O Mentiroso foi escolhido como o melhor texto de 2002 pelo júri do Projeto Nascente - USP.
Tony Monti é paulista. Lê e escreve. Contrariando as previsões mais otimistas, terá trinta anos antes do fim da década. Quando você telefonar para sua casa, ele estará dormindo. Em seus sonhos, ainda mora na casa onde passou a infância. Não pretende mudar, por enquanto.
Eu e a Clarice Coisa esquisita demais. Pouco dormi essa noite. Há pouco menos de 24 horas uma sucessão de acontecimentos me levaram a ter um entendimento mais profundo de A Paixão Segundo G. H. E não tenho nada para fazer com isso. Nada! Definitivamente, o que eu entendi não serve para um mestrado. E isso tem a ver com desistir, com o post de ontem. E isso tem relação a eu ser muito pessoal neste post de hoje, a eu ter acordado cedo maluco sem saber o que fazer com o que eu entendi. E, sem saber o que fazer, vou fazendo e vou dizendo para os outros que não sei o que fazer com isso. E, de algum modo, é até bom que eu não consiga dizer o que eu entendi, porque não tem muita gente que conseguiria dividir o que eu soube sem que tivéssemos problemas. E dividiríamos sem que nenhum dos dois ficasse sem a parte que está com o outro. Sim, estou sendo propositalmente clariceano. Alguém aí ainda não leu Clarice Lispector? Que é que eu faço com isso?
29.11.03
Sábado O que de melhor pode acontecer a uma pessoa do que cair em uma armadilha? Caí de novo. Na mesma. Ótimo. É preciso desistir de vez em quando. Caí. Desisti por uns instantes, não dá para caminhar o tempo todo. Caminhar é o que faz com que a gente possa desistir. Desisto por hoje, talvez por amanhã também. Desistir é o prêmio por tentar. Nada de buscas, até que eu canse de não fazer nada, ou até ser acordado no melhor do sono por algo que valha o sacrifício de não dormir por algum tempo.
Sábado Está tudo bem comigo, tudo ótimo. Tem alguma patologia catalogada que se relacione a vontade de distribuir afeto? Tem? Então eu devo estar bem, sim. Sem o auxílio de medicamentos estimulantes, ou quase. A vida não faz nenhum sentido, Não, a não ser, de algum modo, buscar um pouco de prazer. E meu prazer vem invariavelmente de conviver. Se para conviver preciso fetichizar uma coisa ou outra, finjo mesmo para mim e esqueço da falta louca de sentido das coisas. E o mundo ainda vai. O escritor argentino Ernesto Sábato foi perguntado, próximo dos seus oitenta anos, sobre sua recente incursão pela religião, ele que tinha se declarado ateu a vida toda. Nada mais lógico, ele respondeu. Espero ter a desprendimento de me tornar religioso algum dia. Ontem, conversando, tive a impresssão de que serei religioso ainda antes dos cinqüenta. Místico, coisa assim. Décadas ainda, há tempo. (essa última frase, "há tempo", ainda não me convence - não há tempo, não. Se há, há pouco.)
25.11.03
Cinqüenta
O blog eraOdito lançou um concurso de micro contos. No máximo cinqüenta letras. Regulamento lá no eraOdito. Todo mundo pode participar, menos um ou outro. Adal, Moralez, Ana, Nara, Bertelli, Zé Medeiros, Miguel, Flávio, Jorge e demais colaboradores d'O Mentiroso: que tal participar, hein?
24.11.03
Ouvidos
Antes de lançar um livro, antes de ter um blog, antes dessas coisas, eu escutava tão pouca gente, eu escutava dois ou três amigos, a Erica e o despertador de galo do meu irmão. Eu quase não escutava Beatles, jamais escutava críticas, porque ninguém se dava ao trabalho, e também não dava ouvidos aos elogios que nunca vinham, porque ninguém lia o que eu escrevia. E os textos saíram até razoáveis apesar da minha falta de experiência. Mas comecei a escutar pelos cotovelos, ouvir demais. Ouvi até a médica me dizendo que eu estava com estafa e precisava de férias. Ouvi minha mãe rir quando eu contei sobre a recomendação da médica. Não ouvi o que minha mãe pensou.
Preciso de um pouco de silêncio, ir sossegado ao cinema, assistir ao novo do Marinelli, dormir oito horas por dia, não ir a bares lotados, responder apenas aos e-mails dos amigos e leitores educados. Ler meu Cortázar querido, dar uns abraços. Mas não vou escutar ninguém, falarei apenas monossílabos, chamarei o garçom apontando para a garrafa de cerveja já vazia, expressarei carinho com um sorriso e não explicarei nada.
Desde o texto sobre minha amiga Ana, no dia 16, publiquei vários textos longos (se comparados ao que é usual no jeito blogue de ser). Vou dar um tempo para todo mundo ler e comentar tudo, ok?
Caderno de esboços
Tenho me perguntado o que é que devo publicar aqui no blogue. Tenho há um bom tempo procurado o tom a ser usado. Acho que decidi. Até que eu mude de opinião, isso aqui vai ser principalmente o rascunho, o caderno de esboços, onde entra tudo, qualquer coisa. Em geral, serão textos menos redondinhos, menos bem acabados, mal revisados e sem pretensão de virar livro. Ou seja, decidi que qualquer coisa serve. O caos.
O último do Marinelli
O último do Marinelli é ótimo. Estreou na sexta, vou ao cinema no domingo, hoje. Domingo é dia de cinema. É por isso que não tem lugar para estacionar o carro perto da Augusta, Marinelli não passa em shopping. Para a sessão das oito, ingresso na mão às sete, a fila do caixa é pequena, dessa vez Marinelli extrapolou, faço questão de não ler crítica de jornal, mas o que se diz é que é imperdível. Marinelli não deu título ao filme, o último do Marinelli é como o pessoal o tem chamado, parece haver um pacto de não dizer o de que o filme trata, tem-se poucas informações, mesmo quem as procura. Fila grande é a da entrada para a sala, para ver o épico do Marinelli, porque, disso eu sei, o filme dura exatos duzentos e dezesseis minutos, duração de épicos. Por isso é que não passa em shopping, filme de shopping tem cem minutos. Para a sessão das oito, a fila se formou às sete e meia, busca pelos melhores lugares. Marinelli não faz superproduções, Marinelli é cineasta de idéias, meus onze reais estão bem gastos, o espaço Unibanco reservou a melhor sala para Marinelli, ele beira o sucesso Hollywoodiano. Marinelli estreou naquela saleta do anexo que tem uns oitenta lugares, só, faz uns cinco anos, logo depois da Mostra em que foi um sucesso com o filme de estréia. Marinelli é a cara de Roma, da Roma que não freqüenta shoppings, a cara de qualquer cidade grande. A fila vai da sala à rua. Dos últimos postos vê-se bem o paulistano dos Jardins bebendo cerveja no Dedé, no Beagá, aproveitando os últimos momentos do domingo, é verdade que metade desse pessoal não é do tipo que trabalha na segunda cedo. É pessoal que tem grana, e gasta gota a gota em cerveja, festa, ingressos de cinema e livros. Quem já leu o último do Paneau? Pouca gente lê em francês em São Paulo, ler Paneau é como assistir Marinelli em Roma. A fila começa a andar, bom, já não agüentava mais o ambiente abafado do saguão, o barulho dos ônibus na Augusta, as mesmas caras tomando cerveja, os mesmo óculos de aro preto, as mesmas expressões de felicidade de ver o Marinelli, será que não percebem que Marinelli está tirando uma também com a cara deles? Marinelli é gente, Marinelli não agüenta mais essa correria toda, quer dormir até as duas da tarde e tomar água, para variar, Marinelli usa chinelo de dedo. Fico quase triste de ter que pegar fila para assistir a um crítico dessa vidinha de sardinha em lata. Um lugar na terceira fila, espero que sente gente pequena ao meu lado, que os ombros não se encontrem, e que todo mundo fique em silêncio, o que normalmente acontece. Dei sorte, uma moça pequenininha de cada lado, e com os respectivos namorados ao lado, o que faz com que fiquem inclinadas para longe de mim. Os traillers começam, tudo tão ridículo, propaganda do banco, uma atrás da outra, logo antes do Marinelli, ironia brava. Acaba o último trailler e o silêncio se instala, o êxtase dos que fetichisam o que é, na verdade, apenas um filme, circunstancial como qualquer coisa. Minha homenagem é tirar o tênis e a meia, e ir relachando, quinze longos segundos de silêncio e tela preta antes de a primeira reclamação surgir, alguém dizendo para o projecionista colocar a fita no lugar, por que não esperam uns instantes?, o burburinho aumentando. Atingiu um pico com uns dois minutos, Marinelli extrapolou, passou dos limites. Quando não entender o que se passava era já burrice ou má vontade, meia dúzia de perdidos deixaram a sala esbravejando. O burburinho foi diminuindo, os comentários foram ficando mais contidos, houve uma primeira onda de risos, um quase silêncio e uma onda grande de gargalhadas que me comoveu, eu já quase chorava quando o silêncio se instalou definitivamente pelo trigésimo minuto de filme. Segurei as lágrimas enquanto meu corpo não abandonou meu mundo. Mas abandonou. Dessa vez a ironia de Marinelli não me excluiu. Mas era uma ironia doce que aquela tela negra e aquele silêncio me ofereciam. Pouco depois da metade do filme as lágrimas invadiram também meus sorrisos. Resolvi olhar para os lados e entender um pouco com a comoção dos outros. Meus olhos cruzaram com os do casal à minha direita e eles sorriram discretamente. O casal à minha esquerda estava destruído em lágrimas. Vez ou outra, escutei soluços na sala, suspiros, respirações descontroladas. Duas horas e pouco de filme e uma moça deixou a sala apoiada em um rapaz, seu amigo provavelmente, é provável que não tenha agüentado Marinelli. Devia faltar bem pouco para o filme acabar quando o rapaz do casal à minha esquerda, vendo que eu chorava sem parar, ofereceu a companhia das suas e das mãos de sua namorada. Sorri e aceitei. O casal à minha direita notou o gesto e se comoveu. Ofereceu também as mãos. Aceitei ainda que isto tenha me levado a uma posição desconfortável. Tive que retirar as mãos para secar as lágrimas pouco antes do fim. Duzentos e dezesseis minutos de Marinelli, no fim do domingo, agora há pouco. Preciso rever, preciso entender aquele fim em que as mãos se separam sem um adeus quando as luzes se acenderam. Preciso.
texto de bêbado a gente apaga quando o porre passa II Funciona assim. Bebe-se, bebe-se e chega um momento em que se se fechar os olhos o mundo roda. Bastante simples. Jamais isso aconteceu comigo, sei apenas pelas descrições dos amigos. Excelente ser o mentiroso - como dizem alguns amigos, pode-se falar de si mesmo sem assumir os fatos. Saí tão bêbado do local, ainda no local fechei os olhos e tudo rodou, ficaria mais, beberia mais uma água a três reais a garrafinha, lembrei do MacDonalds no caminho, tudo é facilitado, sigo à risca a narrativa que um amigo fez, jamais iria ao MacDonalds às cinco da manhã, não é verdade?, passei no MacDonalds e escohi um número de um a oito, fácil, como escolhi quando estive em Paris, indicava o número um com a mão, aprendi francês agora, sei bem dizer que quero um Big Mac em francês, sentei em uma mesa, dois salões enormes, um em cima e um embaixo, escolhi o de cima, talvez eu fosse o único cara sozinho, às cinco da manhã todo mundo tem amigos, tanta gente bonita pelo MacDonalds e meu mundo rodando por causa de duas ou três cervejas, e uma vodca, e um golinhos de qualquer outra coisa, eu amo muito tudo isso, o MacDonalds, não me chamaram para a propaganda, e eles aceitam quem já passou dos vinte e cinco, tenho vinte e cinco com rosto de vinte e dois, mentira, vinte e cinco, vinte e cinco, ponto, sentei no banco do MacDonalds ainda com tudo rodando, uma delícia o mundo, catchupe e mostarda à vontade no salão, só passa fome quem quer e quem não tem cara de consumidor, que aí os caras tiram da loja à força, mas eu sou branco, olhos claros, sempre com quinze reais no bolso, os caras sabem das coisas, à minha frente uma moça linda centraliza as atenções da mesa que tem mais cinco rapazes, mulher que fala bem, que é bonita, não tem erro, osasquense, fala da escola onde estudou, a mesma onde eu estudei, às cinco e pouco da manhã isso parece tão óbvio, todas as pessoas estudaram lá, e o mundo roda absurdamente, acabei o lanche e o mundo ainda rodava, desci para o salão principal e todo mundo chegando ou saindo mas, só o meu mundo é que rodava, a solução é fácil quando se tem sete reais no bolso, é só escolher mais um número, e eu ainda rodava com o mundo quando o rapaz perguntou qual a bebida, e minha língua se retorceu como no primeiro pedido, escolhi outro número, tem que ser muito imbecil para não perceber que o bêbado está fazendo o pedido pela segunda vez, fiz o pedido no mesmo caixa, imbecil que sou, e retorci a língua de novo, mudei o número, mas escolhi o salão de baixo dessa vez. Tanta gente usando a internet que o MacDonalds oferece, eu não, nem peguei o catchupe e a mostarda, passei rápido pelo catchupe e pela mostarda, nem vi, quando sentei na minha mesa e localizei a fonte dos condimentos já era tarde, preferi comer o lanche a seco, só com minha coca cola light. Meus amigos de vinte e tantos anos, ex-colegas de escola, acham que isso é coisa de adolescente, mas eu sei bem, mesmo sem o dinheiro que eles têm, que repetir o MacDonalds às cinco e tantos da manhã é bastante razoável, e agora às seis e pouco, posso dizer que preparei um texto por dias e que não estou ainda ligeiramente tonto e com a barriga muito cheia depois de um número quatro e um número três, porque eu sou o mentiroso e só minto, jamais falo de mim mesmo, na verdade tenho milhões de amigos, como o Roberto Carlos, às cinco da manhã eu durmo, como todo mundo, e bebo com moderação como nas propagandas de bebida alcoólica, que ajudam na formação de uma população muito sadia. Um número quatro e um número três, na seqüência, são uns dois quilos e meio, calorias para uns dois dias, assunto para uns três posts, observações, enquanto se come, para uns dez livros, às cinco e pouco da manhã as coisas são tão literárias, particularmente quando regadas a duas ou três cervejas, e mais um ou outro destilado. Um amigo que me contou umas coisas, eu nunca bebo nada. Repito as palavras dele à risca, sem omitir ou acrescentar, e depois eu durmo se a cama não rodar, e o céu azul vermelho, amanhecido, me disseram que quando a cama roda a melhor estratégia é colocar a mão no chão e está tudo certo, eu não sei porque não bebo, me dá um abraço quando me encontrar?, me dá um beijo? me diz umas coisas legais? eu não sou muito mentiroso, não, minto só por profissão, para alegrar um pessoal, um beijo para todo mundo, tem alguém aí?, um beijo e um abraço, sem que o mundo rode, um beijo que faça o mundo não rodar pelo tempo que durarem as coisas.
22.11.03
Ponto
abri um sorriso e o mais sério não resistiu e riu comigo enquanto dançávamos ao som do que tocava e todos pularam muito e os corpos adultos ignoraram os corpos apenas vivendo os corpos que os forçavam a sorrir de braços abertos como os meus a luz estroboscópica soava como como as pequenas explosões enormes que eu tentaria esconder se alguém ameçasse esconder algo de mim mas ninguém escondeu o que eu nem procurava o som espocava e quando me peguei chorando e rindo com o beijo dos desconhecidos e os braços dos desconhecidos e os corpos dos desconhecidos fiz uma mágica e esqueci que minhas lágrimas poderiam ser vistas enquanto outros corpos que de tão perto já eram também meus não viam minhas lágrimas mas lágrimas que se uniram em um rio único que desaguava em sua nascente o tempo que durou foi tão pouco tão pouco que o infinito caberia nele se eu não quisesse encaixá-lo à força e como eu não quis tive tudo quando abri um sorriso e o mais sério não resistiu e riu comigo enquanto dançávamos ao som do que tocava e todos pularam muito e os corpos adultos ignoraram os corpos apenas vivendo os corpos que os forçavam a sorrir de braços abertos como os meus a luz estroboscópica soava como como as pequenas explosões enormes que eu tentaria esconder se alguém ameçasse esconder algo de mim mas ninguém escondeu o que eu nem procurava o som espocava e quando me peguei chorando e rindo com o beijo dos desconhecidos e os braços dos desconhecidos e os corpos dos desconhecidos fiz uma mágica e esqueci que minhas lágrimas poderiam ser vistas enquanto outros corpos que de tão perto já eram também meus não viam minhas lágrimas mas lágrimas que se uniram em um rio único que desaguava em sua nascente o tempo que durou foi tão pouco tão pouco que o infinito caberia nele se eu não quisesse encaixá-lo à força e como eu não quis tive tudo quando abri um sorriso e o mais sério não resistiu e riu comigo enquanto dançávamos ao som do que tocava e todos pularam muito e os corpos adultos ignoraram os corpos apenas vivendo os corpos que os forçavam a sorrir de braços abertos como os meus a luz estroboscópica soava como como as pequenas explosões enormes que eu tentaria esconder se alguém ameçasse esconder algo de mim mas ninguém escondeu o que eu nem procurava o som espocava e quando me peguei chorando e rindo com o beijo dos desconhecidos e os braços dos desconhecidos e os corpos dos desconhecidos fiz uma mágica e esqueci que minhas lágrimas
A Paixão Coloquei um link, ali na esquerda, para um texto que estou escrevendo sobre A Paixão Segundo G.H. para o meu mestardo. O que coloquei na net é uma parte de um texto bem maior, onde tudo estará bem mais explicado. Sugestões são bem vindas.
20.11.03
O Mentiroso por aí
Começou na quarta e vai até sexta a feira de livros da USP. Cem editoras dando 50% de desconto no prédio da História. Dei uma passada por lá na quarta. Lotado. O Mentiroso exposto e a R$ 7,50 no estande da Livraria Duas Cidades. Será que há melhor oportunidade para comprar um bom presente de Natal para os familiares? A R$ 7,50, fico tentado a comprar uma meia dúzia de mentirosos.
A distribuição do livro parece ter melhorado um pouco. Começa a circular em mais livrarias do que apenas as duas ou três que já o vendiam quando o livro ainda não era sucesso nacional. (Se você procurou o livro e não encontrou, pode encomendar - livrarias costumam aceitar encomendas). Agradeço a preferência.
19.11.03
Even
Acabou o match entre Kasparov e Fritz. Dois a dois. Já que escrevi algo sobre o match dias atrás, melhor informar o resultado final. Melhor por quê? Por uma certa lógica que era a minha quando comecei a escrever o post e segundos depois já não é a minha.
Uma vitória para cada lado e dois empates. Não gosto de jogar contra computadores. Gosto de gente porque gente erra quando a gente menos espera. É ótimo ganhar quando se está perdido. Enfrentar máquinas é esquisito. Na infância, eu corria a pé contra a bicicleta de uma amiga devidamente guiada por ela. Eu tinha oito anos, ela nove. E eu conseguia acompanhar o ritmo dela por um bom tempo. Ela me chamava de corredor mundial. Crianças. Diferente dos outros posts, nos quais sempre troco o nome das pessoas envolvidas nos fatos, vou escrever o nome dela inteirinho aqui. Não a vejo há mais de dez anos. Quem sabe ela aparece do nada?! Adriana Aguiar.
Cresci e agora não consigo acompanhar uma mobilete.
Que sentido faz um post desses?
Escrevo, agora, com trilha sonora - The long e winding road.
Eu não devia te dizer mas essa lua mas esse conhaque botam a gente comovido como o diabo.
17.11.03
meninamágica Nada nessa mão. Nada nessa mão. Quando eu falar "já!" não haverá uma pomba voando da minha cartola. Não puxarei um ás de copas da manga esquerda. Darei um sorriso desconcertado. O motivo da incongruência que meu sorriso denuncia é tão tom de brincadeira... Generosidade. Abro uma exceção para suas expectativas e anuncio um truque. Comovo-me com sua necessidade de palavras e explico o truque que não utilizei, explico sobre a gaiolinha onde a pomba ficaria presa, explico em detalhes as mãos treinadas que enganariam seus olhos. Você se empolga com a lógica implacável da brincadeira e com a falta de lógica do olhar. E do sorriso. Sorri sem me explicar. Meus truques eu também não explicaria. No mundo da alta magia, há determinadas habilidades que o mágico tem que esconder dele mesmo para não se entregar num dia menos feliz.
16.11.03
Ana Minha amiga Ana é do tipo que não se associaria a um clube que a aceitasse como sócia. Em geral, quem age assim parece ser sujeito com conceito baixo de si mesmo. Não sei de todo mundo, conheço só a Ana. A Ana, aos meus olhos, se adora. A Ana se acha boa demais para tudo isso. E é tão boa que nem se revolta contra o mundo besta que não entende o quanto Ana é superior a tudo isso. Ana numa entrevista de emprego tirou lágrimas do entrevistador - Ana explicou com todos detalhes o porquê de não servir ao cargo, os motivos sociais que levaram Ana a não saber inglês nem usar boas roupas. Ana chega a mentir para parecer pior. Ana prefere assim. Ana foi quase pobre mas diz que passou fome por uns meses. Ana come no restaurante universitário, que é mais barato, mas prefere espalhar que vendeu as obras completas do Freud, capa dura, edição francesa, para comprar uns pacotes de miojo. Gosto demais da Ana. Difícil não gostar. Ana faz quem está por perto se sentir muito superior. Mas, aos meus olhos, Ana se sente mais superior e acha que ninguém percebe o quanto ela pode ser genial. E seria se tivesse uma casa, que ela tem mas diz que sua mãe gasta toda a aposentadoria para pagar o aluguel. O clube que a aceitasse, a aceitaria por gostar dela por um motivo bastante menor do que a superioridade absoluta que Ana representa em relação ao mundo. Quem gosta de Ana, gosta dela como gosta dos outros. Ana quer ser gostada de um modo diferente. Jamais esquecerei dos olhos azuis de Ana no corpo muito magro, esculpido à custa de muita refeição mal feita, prática que Ana utiliza para convencer a si mesma de que o mundo não dá nenhum espaço para ela. Recentemente, um amigo nosso se apaixonou por Ana. Escutei a uns poucos metros o discurso de Ana que conseguiu convencer o rapaz de que ela não o merecia, de que ele teria nascido para ser feliz e que ela só o atrasaria na vida. Choramos os três, sozinhos e escondendo as lágrimas uns dos outros. Ana é terrível. Ana sorri às vezes mas tem sempre um rosto sério guardado para quando a felicidade se torna fácil demais.
14.11.03
o homem Garry Kasparov é o melhor jogador de xadrez do mundo há pelo menos uns quinze anos. Além dos feitos enxadrísticos, de enormes seqüências de sucessos em torneios, Kasparov se tornou também, ao longo desses anos, um excelente negociante para exibir seus dotes. Enquanto grande parte dos bons jogadores tem que jogar muitos torneios por ano para conseguir seu dinheirinho, Kasparov participa prioritariamente de eventos enormes e bastante bem pagos.
Nestes últimos dias, mais uma vez, Kasparov é protagonista em um desafio homem x máquina. Enfrenta uma versão do programa Fritz, que qualquer mortal pode ter instalado em seu PC. O desafio sobrevive do mito moderno de que as máquinas tomariam o poder no mundo, já bastante explorado, bem e mal, pela ficção científica. Dessa vez, inventaram mais uma: Kasparov usa óculos especiais e, em vez de jogar em um tabuleiro físico, vê o tabuleiro nas imagens produzidas nos óculos. É como se Kasparov jogasse no campo adversário.
Exceção à regra, já que a superioridade de homem ou máquina é evidente em tantas áreas, no xadrez ainda há certo equilíbrio no confronto. Uma vitória do Fritz e um empate nas duas partidas já jogadas, de um total de quatro. Boa cobertura do evento pode ser encontrada numa rádio na internet que fala exclusivamente sobre xadrez
Curiosas são as informações de que, paralela à evolução dos programas que jogam xadrez e da velocidade de processamento dos computadores, está a crescente capacidade dos enxadristas humanos, que adaptam seus estilos e aprimoram seus recursos técnicos, para enfrentar programas que jogam xadrez. Que bicho curioso, esse, não? Uma série de artigos (parte 2, parte 3, parte 4)interessantes sobre o assunto foram escritos recentemente. Segundo o autor, Jeff Sonas, o equilíbrio nos confrontos durará ainda mais algum tempo.
Conversa paralela Mais um link adicionado ali na coluna da direita é a revista paralelos. Um pessoal legal do Rio que se organizou para falar de Literatura. O site é bonito e tem bastante coisa interessante dita lá.
12.11.03
Bonito Duas páginas de literatura bem bonitas:
Indigo - um visual diferente para cada conto! Isso eu queria para mim! em vez dessa coisa cinza aqui.
Caixote - que coisa bonitinha!
Se além do visual, o que está escrito também é bom? Não sei. Não gosto de ler. Mas quem gosta de ler pode ir até lá e me dizer...
Alguém aí me ajudaria a fazer um site lindo?
11.11.03
e na quarta
10.11.03
números Fogem 79 da prisão, 40 são presos novamente, 5 morrem. Segundo um tal de Kurokawa, capitão, tenente, secretário da segurança?, sei lá o quê, só falta recuperar 34. Isto é, se mais 34 morrerem, a operação terá sido um sucesso.
A população que mora próximo do local da fuga está assustada. Em resposta, Kurokawa, que é bom de conta, diz que para uma população carcerária de 180.000 pessoas, temos, antes desse incidente isolado, apenas 75 fugas em São Paulo, o que revela que o sistema carcerário do estado é uma maravilha. Na minha opinião, isso tudo revela que esse Kurokawa foi um bom aluno de matemática até a quarta série do Primário. Demonstra também, sem espaço para erro, o excelente nível das nossas escolas. Todo o resto é mentira.
Já falei da lagartixa aqui. Na terça, haverá lançamento da lagartixa em São Paulo.
as invasões bárbaras Vocês já sabem, não é mesmo?, a informação corre rápido. Chorei muito ontem no cinema. As invasões bárbaras são um beco sem saída. Do que é que vocês sabem? Sabem que vão morrer? Sabem mesmo? Não me lembro quando tentei pela primeira vez aderir a um ismo e não consegui. O sonho acabou faz uns trinta anos, já. Antes de eu nascer. Do que é que vocês sabem? Bom ir sozinho ao cinema - chora-se. E o pior é que chega a ser bom saber que não se morre só. Morrem todos. Aceitar o mistério basta para quem já aceitou. Pouco útil a razão nessas horas em que encaminha-se o mundo à morte - todas as horas. Chorei, e é bom chorar. A certeza de que não há sentido faz algum sentido enquanto se chora. Vão ver as invasões bárbaras. Sou um otimista. Chorei e passou. Agradecimentos aos hormônios que circulam no meu corpo e me mantêm caminhando. Sentir-se acompanhado é de uma beleza religiosa até a hora da morte. Amém.
8.11.03
vermes Preciso dizer que, quando eu escrevo aqui, eu minto?
texto de bêbado a gente apaga quando o porre passa quatro e pouco da manhã oito cervejas seja lá o que seja uma cerveja na cabeça na calçada alguém de cinza dessas cores que não se compram cores de roupa que não tem em loja caído como um bêbado dos que estariam dentro do lugar onde vendem cervejas a quatro reais a garrafa mas bêbado que compra cerveja a quatro reais tem amigos e não deita na calçada às quatro da manhã mulheres buscam clientes em carros que elas não têm dinheiro para comprar mulheres lindas bebem cerveja a quatro reais a garrafa e dificultam a vida de quem pagaria cinquenta reais para ter mulheres lindas em uma cama mas o que acontece que mulheres a cinqüenta reais são mais baratas que mulheres de graça? mulheres são como gente que deita na calçada para descansar às quatro da manhã e acorda às seis da manhã quando o sol acorda e o tio do cachorro quente vai embora e despeja a água da salsicha no bueiro e guarda a salsicha velha para os cachorros que enjoam de tanta papita mulheres lindas mulheres pagas e gente cinza na calçada oito cervejas a quatro reais a garrafa queimação no esôfago gente de cinza não tem dor que se sente depois de beber só para quem come a janta amanhã sairei de novo e procurarei cerveja mais barata mas gente cinza não procura mais não procura muito gente cinza não vê quem bebe a quatro reais a garrafa a não ser que consiga estar acordado quando a gente passa para pegar o carro pouco antes de o sol acordar.
7.11.03
Os bons companheiros Entra para a lista de blogs amigos o Bohemias, do Flávio. Lá: literatura, futebol e charlatanices.
6.11.03
É que um mundo todo vivo tem a força de um Inferno
Estou desorganizada porque perdi o que não precisava? Nesta minha nova covardia - a covardia é o que de mais novo me aconteceu, é a minha maior aventura, essa minha covardia é um campo tão amplo que só a grande coragem me leva a aceitá-la -, na minha nova covardia, que é como acordar de manhã na casa de um estrangeiro, não sei se terei coragem de simplesmente ir. É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo. Até agora achar-me era já ter uma idéia de pessoa e nela me engastar: nessa pessoa organizada eu me encarnava, e nem mesmo sentia o grande esforço de construção que era viver. A idéia que eu fazia de pessoa vinha de minha terceira perna, daquela que me plantava no chão. Mas e agora? estarei mais livre?
Será preciso coragem para fazer o que vou fazer: dizer. E me arriscar à enorme supresa que sentirei com a pobreza da coisa dita. Mas a direi, e terei que acrescentar: não é isso, não é isso! Mas é preciso também não ter medo do ridículo, eu sempre preferi o menos ao mais por medo também do ridículo: é que há também o dilaceramento do pudor. Adio a hora de me falar. Por medo? (em A Paixão Segundo G.H., Clarice Lispector)
5.11.03
O pó atrás da estante Minha cabeça continua abrigando uma certa brisa, o que me impede de ler muita coisa. Tenho estado lento e desconcentrado. Uma das poucas coisas que me venceram ultimamente foi o livro da Clarah Averbuck, Das coisas esquecidas atrás da estante. Antes de ler, achei que não fosse bom. É bom. A Clarah foi quem estreou a coleção Rocinante e foi quem faltou na mesa-redonda da Primavera do Livro para que eu entrasse numa das últimas grandes roubadas dos últimos tempos.
4.11.03
Visual mais colorido (editado) Nossa, nem consigo olhar isso por muito tempo. Colorido demais! Fica assim por um tempo. E os acertos sendo feitos aos poucos. Devagarinho até voltar tudo como era antes. (Descolori de novo, enquanto acerto as coisas no outro visual.)
Paúra Três coisas de que tenho medo, do menor medo ao maior: cachorro, cachorro policial e policial.
3.11.03
É bom saber que tem alguém olhando por nós Passei pela ponte do Jaguaré e fiquei satisfeito ao ver que a polícia estava fazendo a vigilância da cidade. Uma batida policial parava o trânsito por alguns intantes, um policial apontava uma lanterna para dentro dos carros enquanto dois outros tornavam o serviço seguro com suas armas nas mãos e apontadas para as portas dos carros. Nada assustador já que são homens treinados e não apontavam para as pessoas nos carros, apenas deixavam as armas prontas para o caso de uma emergência. Atrás deles, outros policiais em postura de intimidamento deixavam claro que a polícia de São Paulo tem os homens certos em cada posto, que funciona bastante bem e que a cidade é segura.
A postura desses policiais me lembrou duas coisas bastante interessantes. A primeira é uma cena que vi em um documentário sobre as Coréias. Na fronteira entre as Coréias existe uma sala fechada dividida por uma linha branca. De um lado, policiais do Norte e do outro policias do Sul. Nessa sala, autoridades dos dois países sentam-se eventualmente para resolver questões de fronteira. Os policias de ambos os lados são muito fortes e têm uma expressão facial assustadora que evidencia o potencial violento de cada um. Imagino que deva ter sido muito tenso para o jornalista inglês entrar nesta sala e ter que inevitavelmente dar as costas para um dos dois lados. A segunda lembrança que a eficiente polícia paulistana me acordou foi o haka, ritual aborígene para amedrontar quem o assiste, que revi recentemente executado pelos jogadores da Nova Zelândia numa partida da Copa do Mundo de rugbi. Uma maravilha. Recomendo.
2.11.03
Apenas mais uma de amor
ok resolvi sofrer dostoiévski camus mestrado em clarice lispector a paixão segundo g.h. jethro tull os dois gols de hoje do ronaldinho chico buarque violão ordem se quiser dizer generosidade não ter culpa o jogo da amarelinha laranja mecânica madrid trainspotting u2 jardins lars von trier sorte cortázar dogma borges cores livros do mal tomar sol uma vez por ano faço contas muito rápido fazia crime e castigo minto mal olhe nos meus olhos xadrez ganhei do karpov hoje sério mágica machado de assis são os seus ou não tudo arte humanidade dúvida guimarães rosa como se eu soubesse mais que você vontade poesia que tal uma lista com o nome de todas as pessoas que conheci beatles e stones diga posso escrever isso ao infinito eu com cores diferentes e formas diferentes para as letras de cada nome kafka o susto abraço como se fossem os seus toda mensagem é cifrada radiohead usp não posso completar dormir bem quero falar contigo não só com palavras tom jobim trabalho para uma vida quente caos não quero agredir raduan nassar chocar talvez nietzsche não conheço bem música clássica frio banquinho em que pode tudo isso se relacionar com uma canção do lulu santos que é uma belezura?
Eu gosto tanto de você
Que até prefiro esconder
Deixo assim ficar
Subentendido
Como uma idéia que existe na cabeça
E não tem a menor obrigação de acontecer
Eu acho tão bonito
Isto de ser abstrato baby
A beleza é mesmo tão fugaz
É uma idéia que existe na cabeça
E não tem a menor pretensão de convencer
Pode até parecer fraqueza
Pois que seja fraqueza então
A alegria que me dá
Isso vai sem eu dizer
Se amanhã não for nada disso
Caberá só a mim esquecer
O que eu ganho, o que eu perco
Ninguém precisa saber
Centrais telefônicas Ontem.
Alô. Alô. É da residência dos Monti? Sim. Com quem eu falo? Tony. Você é maior de idade, Tony? Sim. Bom. Melhor assim. Aqui é Talita quem fala. Eu sou voluntária de um grupo de relaxamento por telefone. Nosso grupo promove, pelo telefone, bate-papos erótico-sensuais para tirar as pessoas da rotina de trabalho. O senhor estaria interessado e teria um tempinho para conversar comigo? Interessado e sem tempo. Hmm. Você pode ligar mais tarde, Talita? Posso, nesse telefone mesmo? É, umas oito da noite. Tudo anotado, senhor Tony. Até mais tarde então. Até.
Não ligou.
1.11.03
Cortesia Pegando ônibus e sem óculos, notei que não haveria problema algum para dar o sinal a tempo de o ônibus parar depois de, ônibus muito perto, conseguir enxergar o visor com o nome da linha. Notei depois que havia alguns ônibus com o visor eletrônico, uma maravilha da tecnologia, que permite inclusive que se alterne o nome da linha e mais alguma informação útil, como, por exemplo, "via Lapa". Quando o ônibus seguinte chegou bem perto, à distância exata para eu poder dar o sinal a tempo, li no visor eletrônico "Boa Tarde", um instante de cortesia entre uma e outra informação correta, pragmática; um lapso de simpatia em mim pela cortesia da empresa antes de perceber, quando o visor trocou de mensagem, que era o meu ônibus passando e eu não tinha dado o sinal.