O Mentiroso foi escolhido como o melhor texto de 2002 pelo júri do Projeto Nascente - USP.
Tony Monti é paulista. Lê e escreve. Contrariando as previsões mais otimistas, terá trinta anos antes do fim da década. Quando você telefonar para sua casa, ele estará dormindo. Em seus sonhos, ainda mora na casa onde passou a infância. Não pretende mudar, por enquanto.
mais do mesmo Tem mais um conto d'o mentiroso ali do lado. Um amigo meu, o Rodrigo Frias, tinha escrito um livro cheio de histórias de palhaços. Fiquei com inveja e escrevi o outro, o conto.
*autor dessa bela imagem: Agnaldo Nicoleti
sem amolar Sai em breve: Edward mãos de tesoura, versão sem cortes. Logo depois, a versão ser cortes de Jack, o estripador. Para onde esse mundo vai?
Que é que se faz agora que os alicerces derreteram?
As pernas onde apoiei a vida
não mais caminham sem culpa.
Nem culpadas.
No fim era só uma grande falta de Juízo?
Éramos crianças brincando.
Que é que se faz agora que os tijolos despencaram,
que as frases escritas são
rabiscos tortos?
Para quem jogo minha culpa agora que a culpa não existe?
O fim chegou, o começo e o fim.
Quando você decidiu doar as roupas velhas
não foi sua culpa. Não há culpa.
Não há com o que se preocupar.
Você me enganou quando sorriu e me odiava,
e eu fui feliz.
Coloca aquela máscara de novo e vamos dançar
sem juízo afinal.
27.2.04
Caio Fernando Abreu sobre John Fante (1985) * na introducão de Sonhos de Bunker Hill da edição da L&PM
"John Fante não foi exatamente um "gigante da literatura", nem escreveu sobre grandes tragédias da alma humana: detinha-se sobre o pequeno, com muito cuidado. Com doses generosas de sentimentos raros: perdão e amor. [...] Sabia também que tudo parece meio idiota quando se pensa na morte. E que as pessoas, de muitas maneiras estranhas, tortuosas, piradas, no final das contas só querem amar e ser felizes. Doloroso é que isso, que parece tão pouco, seja geralmente tão inatingível. Fante-Bandini sabia muito bem de todas essas coisas."
das decisões apressadas ... pero sin perder la ternura jamás.
26.2.04
autocrítica Tô falando demais. Nem mais uma palavra por hoje.
Arte
A fila para ver Picasso na Oca hoje era bem maior do que minha disposição gostaria de enfrentar. Não enfrentei. Como também não esperei até a sessão seguinte porque, mesmo chegando meia hora antes, todos os ingressos para o Big Fish já tinham sido vendidos. No carnaval, quando a cidade fica vazia. São Paulo é grande demais, tem de tudo e muito. Muita gente que vai ao cinema no Carnaval, por exemplo. Gente demais ou cinema de menos.
Lembrei de quando estive em Madri e, andando pelos corredores do Museo Reina Sofia, entrei em uma salinha onde havia esboços de algo que eu conhecia. Conforme as figuras se sucediam, ficava óbvio que o grande quadro estaria depois da próxima parede.
Ou da próxima. Até que, num salão, um painel enorme surgiu. Não sabia que era tão grande até então. A gente fica paralisado. Tem coisas que, pensando bem, talvez não existam.
25.2.04
Entropia
Eu tinha uma loja de porcelana, uma preciosidade. Para não ter que abrir a porta de manhã, não fechava a porta de noite. Certo dia, um boi entrou na loja e passou algumas horas por lá. Quando eu cheguei, o boi já tinha ido. A bagunça é tanta que o trabalho para limpar os cacos e salvar alguma peça inteira parece ser maior que o de construir uma loja inteira do zero.
24.2.04
Transgressão Em tempo de carnaval sem carnaval como o nosso, escutei uns relatos de algo que parece ter sido bastante transgressor. Quem me contou as histórias foi protagonista do Madame Satã das antigas, não o atual com lanterninha na pista. Transgressão, sim. E, já que não vou contar o que escutei, aproveito o espaço para dizer que, quem quiser me dar um presente, tenho uma sugestão: a tradução que saiu agora do clássico O erotismo (Georges Bataille). Escutei uma vez, de um desses caras que lêem mais do que deviam, que, depois de Georges Bataille, não existe mais transgressão. Que tudo seria repetir. Tratar transgressão como algo assim engessado vai contra os princípios do objeto de estudo. Onde é que é o Madame Satã do século XXI? Não é aqui por perto, certeza, já procurei.
23.2.04
22.2.04
gente como tem povo aqui, escutaram num camarote do povo das altas em Salvador, onde tocava música eletrônica e só se via o povo através de um vidro escuro que isolava o ambiente limpo de tudo o que acontecia fora. No chão, em volta dos trios-elétricos o povo que pode pagar o abadá para se uniformizar pulava. O povo, mais distante, atrás do cordão de isolamente, dançava ao som do que passasse.
21.2.04
Just lost
É preciso se apaixonar por Charlotte para gostar de Encontros e desencontros? Gostei do filme. É possível também que se apaixone por Bob Harris. Ou o quê? A vida é simples assim, é? Complicada assim, sim, a resposta. Conheci um americano, nas últimas férias, que me disse, depois de umas cervejas, sobre uma moça que tinha ido dormir mais cedo I just wanted to be with. But she... É bem possível que Michael também tenha se apaixonado por Charlotte.
Não sei se Bill Murray é bom ator ou foi muito bem dirigido. Poucas palavras, nenhum excesso, contenção que se distende em um beijo. Rápido. Um ponto no infinito. O ponto. O filme é triste ou feliz? Enquanto é filme, é expectativa, nem triste nem feliz, é existência, triste e feliz, é (apenas) a mão de Bob no pé de Charlotte. Quando acaba, pode ser alguma coisa. Os diversos vazios têm tempo de aparecer, a possível angústia de estar preso a uma cadeia de eventos.
Gostei do filme também por isso, por ter me apaixonado e por ter me levado à necessidade de assumir minha liberdade, o que supõe que a liberdade exista. Certo é que apenas o segundo motivo não faria um filme bom. É do primeiro motivo que podem nascer todos os outros. Não há vida apenas de longe. Razão sem paixão é justificativa vazia para angústia e desespero.
Se seus olhos me procurarem assim de novo, vou acabar me sentindo vivo.
20.2.04
E não venha me dizer que você gosta de carnaval, mas só daquele das antigas com as marchinhas. Não. Conheço o tipo. Posso reconhecer de longe quem diz que gosta de marchinhas. Posso até saber quando essa pessoa vai declarar o fato sorrindo.
19.2.04
Heróis E naquele reduto solitáro eu me punha a escrever contos. Agora percebo que escrevia toda vez que era infeliz, sentia-me só ou em descompasso com o mundo onde me coubera nascer. E pergunto-me se não é sempre assim, se a arte de nosso tempo, essa arte tensa e dilacerada, não nasce invariavelmente de nosso desajuste, de nossa ansiedade e de nosso descontentamento. Uma espécie de tentaiva de reconciliação com o universo dessas criaturas frágeis, inquietas e aflitas que são os seres humanos. [...] E então seres descontentes, meio cegos e meio enlouquecidos, tentam recuperar, tateando, a harmonia perdida, com o mistério e o sangue, pintando ou escrevendo uma realidade diferente da que, infelizmente, os cerca, uma realidade muitas vezes de aparência fantástica e demencial, mas que, coisa curiosa, acaba sendo mais profunda e verdadeira que a cotidiana. E assim, como se sonhassem por todos, esses seres frágeis conseguem superar a desventura individual e se transformam em intérpretes e até em salvadores (trágicos) do destino coletivo.
Mas minha infelicidade sempre foi dupla, pois minha fraqueza, meu espírito contemplativo, minha indecisão, minha abulia sempre me impediram de alcançar essa nova ordem, esse novo cosmos que é a obra de arte, e terminei sempre caindo dos andaimes da desejada construção que me salvaria. E, ao cair, ferido e duplamente triste, saí em busca de simples seres humanos. (em sobre heróis e tumbas, Ernesto Sabato)
lengalenga só gosto de carnaval às vezes
não gosto de carnaval hoje
sinto já o carnaval chegando
a televisão mostrando como confeccionar sua própria fantasia
própria fantasia ensinada em rede nacional
fantasia própria igual à de todos
carnaval sem transgressão
descarnavalização geral
eu vou ao cinema aproveitar a cidade vazia
fantasia igual à de uma outra pequena multidão
diferenciar-se não existe
fantasia de meia dúzia
ser diferente
não é o carnaval a questão
é a falta de carnaval
a falta de fantasia
18.2.04
I feel good
17.2.04
only a northern song * . *a minha preferida de hoje
.
If you're listening to this song
You may think the chords are going wrong
But they're not
He just wrote it like that
When you're listening late at night
You may think the bands are not quite right
But they are
They just play it like that
It doesn't really matter what chords I play
What words I say or time of day it is
As it's only a Northern Song
It doesn't really matter what clothes I wear
or how I fare or if my hair is brown
When it's only a Northern Song
If you think the harmony
Is a lttle dark and out of key
You're correct
There's nobody there
And I told you there's no one there
16.2.04
chantagem regressiva cinco eu posso não espalhar seus segredos aliás preciso de um favorzinho quatro porque você está me olhando assim acha que consegue tudo só com charminho três não resolvo tudo assim de modo emocional há razão nas minhas decisões dois e vê se pára de me olhar eu não quero seu carinho não assim um espero que você tenha entendido porque pára não vou repetir ai um um hmm zero hhhh
para esquecer da febre Não vou acreditar em algumas evidências lógicas - a razão pura não leva ninguém muito longe (à Lua, diria alguém. Até quanto a isso, eu discordo). É preciso um pouco de ação inconseqüente. Um abraço de urso me aqueceria demais agora. Febre.
rotina Alguma febre ainda, mal estar geral. Concentro-me apenas para não perder a hora dos remédios. Durmo e vejo TV. Até há algumas horas, de vez em quando, media a temperatura. Mas esqueci o termômetro debaixo do braço, fui dar uma volta e ele se espatifou no chão. Menos uma coisa com que se preocupar. (não ter com quem dividir tudo deixa as coisas piores - eu dividiria) Não me acostumo bem a estar sozinho. Ou a não ter uma boa ilusão de não estar sozinho, o que é basicamente a mesma coisa. Uma pena. De repente, apenas uma baixa de humor associada ao corpo fraco.
14.2.04
diagnóstico Aparentemente a febre passou. Consegui dormir umas horas ontem de noite. Não dormi mais depois disso, é verdade. Acontece. Por via das dúvidas, fui ao médico, já sabendo que não tinha mais nada, um resto de gripe e só. Normal. Pneumonia. A médica disse: uma pneumoniazinha. Certo, certo. Normal. E o melhor: agora tenho um motivo de "força maior" para as ausências dos últimos dias que andava justificando com o contestável estou gripado.
13.2.04
febre Estou gripado. Muito. Estive mais por esses últimos dias. Passei meu tempo tentando dormir. Mas a febre não deixou, só hoje consegui umas horinhas calmas. Com febre as idéias ficam amalucadas, não consigo relaxar, e os pensamentos, ao dormir, ganham tons de pesadelo. Acordo a cada poucos minutos. Mesmo acordado, organizar o pensamento é uma luta. Descobri, por exemplo, que escutar húngaro não é problemático. Escutar italiano, no entanto, é terrível. De húngaro, eu não entendo uma palavra. Assim, minha atenção não é chamada. Italiano, que entendo em partes, funciona como tortura, o cérebro começa a rodar, dar voltas no nada, buscar significados que não vou conseguir. Terrível, terrível. Não consigo fazer o cérebro parar. É como sonhar que se está jogando xadrez e que as regras vão mudando aos poucos, exatamente para impedir qualquer definição no jogo. Alguém já sonhou que caía e, quando levantava, caía de novo? Coisas assim, não se sai do lugar. Amanhã, espero, estarei melhor.
12.2.04
Julio Qual é o mistério que faz Cortázar ser tão citado entre escritores?
11.2.04
o pneu cheinho cheinho não cabe mais nada pneu com febre tem pensamentos horríveis viagens tremendas com febre pneu canta duas músicas ao mesmo tempo enquanto tenta dormir cheiro de borracha queimada eu pneumoencefalitetérmica silêncio psssssiu alguém por favor me esvazia um pouco
10.2.04
estupro se rígidos conceitos devem ser saltados formas entortadas ouvidos sem conceitos com imagens um pássaro uma flor imagens conceitos um rio uma árvore são tão pouco um pinto logo diz mais conceitos rígidos devem ser destruídos rígido apenas um pinto um buraco pode ser preenchido ou saltado se aceita a nova imagem desde que nova faz-se algo sem nome e fim de papo se não aceito o pinto rígido faz-se algo mesmo assim caminho longo pinto espremido em idéia buraco um poema apenas este feito a força.
vamos dividir esse dinheiro Fui assistir, hoje, à primeira palestra do ciclo São Paulo na Literatura, do Itau Cultural. Muito bom. O Ivan Teixeira é simpático, a organização foi bastante boa, as acomodações são excelentes. Bem que o dinheiro brasileiro poderia circular melhor, o lucro das empresas ser melhor dividido. Gostei da esmola, mas ainda soa como esmola esse negócio de banco fazer insituto cultural. Bastante mais fácil ficar duas horas sentado em cadeira estofada, sala com microfone, ar condicionado, limpa, ambiente agradável (Itau Cultural) que assistir aula na USP. Repito, gostei da esmola.
9.2.04
FLIP Se alguém quiser me convidar para ir à FLIP (Festa Literária de Parati), no meio do ano, não seja tímido, eu aceito.
fereio
como língua torta paralizada presa diante de uma falha enorme no chão impossível saltá-la sem tomar um impulso caminha-se lentamente para trás enrolando o elástico para ele então desenrolar um motorzinho de uma vez um dois terês.
um dois três sempre a mesma coisa mesma coisa mesma coisa cem sessenta e seis ponto sete a mesma coisa um bicho de anos e anos séculos acumulando a coisa nos átomos que são sempre a mesma coisa e principalmente no papo que a gente escuta e é a mesma coisa sempre ou não é? é sempre aquela coisa meio dissimulada de negociar o inegociável em outras épocas tratava-se de outro modo porque não era dinheiro o que valia qualquer coisa talvez fosse ir para o céu a gente não trata a coisa cobrando cinqüenta reais alguns tratam a gente trata a coisa como se como se fosse do jeito que a gente entende ou seja como se valesse cinqüenta reais se eu disser que vale mais ou que vale menos alguém me entenderá mas a coisa não vale nem mais nem menos do que ela mesma não estou querendo me distanciar não estou tentando simular um discurso como se fosse próximo a coisa já que o usual e que não é nem perto da coisa é rígido então se eu simulo um discurso que não é o usual a gente pensa que está desmontando aquele discurso que não serve então a gente pensa que é um discurso que serve se concentrando no "serve" da coisa e se esquecendo do "discurso" da coisa e de que nenhum discurso serve pois nunca será a coisa mas serve para lembrar de algo alguma coisa mas não a coisa mesma enfim calar-se é o mesmo que repetir o que todo mundo diz ou deixar que repitam.
8.2.04
Eu também Achar que religião é uma série de preceitos morais travestidos de parábolas e promessas de felicidade futura é mais ou menos como tratar a sociedade como um bando de macacos metidos a besta. O que é uma idéia bastante interessante.
Lígia Havia uma Lygia (imagino que com "y") num romance encantador que li há um tempo. The Raimbow (O arco-íris), D. H. Lawrence. Era dessas mulheres fortes e lindas, que mudam o mundo mesmo que não queiram. Queria me submeter a uma coisa dessas, não apenas uma mulher, um mundo que fosse intenso e provocador até o último fio de cabelo. Lawrence é desses escritores modernos que não chamam a atencão pela forma e, talvez por isso, não ficam marcados. Lawrence e Joyce viveram na mesma época. Joyce escreveu boa parte da obra na transgressão, também a transgressão formal. Lawrence não. Lawrence escreveu romances como os antigos romances. Lawrence pega a gente nas sutilezas, a gente às vezes nem sabe bem onde. Os que transgridem na forma ficam marcados por isso. Um exemplo, o Cortázar ficou marcado em O Jogo da Amarelinha por escrever um livro que poderia ser lido em várias ordens. Eu nem acho que pode ser lido tão livremente assim. Quero dizer, não é a mesma coisa ir pegando os capítulos aleatoriamente. E o livro, por acaso, é bem mais que uma brincadeira formal.
(ou, eu me enganei muito, e o nome da personagem era Lydia, e nem era ela o furacão, mas uma de suas descendentes, Anna talvez, Ursula talvez. A memória, não é este tipo de coisa que vale a pena esquecer).
6.2.04
only a northern song Ontem voltava de carro para casa, quase madrugada, eu com um sono bravo. Já estava chegando e começava relaxar os músculos que logo deitariam. A falta de iluminação na rua e a garoa prejudicavam a visão. Notei uma mancha de um meio metro de altura se mexendo uns cem metros à frente do carro. Freei devagar, dei dois toques na alavanca do farol alto, a mancha continuou se mexendo. Bem próximo, notei que era um grupo de quatro cachorros, uma cadela, provável, trepavam uns nos outros quando eu buzinei. O carro quase parado já, dois para um lado do carro, dois para o outro. Passei. Dois, três segundos depois de passar, olhei no retrovisor procurando a cara de espanto dos bichos. Estavam todos no mesmo lugar onde os encontrei. No meio da rua, uma mancha escura sob a garoa, trepando uns nos outros.
4.2.04
Aos ratos (editado) Não, não, deixa pra lá.
Grafoterapia Escutei hoje no rádio, uma rádio que parece piada, parece filme experimental, uma rádio esotérica, ouvi uma moça falando sobre grafologia. Grafologia, ok, talvez seja possível localizar alguns traços de personalidade no modo como se escreve. Daí a criarem a tal grafoterapia... Confunde-se as coisas, acredita-se em qualquer mágica. Mágica não é assim, não. Mágica é coisa séria, minha senhora. Acabado o programa/propaganda do mestre grafólogo/grafoterapeuta, começaram a falar de uma tal jarra azul que teria efeitos magnéticos sobre o líquido que ... perdi o final, perdi. O mundo é uma causa perdida.
Dogville Descobri hoje por que é que tanta gente vem para aqui nesta página digitando Dog Ville no google. É porque o nome do filme é Dogville e não Dog Ville e não há muitos desinformados que escreveram o nome como eu escrevi. Alguns há, inclusive os que procuram pelo nome errado.
Alberto Caeiro
O mistério das coisas, onde está ele?
Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
Que sabe o rio e que sabe a árvore
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?
Sempre que olho para as coisas e penso no que os homens pensam delas,
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.
Porque o único sentido oculto das coisas
É elas não terem sentido oculto nenhum,
É mais estranho do que todas as estranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as coisas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada que compreender.
Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos:
As coisas não têm significação: têm existência.
As coisas são o único sentido oculto das coisas.
God Graças a meu inglês meia-boca, a estar distraído, ao barulho dos carros, escutei no rádio um verso que não existe (agora existe). Um verso de verdade. Se bem me lembro:
God only knows what I knew without you. . E já estou reformulando...
God only knows what I knew before finding you.
Hipóteses 1 - Deus não existe.
2 - Deus existe e é um canália.
3 - Deus existe, mas às vezes dorme: seus pesadelos são nossa existência.
4 - Deus existe, mas tem ataques de loucura: esses ataques são nossa existência.
5 - Deus não é onipresente, não pode estar em todas as partes. Às vezes está ausente: em outros mundos? Em outras coisas?
6 - Deus é um pobre-diabo, com um problema complicado demais para suas forças. Luta com a matéria assim como um artista luta com sua obra. De vez em quando, a certa altura consegue ser Goya, mas em geral é um desastre.
7 - Deus foi derrotado antes da história pelo Príncipe das Trevas. E derrotado, transformado num suposto diabo, é duplamente desprestigiado, já que lhe atribuem este universo calamitoso. (também do Sobre heróis e tumbas)
Lembrei de Ana Lembrei-me de uma festa. Estávanos eu e o André, conhecido escritor, conhecido meu, escritor segundo ele, bebendo nossa cerveja. Sexta de noite. Coversávamos sobre uma certa moça a quem os dois tinham iluminado no tumulto. Coincidência. Lembro-me do vestido azul curto, do cabelo longo, muitos anos atrás, do sorriso ao dizer que já voltava e do modo como se esquivou de tudo e todos. Nós já a conhecíamos desses labirintos que surgem como se fossem caminhos. André dizia que a moça era doce demais, que não era moça para nós, dois rapazes ácidos. Eu entendia o André olhando o rosto dela, mas ele falava sobre o jeito brejeiro, do comportado nas atitudes e nos planos. Não do rosto. Concordei. Ana encantadora. Não sei o quanto não entendia e o quanto fingia não entender. Mas penso hoje, André, e aceito a idéia de estar errado, que Ana não era necessariamente doce, não. Só porque ela tinha o discurso correto, o respeito a sua crença, porque não gostava de tratar mal as pessoas, porque não entrava em discussão alguma a não ser que fosse com os argumentos mais comprovadamente médios, mais óbvios, docemente óbvios. Discurso, André, doce sou eu, doce talvez seja você, que conheço tão pouco, e que discute para unir (ou separar, que seja, não necessariamente para manter), que acredita, se em alguma coisa, na gente mesmo, em homem, em mulher e na terra. Doce é a terra, o céu é meio sem gosto, acho. (acabei lembrando de uma outra Ana, chamava-se Ana Terra a moça, nome de personagem, sorri quando ela me disse o nome, e no sorriso ela soube que não precisava me explicar quem era Ana Terra. Conto depois.)
3.2.04
TOP 5
Estou só. Quem não está?
Estou confuso. Caso contrário, estaria enganado.
Falta dinheiro. Brasil. (quer trabalhar das 8 às 8?)
Borges e Cortázar. Esqueceram do Sabato.
Abraço apertado.
2.2.04
mais um trecho
- Creio que a verdade é boa para a matemática, a química, a filosofia. Não para a vida. Na vida são mais importantes a ilusão, a imaginação, o desejo, a esperança. Além do mais, será que sabemos o que é verdade? Se eu lhe digo que aquele pedaço de janela é azul, digo uma verdade. Mas uma verdade parcial, e portanto uma espécie de mentira. Pois esse pedaço de janela não está sozinho, está numa casa, numa cidade, numa paisagem. Está cercado do cinza deste muro de cimento, do azul-claro deste céu, daquelas nuvens alongadas, de infinitas coisas mais. E se não digo tudo, absolutamente tudo, estou mentindo. Mas dizer tudo é impossível, mesmo no caso da janela, de um simples pedaço de realidade física, da simples realidade física. A realidade é infinita e, além disso, infinitamente matizada, e se esqueço um só matiz já estou mentindo. Agora, imagine o que é a realidade dos seres humanos, com suas complicações e seus subterfúgios, contradições e, mais ainda, suas constantes mudanças. Porque mudam a cada instante que passa, e o que éramos ainda há pouco não somos mais. Será que somos sempre a mesma pessoa? Será que temos sempre os mesmos sentimentos? Pode-se gostar de alguém e de repente perder a estima por ele e até detestá-lo. E se quando perdemos a estima cometemos o erro de lhe dizer, isso é uma verdade, mas uma verdade momentânea, que não será mais verdade dali a uma hora ou no dia seguinte, ou em outras circunstâncias. E, aliás, o ser a quem dizemos isso acreditará que essa é a verdade, a verdade para sempre e desde sempre. E mergulhará no desespero. (também do Sobre heróis e tumbas)
Sobre heróis e tumbas "E mais um dia terminou em Buenos Aires: algo irrecuperável para sempre, algo que inexoravelmente o aproximava mais um passo da própria morte. E tão depressa, afinal, tão depressa! Antigamente os anos corriam mais lentos e tudo parecia possível, num tempo que se estendia diante dele como um caminho aberto ao horizonte. Mas agora os anos passavam com crescente rapidez, rumo ao ocaso, e a todo instante ele se flagrava dizendo: "faz vinte anos, quando o vi pela última vez", ou outra frase tão trivial mas tão trágica quanto essa; e depois pensando, como diante de um abismo, quão pouco, quão miseravelmente pouco, resta nessa marcha rumo ao nada. E, então, para quê?
E, quando se chegava a esse ponto e já parecia que nada tinha sentido, tropeçava-se por acaso num desses cachorrinhos vira-latas, faminto e louco por carinho, com seu pequeno destino (tão pequeno quanto seu corpo e seu pequeno coração que valentemente resistirá até o fim, defendendo, como de dentro de uma fortaleza diminuta, aquela vida pequenininha e humilde), e então, apanhando-o, levando-o para uma cesta improvisada onde pelo menos não sentisse frio, dando-lhe comida, justificando assim o sentido de existência do pobre bicho, algo mais enigmático embora mais poderoso que a filosofia parecia dar novo sentido à sua própria existência. Como dois desamparados em plena solidão, que se deitam juntos para se aquecerem mutuamente." (Sobre heróis e tumbas, Ernesto Sabato)
1.2.04
with a little help from my friends Coloquei mais uns links ali do lado. E escrevi em cima "eu leio". É mentira. Eu não leio nada na internet. Quase nada.
O mundo No mundo onde eu vivo, há filas em banheiro, fica-se de pé com a mão na braguilha, esperando que o rapaz a sua frente acabe de despejar sua urina no mictório. A seu lado, mais alguns homens fazem fila, ombro a ombro, para os demais mictórios. Há pressa, há falta de espaço, tem que haver tempo para o trabalho, e espaço para o progresso. Há uns anos, as pessoas podiam relaxar, por exemplo, levando seus cachorros para passear. Agora, com pouco tempo para isso, e por ter que relaxar, produzir seus neurotransmissores mais caros, todos de uma vez, podem pular de pára-quedas, bung-jump, podem fazer rapel na ponte da Avenida Sumaré, curtindo a natureza, mas só uma vez por mês, rapidinho. Depois, trabalho. E para aumentar a eficiência da sociedade, gastando menos homens para uma tarefa simples, uma pessoa só, em vez de seis, leva seis cachorros para passear. Cinco homens mais, então, podem dedicar-se à sua especialização, seja ela qual for. E o passeador de cachorros é um profissional, diferente do dono do cachorro, um amador, um ignorante a respeito dos animais que nem deveria ter o direito de ter um cachorro. Tenho certeza que essa falha na sociedade será corrigida em breve.
Ainda sobre o papelzinho que eu perdi Ter memória deve ser a pior coisa do mundo. É ótimo poder esquecer dos telefones que não devem ser discados, dos rostos a serem ignorados, das derrotas que evidenciam nossa falência, das cenas sujas que estragam nossa integridade emocional. Para lembrar, deveria bastar ter um papel à mão e escrever o necessário. Uma pena é perder o papel quando não deveria ser perdido, perdi minhas idéias. Eu andava num mundo difícil de construir, só se lembra dele se se toma nota de alguma coisa na hora, com cuidado para não destruir demais o mundo enquanto se escreve, para não sair demais desse mundo onírico. Voltei mas não lembrei mais das coisas depois que o papelzinho voou, como tentar sonhar de novo um sonho.