haja algo sádico no prazer de saber que não se é a única pessoa só. Em saber que todos são sós e têm consciência disso em algum grau. Eu me sinto até mesmo, um paradoxo, menos só. Uma multidão de solitários é menos solidão que um quarto vazio. Eu já disse algo diferente alguma vez, quase contrário.
*sobre O Túnel, pequeno romance de Ernesto Sabato
6.3.04
risco (continuação do post "por favor" de 04/03) E se esquecermos o blog, a literatura, as palavras, se desamarrarmos uns nós, mesmo que os mais fáceis, se assumirmos algum risco? uma supresa sem palavra? cheia de sem-palavra, pelo menos? vou pensar no assunto, procurar uma avalanche, um vulcão, pintar de vermelho, abraçar uma música, vou tentar uma surpresa. Mesmo que começar com palavras, será a preparação para a perda do caminho. Os primeiros nós.
5.3.04
With a little help from my friends (v. 1.1)* Este post foi atualizado em data mais recente.
Por favor Adivinhe o que eu quero e me faça uma surpresa.
Risco Fechou os olhos. Pediu que a guiasse. Fechei os olhos, então.
3.3.04
Quatrocentos e trinta e dois.
Se fosse um apenas,
seria nada.
Um é quatrocentos e trinta e dois
exatos.
Quatrcentos e trinta e dois,
e um.
Dói.
A blusa vermelha usada duas vezes,
o gol feito na derrota,
o filho que vai
ser feliz.
Dinheiro fácil,
herança
do pai
morto.
Vermelho amarelado,
Quatrocentos e trinta e dois beijos
menos um.
Nada.
Lançamento+lançamento+alguma coisa Dia 8 de março, no Rio, lançamento de Domingo, romance de Francisco Slade. Paralelamente, lançamento da edição especial da Revista Paralelos sobre a Coleção Rocinante, da qual O Mentiroso é um dos primeiros membros. Sorte ao Francisco. Bar do Ernesto, Lapa, ao lado da sala Cecília Meirelles. Às 20h.
2.3.04
o vidro vai se romper e poderemos sair a água vai vazar para todos os lados ninguém pensa nisso porque se o vidro romper e nós sairmos e a água vazar e molhar o tapete que daqui vemos de longe o que interessará é que ela a água não estará aqui nem o vidro e nós poderemos sair nós mesmos não estaremos aqui se o vidro estourar o aquário não é mais aquário é água no tapete é vidro quebrado mas não é isso é peixe que nada no ar que respira que nem gente e que anda no tapete úmido molhado de água que era aquário é cheiro de peixe no tapete quando o vidro romper e a água vazar para fazer o tapete feder nossa liberdade terá cheiro de peixe morto
1.3.04
primeiro de março Os últimos textos de Nei Duclós em outubro estão ótimos. Textos daqueles com os quais não dá para discordar nem concordar em tudo. Perfeito.
G.H. Há muita especulação sobre o significado dessas duas letras no livro de Clarice Lispector. A hipótese mais difundida - da qual desconfio, para mim são duas letras, apenas - é que seriam uma abreviação de gênero humano. Porém, um fato interessante que poderia ajudar a transformar a hipótese em teoria gerou um reflexão. Há uma infinidade de "humanidade", "humanamente", "humano" e afins no livro. No texto da Clarice, "humano" se opõe a animal e se alinha a cultural, ideológico, toda essa construção discursiva, enfim, humana. Seria a partir desse enorme emaranhado de significados e valores que o homem se reconheceria como homem.
Porque o escocês se sente escocês quando não é inglês, o carioca quando não é paulista, o palmeirense quando não é corintiano. O que não costumam perceber é a carga de semelhança entre eles e os seus mais próximos, usualmente referência para balizar as diferenças. De longe, ingleses e escoceses são britânicos, jamais japoneses; cariocas e paulistas são brasileiros, jamais moscovitas; palmeirenses e corintianos são torcedores de futebol no Brasil, não são fãs das encenações shakespeareanas londrinas do século XVI. Assim como homens não são pedras. Homens são macacos, homens são porcos, são cachorros, são papagaios, são tubarões, são lagartos, são aranhas, são pulgas. São margaridas. Mas a gente esquece.
há pouco Conversava com o Marcelino e ele reclamava de alguma coisa da qual não lembro. Foi conclusivo: deus não existe. Em seguida começou a falar dos nomes confirmados para a coletânea de micro-contos que vai sair em breve, Os cem menores contos do século. Dalton Trevisan, Millôr Fernades. Concliu enfatico: Deus existe com o dê maiúsculo bem nítido apesar da má qualidade da ligação telefônica. Ateu de conveniência? Simpatizo com a idéia.
domingo já é segunda Como se o fato de os séculos passarem fizesse com que a memória fosse apagada. Séculos já, uns dois, a memória vai perdendo o acesso. Mas as coisas estão bem guardadas, não tem jeito. Domingo de noite também, faz uns séculos. Que jeito? Memória é a coisa mais cruel do mundo. Nada cruel também, mas eu não me lembro disso agora. Sessenta, setenta séculos. Lembro de tudo. Funes, conhecem?, o memorioso, cruel, cruel. Chega, esqueço dormindo.