e X a t o a c i d e n t e
Tony Monti lê, escreve e apaga
2007

Capa de o menino da rosa Capa de O Mentiroso








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31.1.04


Má notícia
Estou doente, minha médica disse que para sempre vou aparentar ter menos idade do que tenho. Que ter quarenta e cinco e aparentar vinte e cinco é bem raro. Que os casos descritos na literatura médica dizem que pessoas como eu tendem a viver cento e vinte anos e morrer com cara de sessenta. Que, mais do que aparentar ter menos idade, todas minhas funções vitais serão equivalentes à da idade aparentada. Uma doença terrível, meus queridos. Terrível. Não recomendo para ninguém, é quase como carregar todo o peso da humanidade, conviver com algo que te lembra diariamente que está envelhecendo, por não aparentar. Envelhecer diariamente a olhos vistos é a coisa mais ignorável do mundo. Sabem o que vem depois de envelhecer? Pois é, eu me lembro diariamente. Estou doente. Minha última tentativa é simular uma calvície, esbranquecer a barba e ganhar uns quilos. Eu preciso envelhecer. Não agüento mais ser olhado pelas garotinhas como um igual, queria que elas entendessem que eu preciso de gente mais experiente, que a pele lisa, sem marcas me dá nojo, que perguntas demais me dão nojo, entende? Quero alguém que tenha respostas, que não sorria para as bobagens que eu digo. Quero alguém já meio triste, marcado por decepções, que desconfie de mim. Quero uma relação adulta. Preciso ter um corpo flácido. Preciso de uma mulher flácida a quem eu possa odiar. A decadêcia tem que ser visível. Não agüento mais toda essa vivacidade, toda essa saúde, não agüento mais. As coisas vão piorando, nos últimos dias tenho tido vontade de correr, gastar energia, tenho tido impulsos de comer comida saudável. O álcool nunca me fez mal, meu metabolismo dá conta de qualquer droga. Quero conselhos, quero ajuda, por favor, dos amigos, dos pais de amigos. Eu quero ter câncer. Aids é coisa de gente nova. Quero morrer de falta de ar aos cinqüenta anos. Com cara de oitenta.


Marina
Azar passado, conheci a Marina. Aliás, encontrei a Marina. Aliás, a Marina me encontrou. A Marina, que não é a Mariana, me conhecia. Eu é que não a conhecia. Eu não a reconhecia; conhecer, eu conhecia, a Marina Castro Alves. A Marina era criança pequena quando eu era criança grande, na mesma rua. Ela disse que eu tenho a mesma cara. Ela não, ela era magrinha e pequenininha. A Marina, agora, é gente grande. Parece ter personalidade. Um encanto. Dança como se deve dançar. E tem um namorado. E é linda, Marina. E não vai ler isso porque só nos encontraremos de novo, dizem as estatísticas, daqui a uns dez anos.


Sexta-feira
Hoje é sábado. Ontem andei muito, adoro andar, sozinho mesmo, acompanhado é melhor, mas sozinho não é mal se não é sempre sozinho. Andei. Parei de beber. E, principalmente, de contar quando eu bebi. Andando ali pelo centro, tive umas idéias. Anotei em um guardanapo que roubei numa lanchonete. Ótima a sensação de roubar uma coisinha inútil, diria um amigo. Conheço um cara que, na comida por quilo, sempre pega uns bolinhos de queijo para comer antes de pesar. E se sente ótimo. Vale a pena olhar para a cara feliz dele na fila para a balança enquanto mastiga um bolinho. Então, tive umas idéias, duas que eu me lembre, e anotei em um papel. O fato é que a noite estava muito cheia de idéias e tive mais uma, num lugar onde não havia uma lanchonete muito perto. Tive que aproveitar um cantinho do papel já escrito. Apoiei o guardanapo no muro e comecei a escrever. Mas, na vertical, a caneta falhou, tive que procurar um apoio horizintal. Encontrei um murinho que ficava centímetros acima da altura dos meus olhos. Fiquei na ponta dos pés e escrevi minha terceira idéia da noite. Mas, quando ia acabando de escrever, bateu um vento e o papel voou para o outro lado do muro, caindo numa poça d'água. Perdi três idéias de uma vez. Normalmente perco várias por não anotar. E não mais lembrei das duas primeiras. Na poça d'água. Muro fechadinho, sem chances de passar para o outro lado. Perdi.


27.1.04


o melhor correio do mundo
Lembrei de uma história absurda que fiquei sabendo lá em Florianópolis. A história me foi contada em francês e, portanto, posso ter distorcido um detalhe ou outro durante a recepção. Lá no albergue tinha um turco, cujo nome não me lembro. Chamarei o rapaz de Sandro apenas por referência. Ele andava de um lado para outro com a espanhola mais charmosa de Barcelona, a Sandra. Daí o nome. Eu até que gostaria de ter histórias com a Sandra para contar, mas quem me contou essa foi o turquinho, o agora chamado Sandro. Para introduzir sua história, ele disse que, certa vez, há uns oito anos, viajava pela primeira vez pela Europa. Depois de algumas semanas, com saudade de casa, e sem dinheiro nenhum, telefonou a cobrar para casa, mas sua mãe desligou o telefone em cem por cento de suas tentativas, logo que a musiquinha da chamada a cobrar turca começava a tocar. Introdução feita, ele foi ao fato histórico. Nessa época, a telefonia turca começava a se modernizar. Uma das novidades era a implantação da chamada a cobrar. Disse que a novidade foi, no princípio, um sucesso, mas, após os primeiros dias com o sistema funcionando, ninguém mais atendia o telefone logo que a musiquinha começava a tocar. A companhia telefônica resolveu então abolir a musiquinha para fazer o sistema funcionar. Logo que assimilaram a novidade, ninguém mais fazia chamadas convencionais, apenas a cobrar. Mais alguns dias passados, ninguém mais atendia o telefone já que sequer havia uma musiquinha antes da cobrança. Foi então que a companhia telefônica decidiu que todas as chamadas seriam automaticamente a cobrar, apenas oficializando o que já era usual. Mais alguns dias o sistema funcionou, mas logo ninguém mais fazia ligações. Foi um fracasso. O problema é que, depois dessas semanas de caos telefônico, mesmo com algumas mudanças para que o sistema voltasse a ser como antes, ninguém mais atendia ligação. Logo, como não seria atendido, ninguém mais telefonava para ninguém. Segundo o Sandro, o turquinho amigo da Sandra, foi assim que os correios turcos se desenvolveram e se tornaram referência para todos os correios do mundo.


Isso não é Lobo Antunes - isso é Clarice Lispector
Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa não-palavra - a entrelinha - morde a isca, alguma coisa se escreveu. Uma vez que se pescou a entrelinha, poder-se-ia com alívio jogar a palavra fora. Mas aí cessa a analogia: a não-palavra, ao morder a isca, incorporou-a. O que salva então é escrever distraidamente.


26.1.04


Estou sem internet desde domingo. Então, tudo de uma vez

Domingo
Coisa estranha, 66.7, 100, quanta coisa acontece nesse mundo!, e a gente faz umas mesmas coisas, joguei mal o campeonato, empatei com um mestre, que seja, a gente erra muitas vezes, coisa estranha, um sorriso, uma negociação apressada, coisa estranha, e poderia ser diferente, as coisas podem ser diferentes, mas seria diferente para ser igual, não erro só de um jeito, erro porque sou bicho também, mas conta como erro errar por não ter como acertar?, na verdade nem há critério de valor, a não ser pelo fato de a gente não achar que é bicho, certas coisas dão tanta adrenalina, esqueci de jantar, lembrei depois, coisa estranha é ter sentimento de culpa, não dá para achar que tudo é por culpa, que as dores do mundo e coisa e tal, coisa de domingo.

Segunda
Quando me perguntam qual é meu diretor favorito, diferente do que acontece com os escritores, eu não sei responder. Com os escritores também não consigo dizer só um sem dar uma explicação, mas acabo dizendo. Aliás minha lista de argentinos deve incluir Ernesto Sabato na próxima vez. Hoje assiti ao Dog Ville. Pelos próximos dias, responderei Lars von Trier. É a história que eu estou querendo contar. Supreendente é que ele escolheu uma cidadezinha com quinze pessoas chamada Dog Ville. Eu escolhi uma praia com, acreditem, quinze pessoas!, dentro de uma série de histórias que não se relaciona com dogs mas com monkeys, a trilogia dos macacos é o possível nome. E para falar das mesmas coisas. Lars von Trier filmou minha história antes de eu acabar de escrevê-la. Minha história tem um porco, a dele não. A dele tem Nicole Kidman, a minha tem Ana. Nicole Kidman poderia fazer o papel de Ana no cinema, qualquer uma das minhas Anas.Gostei bastante das Invasões Bárbaras mas acho que Dog Ville é mais completo. Lembro-me do choque que tive ao ver Dançando no Escuro. Curioso é que eu estava pensando em coisas como Dançando no Escuro na época em que assiti ao filme, e agora que vejo Dog Ville... E diferente dos meus preferidos na literatura, Lars von Trier vive no século XXI. Assisto aos seus filmes no cinema. Não o leio em trigésimas edições. Tem uma amigo que brinca comigo porque eu dificilmente digo que os filmes são bons, sempre acho um defeitinho, digo que são bonzinhos, que são razoáveis, ou que são ruins mesmo. Esse meu amigo me pergunta de sacanagem se eu gosto mesmo de cinema. Já tem dois filmes muito bons nessas últimas semanas: as invasões bárbaras e o meu preferido dog ville.

cinema de novo
E, na verdade, eu não saio do sério quando alguém entra atrasado no cinema e fica passando na minha frente, isso altera pouco meu humor. Altera, isso sim, minhas possibilidades de me concentrar no filme, coisa que eu gostaria de fazer. Cinema eu gosto de curitr com um ritualzinho, bem diferente do que as pessoas fazem nas igrejas, em geral barulhentas demais. É, há bons rituais barulhentos também, lembrei agora.


25.1.04


Eu quero

Deu em bohemias:
"Metrô-Biblioteca

O metrô da Cidade do México lançou na sexta-feira uma operação de empréstimo de livros, o que transforma as estações em bibliotecas subterrâneas com o objetivo de reduzir a criminalidade e instituir uma atmosfera amistosa para seus milhões de passageiros.

A prefeitura quer distribuir 7 milhões de exemplares nos próximos dois anos. Ela espera que as pessoas devolvam os livros, embora não faça da devolução uma exigência absoluta. A Cidade do México não é a primeira a instituir programa de estímulo à leitura em ambientes subterrâneos. Tóquio tem dezenas de pequenas bibliotecas em suas estações de metrô. Os japoneses acreditam que o empréstimo de livros acentue entre os passageiros o espírito comunitário.

Embora o índice de alfabetização seja superior a 90%, pouca gente lê, em parte porque a pobreza impede a compra de livros. É por isso que o projeto do metrô tem como objetivo criar 500 mil novos leitores. Os livros não são comprados com dinheiro público. O dinheiro vem de uma empresa privada que tem a concessão dos espaços de propaganda nos trens e estações.

Fonte: Folha de S.Paulo"


24.1.04


Recebi esse texto de um amigo meu que quer se manter anônimo. O problema é que não sei exatamente onde o texto começa, talvez já tenha começado logo ali há umas dez palavras, e onde termina minha introdução. meu amigo é uma espécie de eu-mesmo. Lembro de ter visto uma peça, há uns bons anos, que se chamava Solidão, a comédia, comédia é o nome mais cruel que se pode dar à solidão. Solidão é trágico. Hoje vi a Mariana, sabe?, a Mariana não sabe, ela nem sabe que eu existo. Pessoas como a Mariana não devem sofrer de solidão, não como as que eu tenho, a Mariana, que não sabe quem sou eu, conheceu uns dez rapazes hoje, e dispensou espartana a todos. Ela sorriu e os rapazes fizeram fila. Pensando agora, entendo o porquê de ela estar de chapéu - deve ser tentativa de se esconder dos outros, Mariana sofre de companhia. É possível que o melhor modo de eu conquistar a Mariana seja nunca falar com ela. É desse tipo de gente que ela gosta. Nunca, jamais. Ela gosta de passar por mim e não ser notada. Eu finjo que não a noto, que o cheiro do cabelo dela não me manda para o espaço. Hoje, quando ela passou do meu lado pela décima vez sem olhar para o lado nem um instantinho, eu fingi que queria falar com ela, e era verdade também, mas era fingimento porque eu já tinha planejado ir embora. Ela deve ter se apaixonado quando eu fui embora desprezando a mulher mais linda que eu já vi hoje, simulei isso no meu limite e realmente fui. E não voltei. Talvez nunca mais a encontre e este é o único jeito de ela pensar em mim como um possível amante. Se nos reencontrarmos, modo de dizer pois ela nunca me encontrou, talvez ela enjoe da minha presença. Mariana quer o ausente. Serei ausente, então.


23.1.04


Amigos imaginários
"Quando criança, eu me concentrava facilmente nas minhas brincadeiras solitárias, brincava no tapete empurrando uma bolinha mínima com o dedo até um gol. E comemorava meus gols mais bonitos em quase silêncio. Fazia corridas enormes entre meus carrinhos nos tacos de madeira do chão da casa. Jogava um dado para saber quanto os carrinhos andariam. Jogava futebol sozinho no quintal fazendo a porta do corredor de traves, ou basquete fazendo de cesta dois canos perdidos atrás da janela da cozinha. Também tinha os amigos, mas me refiro especificamente às possibilidades de estar só. Penetrava cegamente no jogo e ia brincando, aprendendo apra quando estivesse com os outros. Não havia distância alguma entre mim e os outros. Quando minha amiga da casa da frente deitava nas minhas costas, eu sabia que ela estava ali porque queria deitar nas minhas costas. Quando nos escondíamos em grupos, sabia que estar escondido com eles era o que eu queria e era o que eles queriam. Eu sequer tinha amigos imaginários. Às vezes simulava comigo alguma conversa, mas era com os amigos de carne e osso que conversava em simulação. Meu vizinho gritava meu nome todas as tardes na porta de casa. Só não gritava quando quem gritava era eu. Ou simplesmente esperávamos um ao outro no murinho que dividia as casas. Um pouco mais ansioso e mais distante, faço atualmente esforços bastante maiores para estar próximo. Apenas olhar a garota por quem me apaixono, hoje, não me completa como antes acontecia." (de um "conto" inédito ainda sem nome)


21.1.04


Foi
Acabou. Acabou. Cheguei em casa mais cedo e liguei o som. Beatles de novo. Começa com uma baladinha meio country americano que é uma beleza, e segue. A felicidade vem, às vezes, de a gente parar de sofrer? Acabou. Felcidade fácil. O dia foi mais fácil hoje, apenas pela perspectiva do fim. A velha receita da vovó: para tristeza sem motivo, arrume um motivo. Quando o motivo não existir mais, a tristeza acaba. É? Eu não tava triste, não. Tava cansado, um pouco oprimido. Sem alma, eu disse outro dia. As coisas vão bem. Para comemorar, vou fazer a barba. Mas antes de comemorar, durmo uns dois dias seguidos. No intervalo, vejo o futebol de noite.

"E saindo do meio do redemoinho, Ana descobriria estar viva e isso seria bom, julgar-se vivo é bom mesmo para os mortos; e ainda que não houvesse, simularia uma dor forte. E a dose necessária de morfina aliviaria a dor até então desconhecida, porque viver dói, mas a dor, se sempre, é só ruído - há prazer em apenas não mais sentir a dor antes ignorada -, " (do conto inédito Ana)


18.1.04


O fim do fim-de-semana

A última mensagem do fim-de-semana. Eu gosto de pôr hífens em fim-de-semana. Manias. Ontem comprei No Caminho de Swann nesta edição de banca de jornal. Tenho a impressão de que tem algo lá dentro, algo que eu tenho que saber. Tenho a impressão também de que ninguém lê Proust por essas bandas. Ele não é pop como Dostoievski. É questão de uma grande editora fazer uma edição bonitona, e alguma propaganda. Podia virar o Harry Potter. Quando ninguém esperasse, mais um episódio de La Recherche saíria editada. Crime e Castigo, eu me lembro, chegou, em determinada semana, a ser o livro mais vendido da Livraria Cultura. Propaganda. No caso do Crime e Castigo, foi a primeira tradução direta do russo, e uma coisa leva a outra. Vendeu bastante bem. Tanta coisa para ler. E para escrever também.
E com o livrinho na mão fui assistir ao Declínio do Império Americano, que é bom e, acho, tem o título bastante apropriado. Perde na comparação com sua seqüência, As Invasões Bárbaras. Ainda assim, gostei. Um pouco menos pelas risadas da senhora ao meu lado que não deixava que eu mesmo escolhesse as partes engraçadas, ela escolhia para mim, e ria. Curioso é que ela ria às vezes antes de a piada ser dita. Imaginei que ela entendesse bem francês e pegasse a piada no original enquanto eu, quando concordava que a sequência escolhida por ela era engraçada, pegava a piada apenas depois de ler a legenda. Me concentrei no meu francês fraquinho e notei que a risada dela era bem mais aleatória do que eu imaginava. Ria antes da questão engraçada, depois, durante, ou mesmo sem questão engraçada alguma. Ótimo. Sem contar que chegou atrasada cinco minutos e ficou procurando um lugar para sentar enquanto eu tentava me concentrar nas legendas, fazendo barulho e passando na minha frente, naquele intervalo em que a gente ainda está se acostumando ao cinema e está acelerando o ritmo de leitura, até chegar à velocidade cruzeiro.


17.1.04


Jukebox



Ok, isso é um blog. Sendo assim, neste post, falo do meu dia-a-dia, mas ainda não sei o que vou escrever. O trabalho tira a sensibilidade das pessoas. As pessoas, nesses últimos dias, sou eu. Tenho trabalhado. O trabalho deixa a gente sem muito ânimo de ser gente. Tira a alma. Não o trabalho espontâneo com o qual a gente constrói no nosso ritmo nossas coisas. Trabalho servil, a que me refiro, a gente faz para trocar por dinheiro. A gente soma os reais no fim do dia. Insert the coin and I play the song. A gente fica satisfeito com o ticket-refeição. Não completamente servil o meu trabalho. Construo uma outra coisa pra mim. Mas muito servil.
Sinto-me tão desanimado que nem quero um abraço. Se vier, aceito. Eu gosto muito de abraços. Talvez a noite tenha colaborado. Foi aquele tipo de noite média. Banda média, músicas médias. Cover do sucesso de sempre. Imitação de imitação de algo com alma. Coisas de cidade média, grande como São Paulo. O mundo tem ficado médio, tenho um medo danado disso. Aquela velha história, do século passado, as distâncias vão diminuindo e conhecer a Malásia fica cada vez mais próximo. E os malaios cada vez mais americanos. Tudo médio. Ok, este texto ficou médio também, medíocre. Como meus pensamentos nesses últimos dias. Não poderia esperar mais. (poderia, deveria esperar mais!, mas gente média espera pouco e se satisfaz em não estar muito mal).


16.1.04


Ainda Orangotangos

Escrever texto curto é tão difícil. Não dá tempo de o leitor se concentrar e já está tomando uma porrada, ou deveria. O objetivo é esse para o escritor do continho. Tenho lido uns contos curtinhos e interessantes. Emprestei de uma amiga o ainda orangotangos, do Paulo Scott, e gostei. Não escutei o CD que vem junto com o livro mas acho interessante a idéia de ler com trilha sonora indicada pelo autor. Pensei uma vez em colocar um Modo de usar antes de cada conto meu, explicando a trilha sonora ideal, a hora do dia para ler o texto, o humor necessário para o efeito previsto. A bula ficaria talvez tão detalhada que ela mesma se tornaria o conto. É, talvez ainda faça isso um dia. Acabei entregando o jogo em púiblico. Espero que não se apropriem da idéia, ou que o façam bem.


14.1.04


Maxwell's Silver Hammer
Vale dizer, ainda há algum prazer por aí.


A gente só gosta da gente mesmo
As coisas do que a gente gosta são as que despertam alguma memória emocional boa. Pode ser simplesmente um acesso direto às nossas zonas físicas de prazer, relacionadas a nossa memória genética, aquela da espécie humana, ou pode ser um acesso indireto, o mais provável, a alguma coisa que se associa a alguma coisa, que se associa ... num mecanismo que nos estimula a ter prazer. Será que é melhor, para ter mais prazer, acumular mais experiências para que tenhamos mais mecanismos, mais memórias, que levem a essas zonas de prazer? Ou é melhor termos menos experiências para o caminho do impulso pelas nossas memórias não seja longo demais (ou para que os impulsos não se percam antes de chegar a um fim qualquer)? Hoje uma pessoa próxima a mim ficou tão feliz de escutar "Eu sou boy" do Magazine, ela não escutava essa música havia anos (Kid Vinil e companhia) ... Ela nem sabia o que era Magazine, nem Kid Vinil, talvez nem vinil... Eu tinha tanta informação sobre o assunto. E nenhum prazer. Talvez algum prazer depois de pensar toda essa bobagem que reproduzo agora. Por outro lado, o prazer pareceu tão besta, o dela, como é que eu posso saber do prazer dos outros?, não sei, imagino. Imagino que possa haver prazeres mais complexos. Ter mais memórias (associadas a mais experiências, mais emoções e mais zonas físicas de prazer) pode levar a prazeres mais complexos associados a mais zonas de prazer. Não sei. Provavelmente só mais umas frases de alguém sozinho.


11.1.04


Pizza

Sérgio Buaque de Holanda, Gilberto Freyre, Raymundo Faoro, Antonio Candido. Tanta gente tentando explicar o jeitinho brasileiro. O jeitinho brasileiro é realmente brasileiro? Me mandaram o endereço de um site que dá umas dicas sobre a questão.


raízes



Uma parte da minha memória não me é útil. Estou vendendo umas imagens que me atormentam. Como brinde, enviarei umas cópias-pirata de cenas legais.


10.1.04


Something
Sem me ater ao fato de que a razão também se submete e dialoga com tantas outras instâncias que dizer que ela está sob controle torna-se exagerado.


Across the universe
Beatles continua me levando a uns caminhos interessantes. Música tem um efeito que a literatura não dá. Literatura é uma coisa lenta, vai te moldando devagar, vai adicionando ou retirando grãozinhos de sensibilidade para você usar todos de uma vez quando escuta música, dança, pratica esporte, se relaciona com os outros. Será que é isso mesmo? Na literatura há a mediação da palavra. Ser arrebatado ao mesmo tempo que decodifica sinais é mais complicado. Alguém aí quer dizer que eu estou sendo superficial? Ser arrebatado por um livro depende das possibilidades de cada um de desencadear uma avalanche com um grãozinho de areia. Há quem sempre esteja pronto, há quem às vezes esteja pronto. Há os outros também. E nunca é o mesmo que mergulhar dos pés a cabeça em uma piscina de música colorida.
É, a razão tem acesso bem restrito ao que me interessa. Ainda assim, razão é o que se tem - o resto simplesmente aparece, não está sob controle.


8.1.04


Iron Maiden
Li recentemente a interessante Trilogia de Nova Iorque, do Paul Auster. gostei. Conheci em Florianóplis um americano, de Nova Iorque, que gosta de ler. O Michael disse que não conhece Paul Auster. Mais uma americana, também não conhece. Um brasileiro radicado nos Estados Unidos há uns vinte anos, nada. Paul Auster é um brasileiro que se finge de americano para vender bem no Brasil?


5.1.04


Novidade 4
jorge quase e bitter times (que eu insisto em chamar de bitterness) mudaram de endereço.


Novidade 3
Inventei um novo tipo de blog: o que só é atualizado de mês em mês. Logo agora que todos os freqüentadores deste blog debandaram, eu voltei. Volto, de novo, em um mês. A freqüência das visitas caiu umas dez vezes. Estou meio só. Você tem meu e-mail? Meu telefone? Manda notícias...


Novidade 2
Acabo de adicionar um brinco à minha orelha esquerda. Agora, para me reconhecer, basta encontrar o rapaz com onze brincos na orelha esquerda. Se encontrar alguém com dez, não sou eu.


Novidade 1
Fui para Florianópolis. Jóia. Como poderia ser ruim? Chinelo, bermuda e às vezes camiseta. Sol e praia. Conheci dez pessoas por dia. E eu era igualzinho a elas. Pena ter sido por menos tempo do que eu inicialmente planejei. Não foi suficiente para esquecer umas idéias fixas que eu andava tendo antes do Ano Novo. Ainda assim, foi bom.








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