e X a t o a c i d e n t e
Tony Monti lê, escreve e apaga
2007

Capa de o menino da rosa Capa de O Mentiroso








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30.10.03


Cinco Minutinhos



Hoje li o A história de Agda e Agdo, texto e ilustrações do Laerte, da coleção Cinco Minutinhos. São dez livrinhos muito, muito curtinhos, autores e ilustradores diversos, que serão distribuídos gratuitamente para as escolas que fizerem o pedido ao editor. O Laerte é jóia. Tudo o mais sobre a coleção, inclusive sobre encomendas, na página da coleção.


Zeitblom
"Somente me cabe dizer mais um vez que parágrafos e asteriscos não passam de uma simples concessão aos olhos do leitor, e que, se fosse por mim, eu redigiria todo este trabalho de um só rasgo e fôlego, sem nenhuma fragmentação e até sem subdivisões e alíneas. Apenas não tenho suficiente coragem para oferecer ao mundo uma obra impressa de maneira tão desrespeitosa." - Doutor Fausto, Thomas Mann.


Aschenbach
"Sobretudo, desde que sua vida começara lentamente a declinar, desde que seu medo de artista, de não atingir o fim - esse receio de o relógio querer parar antes de ele ter cumprido sua parte, antes de ter-se dado por inteiro - não devia mais ser considerado mera extravagância, sua existência exterior vinha sendo limitada quase que exclusivamente à cidade que elegera como sua e à casa rústica que construíra nas montanhas e onde passava os verões chuvosos." - Morte em Veneza, Thomas Mann.


28.10.03


A Ilha
Escutei na TV agorinha uma pesquisa sobre a popularidade dos chefes de Estado. O Lula vem entre os mais aprovados. Ok. O Fidel entre os mais desaprovados. Ok. A notícia foi dada assim: O Presidente Lula encabeça a lista dos mais aprovados com xx% [...] O ditador Fidel Castro tem desaprovação de yy%. O correto agora é chamar o Fidel de ditador? Eu preciso saber disso para quando for falar do ditador Fidel Castro de novo. Seria bom se todos os chefes de Estado ganhassem uma característica na televisão. Isso faria com que não gastássemos tempo tentando descobrir a essência de cada um. O simpático Luis Inácio da Silva; o assassino George W. Bush; o sóbrio Vladimir Putim. Serve para outras áreas também: quem leria o católico Fiódor Dostoiévski, o conservador Jorge Luis Borges, o homossexual Oscar Wilde, o tarado Edgar Allan Poe, a sapata Virginia Woolf e o drogado Ernest Hemingway? O que seria do mundo sem o fascismo da palavra?


27.10.03


Menos
Vou diminuir a quantidade de posts. Estou me sentindo mais óbvio que frase sem sentido.


Estou feliz, estou muito bem
Há um tipo de gente que recentemente me chamou a atenção: a pessoa que se diz feliz. E mente. Antes, minha opinião era a de que a pessoa que se diz feliz estaria realmente feliz. Quem mais poderia avaliar a felicidade de alguém? O esquisito é que há pessoas muito tristes com discursos felizes. Mas felizes apenas quando o tema é a própria felicidade. Reclamam da vida o tempo todo. Sofrem a semana inteira. Não se dizem tristes, apenas percebem os índices da própria miséria, percebem a falta de dinheiro, de saúde, de diversão. E sofrem. No domingo, quando lhe perguntam se ela está feliz, ela diz 'sim, a vida é ótima'. Felicidade não qur dizer nada. É a necessidade de não se assumir tão claramente a miséria da vida. Acreditam nisso no exato instante em que se declaram felizes. E deixam de acreditar logo que o assunto muda, e sempre muda. Discursos. Pessoas assim são um problemão. Agora estou procurando as pessoas que se divertem o tempo todo, sorriem, vivem intensamente e que, quando perguntadas, diriam 'não sei não, essa vida é uma merda'.


Que educação?
Aos apologistas da educação, gostaria de saber o que é educação. Porque formar melhores profissionais é tirar o emprego dos que já estão empregados. Sem mudanças estruturais, o que se faz é qualificar a mão-de-obra e melhorar as empresas do pnto de vista do empresário. Em vez de se pagar mil reais para o técnico, pagariam mil para o engenheiro. A mudança reside na possibilidade de qualquer pessoa comparar o que se diz, o que ela mesma diz, com a sua prática diária, sua vida mais íntima e pereber a enorme distância entre discurso e prática. Educação pode ser o guia para essa tentativa de desconstrução de discursos que se supõe verdade.

Se eu acreditasse em alguma possibilidade de mudar esse mundo, acreditaria nisso. Mas o mundo é grande demais para mim.


25.10.03


Adeus, Lênin
Quarenta pessoas na lista de espera, ouvi vinte minutos antes do horário marcado para o filme começar. Se você é como eu e não gosta de ler a resenha antes de assistir ao filme, pare por aqui porque eu vou contar o final a qualquer momento. Eu gosto apenas de saber se o filme é bom ou ruim. No máximo, genericamente um motivo para vê-lo ou não. Aí avalio se posso ou não confiar na opinião dada. Minha opinião para quem vai parar de ler este comentário no próximo ponto final é: de zero a dez, o filme está entre regular e bonzinho. Parou? Não consegui rir em boa parte dos momentos supostamente engraçados de Adeus, Lenin. O enredo do filme é construído em cima de uma tensão curiosa, mas não acho que tenha sido muito bem explorada - uma mulher entra em coma antes de o muro de Berlim cair, em 1989, e acorda depois do fato. Seu filho tenta então construir para ela um mundo em que ela pudesse viver com a ilusão de que os ideais socialistas não tivessem ido abaixo. Ponto alto, para mim, foi o final - vou contar agora - quando a mulher fica sabendo, pela namorada do filho, que haviam construído uma ilusão para que ela vivesse sossegada, sem ter que enfrentar o monstro capitalista. Depois de tudo, ninguém conta ao filho que a mãe morreu sabendo da armação. Quem então se torna o enganado é o rapaz. Toda a ilusão criada desse modo se torna a utopia do rapaz e não necessariamente a utopia de sua mãe. De zero a dez, o final do filme é interessante.
Se alguém quer conhecer algo parecido com isso e muitíssimo bem construído, ler "A saúde dos doentes", do Cortázar (conto que está no excelente Todos os fogos o fogo).


O Imbecil (editado)
Imbecil, otimista, inseguro, inconstante, incoerente e chato.


24.10.03


Material didático
Manuais para ensino de línguas costumam ser o que há de pior em didática. Frases sem contexto, gramática solta como se fosse realidade. Generalizações imbecis. Vez ou outra, no entanto, aparece alguma coisa, por puro acaso, que soa verossímil. Do meu livro de francês, um momento de felicidade do francês autor: Les hommes, c'est compliqué. - Oui, mais les femmes, c'est encore plus compliqué.. Muito melhor que Anne est très intelligente. - Oui, mais Estelle est plus inteligente qu'elle.

Uma frasezinha só e já parece que o livro faz mais sentido. Quero estudar francês com um método melhor. Alguém aí indica um bom professor/uma boa escola que ensine francês lendo literatura?


22.10.03


Medicina
Como é que se explica para um médico que você está com a sensação de que tem uma ventania na cabeça? Mas não está ventando. Um vazio. Presta atencão no barulho da cachoeira. Que cachoeira? Inventa uma e presta atenção, muita atenção. Quando você estiver bastante concentrado na cachoeira, eu vou dizer umas coisas. Talvez você diga 'que é que você disse?' É isso, é isso que eu tenho, embora não tenha uma cachoeira na cabeça. Tenho vento. Mas não é vento. Meu pensamento anda eólico, quando anda. Às vezes esqueço do vento, o que não faz com que me concentre em outras coisas. Ou o vento ou nada. O vento piora quando eu ando. É como querer articular uma idéia complexa estando bêbado, só há presente. Esqueço do momento anterior do raciocínio. E desisto. Acho que tem gente que é assim o tempo todo. Talvez eu me acostume. Mas vou ter que deixar de lado a idéia de escrever um romance. Mini-contos.


21.10.03


A Descoberta do Mundo
"E, quem sabe, se não comêssemos galinha ao molho pardo, comeríamos gente com seu sangue."

"Eu já quis escrever o que se esgotaria em uma linha. Por exemplo, sobre a experiência de ser desorganizada, e de repente a pequena febre de organização como a de uma antiga formiga."

"Fico perplexa como uma criança ao notar que até mesmo no amor tem-se que ter bom senso e senso de medida. Ah, a vida dos sentimentos é extremamente burguesa."

"Até mais de treze anos eu estava em atraso quanto ao que os americanos chamam de fatos da vida. Essa expressão se refere à relação profunda de amor entre um homem e uma mulher, da qual nascem os filhos. Ou será que eu adivinhava mas torturava minha possibilidade de lucidez para poder, sem me escandalizar comigo mesma, continuar em inocência e me enfeitar para os meninos? Enfeitar-me aos onze anos de idade consistia em lavar o rosto tantas vezes até que a pele esticada brilhasse. Eu me sentia pronta, então. Seria minha ignorância um modo sonso e inconsciente de me manter ingênua para poder continuar, sem culpa, a pensar nos meninos? Acredito que sim. Porque eu sempre soube de coisas que nem eu mesma sei." (Clarice Lispector em A descoberta do mundo)


20.10.03


Andar de ônibus é uma maravilha. Gosto de metrô também mas não tenho o hábito. Não estou falando, é claro, de encarar duas horas em pé num Lapa-Penha às seis da tarde em alto verão. Falo de olhar o rosto das pessoas, olhar quando ninguém está olhando, pessoas no estado bruto, na rotina, indo ou voltando. Escutar o papo alheio, roubar alegria de um sorriso distraído. Sentar ao lado do desconhecido, aceitar ficar próximo de alguém como algumas pessoas não ficam nem dos amigos. Tantas histórias. Outro dia conheci uma violinista. Vi a partitura, escutei a coversa dela com um amigo. Pegávamos o mesmo ônibus diariamente, um dia trocamos umas palavras. Violino e ônibus são tão distantes. Violino não é humanidade em estado bruto, violino é instrumento do sublime. Violino em ônibus é literatura, o inusitado, como o susto de rima esdrúxula. Quem é que usa proparoxítonas em ônibus?

Mas às vezes, violino é erudito demais. No ônibus, não, no ônibus é o susto. Mas violino na praia não vai. Violino na praia não é sublime. Violino na praia é Salvador Dali. Ë esquisito também. Violino na praia é luau de novela. Cultura POP. Nem precisa de som, só o violino já basta, é a imagem que pega - uso do símbolo no vazio. Se fosse no ônibus, não, seria diferente. A academia, a universidade, poderia escrever teses sobre a pós-modernidade e o uso da imagem visual dos instrumentos musicais não associado a sua função primeira, a saber, produzir som.

"A saber" não me agrada nada. Ainda me lembro da primeira vez que escutei a expressão prestando atenção no que era dito. Saiu da boca da Professora Iná Camargo Costa, numa aula de Introdução aos Estudos Literários. Ela repetiu tanto "a saber" nesta aula que tive a impressão de que ela estava de sacanagem, que ela estava ironizando a expressão. Não sei até hoje se ela ironizava ou se ironizo eu, hoje e sozinho. Aliás, aprendi com a Iná a gostar um pouquinho mais de teatro e a ler teatro. Vi uma vez uma leitura de A Máquina de Somar (Elmer Rice), tradução da Iná, que era uma maravilha. Descobri assim o expressionismo americano, que aliás, continua sendo, para mim, esta peça e nada mais.

Agradável ir puxando assim, a partir de uma lista de termos um pouco aleatória, o pensamento e as idéias. Pode parecer falta de objetividade ir empurrando as idéias sem ter um foco apenas, mas uns dez focos, os termos da lista - esquisito porque a gente tende a ver com um foco fixo. Mas o fluxo do pensamento, pelo menos o dos que se permitem a liberdade, vai passando em estações diversas, como se o Lapa-Penha passasse por Paris, pela Grécia clássica, pela Lua, pelo meu quarto, pelas minhas veias e por Macondo.

Como se eu não tivesse que estudar Francês para justificar o CD que minha professora me emprestou. Bonito esse negócio de oscilar entre ordem e desordem. Literatura é assim: para o escritor, é pôr ordem no caos, o trabalho de dar forma ao informe. Para o leitor, a possibilidade do susto na ordem. E também o contrário de tudo o que eu disse, sem esquecer que leitor e escritor são a mesma pessoa. Difícil aprender idiomas com literatura na cabeça. Difícil aprender idiomas com literatura na cabeça? Queria era saber os idiomas, que aprender idiomas dá uma trabalho daqueles...

E no fim de dezembro, dou-me férias, que esquecer de tudo é preciso - embora não me lembre muito bem disso enquanto estou em ritmo de "trabalho". Em férias, acho férias uma maravilha. Mas trabalhando, tenho muito clara a impressão de que seria perda de tempo. Acredito no entanto na minha memória emocional. Férias no fim de dezembro. Devia ser como o carnaval, a fuga necessária de regras. Porque regra é bom para colocar as coisas nos lugares. Férias é para tirar todas as coisas dos lugares e, (apenas) depois, poder colocá-las de novo em ordem e escolher colocá-las em ordem, ou não - o que é diferente de simplesmente manter coisas em (uma) ordem rígida. Equilíbrio sem segurança em excesso. Estar pronto para a liberdade.

Falei de ordem de novo. Não tinha dito, outro dia, que tenho fixação nesse conceito?


19.10.03


O Rio de Janeiro continua lindo?
Não fui ao Rio, não vi a Primavera, não vi o show da Ciça e não chorei neste fim-de-semana. Um vento sul invadiu minha cabeça nos últimos dias e eu resolvi passar em casa as horas que passaria em ônibus.


16.10.03


Do contra
Tenho uma dúvida sincera, não é provocação barata, não é pergunta retórica: os que reclamam do governo Lula (eu reclamo), os que acham tudo isso uma merda, pretendem o quê? um ataque suicida ao palácio do planalto destruindo uma parede com um Palio mil? (pegar em armas, versão século XXI)


Foi mal
Apaguei o post que estava aqui. Preciso pensar melhor sobre o assunto.


15.10.03


Mais 10 coisas de que gosto e/ou não gosto e/ou vice-versa

- ônibus
- violinos
- rimas esdrúxulas
- cultura POP
- a academia
- teatro
- falta de objetividade
- fluxo de pensamento
- aprender idiomas
- listas
- repetição
- trabalho
- férias
- regras


Primavera Carioca
No fim-de-semana, eu finjo que vou trabalhar, e dou um passeio pela Primavera dos Livros no Rio de Janeiro. O evento parece mais movimentado que o paulista, que já foi bem legal. Para quem ainda não se ligou, é um encontro de pequenas e médias editoras que venderão livros com um bom desconto. Enquanto isso, boa programação cultural acontecendo: palestras, mesas-redondas, shows, cerveja e bate-papo.


Ontem
Aconteceu ontem a mesa-redonda lá na USP sobre Produção Literária e Artística. Eu, o escritor Roberto Causo e o músico Marcello Ibri. Foi bom, as mediadoras foram simpáticas, o Roberto e o Marcello são caras sossegados. Pensei por um momento que tinha faltado alguma polêmica, mas acabei concluindo que de nada adiantaria que três desconhecidos polemizassem sobre seus umbigos. A platéia cheia, umas trezentas pessoas - esvaziamos o evento do Saramago na Livraria Cultura. Bom que eventos como esse aconteçam na Universidade. A USP, que é a universidade que eu conheço, é muito parada quanto a qualquer coisa que não seja o professor entrar na sala de aula, dar sua palestra e os alunos assistirem quietinhos. Parada em tudo, então.

Falamos um poquinho de muita coisa que circunda o texto ou a música. Falou-se de produção mais como o produto do que como o processo. Fica mais fácil assim. De processo de produção artística não saberia muito o que dizer. Teria que improvisar umas histórias pouco verdadeiras, como fiz na mesa redonda da Primavera dos Livros.


U2
Minha memória me pregava uma peça - esqueci o nome de uma música legal. Acabei no site do U2 para procurar o nome. Alguém já entrou lá? Gostei. Trechinho de cada música, uns pedaços de clipes. Bem organizado. É claro que não é a mesma coisa que ter tudo de graça ali, mas, na medida em que a máquina do mundo permite, as coisas estão presentes. (quem aí encara a máquina do mundo?) Depois, como a máquina recomenda, é só ir na loja e comprar o disco.


13.10.03


Papinho bom



Nesse livrinho lançado há pouco no Brasil, mas organizado no fim dos 70, estão reunidas e organizadas algumas entrevistas com Julio Cortázar. Fala-se de literatura, particularmente de Cortázar, de contos e romances seus, de poítica, de música, do fantástico, de sonhos. Enfim, dos temas cortazarianos. Gostei demais, mas eu sou suspeito, gosto do Cortázar, ponto. Nas falas de Conversas com Cortázar está um pouco do Cortázar narrador - generoso, contraditório e ciente disso, ser de um mundo meio mágico, meio literário. Conta seus causos fantásticos e de como o fantástico integra seu conceito de realidade.


12.10.03


Sonhos
Disse outro dia a um amigo que não tenho pesadelos nunca. Não é completamente verdade embora meus pequeninos pesadelos não se comparem em nada aos monumentais pesadelos desse amigo. Ele tem personagens e situações fixas que o perseguem há anos - como a cidade que o Cortázar descreve em 62 Modelos para armar (ok, o Crotázar não descreve - ele mesmo diz que não é bom em descrições). Enfim, a tal cidade é originária de um sonho que o perseguiu por anos.
E nessa última noite tive um dos meus mini-pesadelos, um que eu já nem lembrava mais. É uma idéia mais que uma história. Eu começo a sentir a minha boca esquisita, como se arcada dentária estivesse meio solta, e os dentes começam a se desprender e eu vou ficando banguela. Nesse de hoje, a própria arcada começou a se desprender da boca enquanto eu tentava com o dedo encaixar tudo de volta. Chega um momento em que eu sinto como se estivesse mastigando os dentes que se desprenderam. Tudo muito terrível. O sonho invariavelmente acaba quando eu começo a acordar verificando os dentes no lugar com a língua.


11.10.03


Tony Monti 2
Tony Monti dirigiu Lenora, a linda garotinha morta no cinema. Tony Monti foi casado com Cicciolina. Tony Monti lutou com Rocky em Rocky 2. Tony Monti era o porteiro do hotel de Morte em Veneza. Tony Monti é o mago dos teclados. Tony Monti era câmera no Apocalipse Now, participou de uma cena e ficou de fora mesmo da versão sem cortes. Tony Monti era amigo de infância de Luke Skywalker. Tony Monti é primo de Marisa Monte. Tony Monti foi o primeiro guitarrista do Black Sabbath. Tony Monti tem uma pizzaria em Tóquio. Tony Monti é o primeiro clone humano. Tony Monti é o primeiro cão a ser presidente da república. Tony Monti cria baleias em aquários desenhados. Tony Monti foi fotografado com Adriane Galisteu em resort na Bahia. Tony Monti é o mais célebre personagem de Jorge Luis Borges. Tony Monti pilota uma Kawasaki no mundial de 500cc. Tony Monti é o nome artístico de Tony Monti. Tony Monti usa Armani. Tony Monti foi visto em clube gay. Tony Monti é a identidade secreta do Corredor X. Tony Monti é a nova loira do Tchan. Tony Monti é o novo amante de Lara Croft. Tony Monti é o peixinho de pelúcia mais conhecido do mundo. Tony Monti é um excelente livro de Moacyr Scliar. Tony Monti é a sexta maior cadeia montanhosa do sul da Itália. Tony Monti é a nota desafinada. Tony Monti é a rima mal feita. Tony Monti é a palavra errada. Tony Monti desfez as malas e voltou a dormir. Tony Monti escreveu sua carta suicida e esqueceu de selar o envelope. Tony Monti comeu sopa requentada no dia em que descobriu que sua filha mais velha estava grávida de Tony Monti.


Tony Monti 3
Há quem escreva distraído o próprio nome quando ao telefone e com caneta e papel à mão. Eu faço rabiscos aletórios, bolinhas e cubos peludos e rostos sorridentes. Jamais escrevo meu nome nessas horas.


10.10.03


Tony Monti

Ter um nome é uma coisa radical! Tantas vezes meu nome motivou brincadeiras perversas de coleguinhas de classe. Superar a dificuldade de ter nome e sobrenome utilizáveis nas brincadeiras das crianças me levou algumas vezes, embora não com vontade apaixonada, a desejar ter outro nome. Superado ou escondido o trauma - todos têm este trauma, o simples fato de ter um nome te joga na rua e te tira do quentinho da cama -, percebo que ainda não sou Tony Monti, não me sinto Tony Monti. Por outro lado, afirmo que sou Tony Monti, para quem perguntar, sem achar que minto. Assumi a contradição.

Monti é sobrenome italiano. Meu pai veio do salto da bota com uns seis anos, faz um tempo já. As lendas da família contam que um bebê foi encontrado em um cesto na porta de uma casa. A porta ficava em frente a uma série de montes (monti), e foi assim que deram ao bebê o sobrenome que a família usa até hoje. Há outras histórias que falam de homens fortíssimos que se divertiam arrumando briga pela região (a Puglia). Há também histórias de músicos, poetas, agricultores ... A mitologia dos Monti é fértil e pode-se sempre encontrar um antepassado que justifique as escolhas e os comportamentos dos Monti de hoje, se assim se desejar.

Da família da minha mãe não herdei o sobrenome. Mineiros do sul de Minas - Camanducaia, Itapeva e imediações. Não sinto no meu nome a identidade cultural dessa região. O nome dá uma imensa identidade cultural. Tantas vezes tive que dizer que Monti é italiano, que isso passou a constituir parte do modo como dou significado ao mundo. Inevitável. De Minas, lembro de Itapeva, que visitava com freqüência na infância. A cidade eram duas praças, as casas a sua volta, mais três ou quatro ruas que acabavam em pasto, e a igreja no alto de um morro. Subir a ladeira e ir à igreja era já penitenciar-se. A cruz da igreja era o ponto mais alto da cidade. Em frente a ela, o cemitério. Até a época que me lembro, a cidade cheirava a cavalo. E esses cavalos e bois e galinhas no quintal e igreja no alto da montanha, e correr de cachorro na praça e dormir em travesseiro de pena de alguma ave, e ver meu bisavô cortando fumo com a maior paciência na porta de casa, e enrolando o fumo na palha, e fumando devagar o cigarrinho, e começando a cortar o fumo de novo logo que o cigarro acabasse; tudo isso sou eu, mas eu às vezes esqueço. Voltei a Itapeva já crescido e vi que as ruas e os quintais eram menores do que eu pensava, que as pessoas eram menores do que as imagens na minha memória, que eles não falavam mais o dialeto incompreensível que falavam antes, quando eu era pequeno. Minha mãe voltou lá recentemente e disse que, diferente de antes, não conhece o dono da farmácia, a Zita vendeu a Venda da Zita e a sorveteria antiga fechou. Deu lugar a uma lavanderia. Itapeva cresceu e lava roupa fora de casa.

Da Itália, vieram as histórias. A parte da família que veio para cá vive uma Itália de algumas décadas atrás. Nas festas da família, ainda são cantadas as músicas que, provavelmente, cantavam nas semanas que passaram no navio. Das memórias da minha mãe, em Itapeva, colhi um fiozinho in loco. Um finzinho da Itapeva que cheirava a cavalo. Aliás, o conto "Uma galinha", da Clarice Lispector, acontece na casa da minha bisavó - o único canto da minha memória que tem galinha no quintal e onde se mata galinhas minutos antes do almoço. Lembro bem que, quando a galinha do conto entrou na cozinha, eu estava sentado em uma cadeira num canto. Minha bisavó cortava couve na pia.

Minha bisavó me chamava de Tonho, como ela chamava os Antonios (o mesmo processo fez com que o tio Gumercindo se tornasse tio Gumerço, tio Merço e, finalmente, tio Nerso - o que fazia com que eu achasse que Nerso e Gumercindo fossem duas pessoas, embora imensamente parecidas). Mal se sabia em Itapeva que, quando eu nasci, a Jovem Guarda já tinha feito um bom sucesso, e que tinha um tal de Tony Campello que resolveu diminuir seu Antonio a Tony (com ípsilon!). Minha mãe diz até hoje que Tony e Cely (o nome da minha irmã e, coincidência, o nome da irmã do Tony Campello) eram um casal de amigos.

Se uma parte do meu nome me perturbou, é esse ípsilon (mais até que o sobrenome, que facilita os trocadilhos mais básicos). Toni com i seria visualmente muito interessante e eu seria um italiano puro. Mas isso, acho, é gosto meu pelo clássico e pelas formas perfeitas (gosto que convive com outros gostos), uma vontade de ser só italiano ou só mineiro. Sou Paulista. O gosto pelo bem formado me fez perceber uma simetria no meu nome que revela minha mãe, autora do texto, uma verdadeira poeta - todos os sons (fones) do nome estão no sobrenome. O único som que diferencia o nome do sobrenome é o M, justamente a maiúscula que serve de eixo de simetria, quatro sons para um lado (otni) e quatro sons para o outro lado (otni). Os mesmos sons. Exagero dizer que Tony Monti é poesia? (*um sorriso*)

Palavras. Numa das últimas vezes em que fui até Itapeva, fui para um casamento. A festa seria num sítio em um lugar chamado, segundo minha avó, nossa guia na região, Zareia. Mesmo minha mãe repetiu "a festa é na Zareia". Fiquei feliz de reencontrar um tracinho do dialeto que escutava na infância e que parecia já perdido. Ri com meu pai, comentando, logo que o areal começou, o processo de transformar Areias em Zareia, e de se esquecer a origem do nome (como fizeram minha mãe e minha avó). Quando a plaquinha de madeira, já caindo do pau que a segurava, passou indicando Zareia à esquerda, minha mãe ainda comentou: "não falei que era Zareia?"


9.10.03


Saramago
José Saramago deve estar preocupado. Estará no Café Filosófico da Livraria Cultura no dia 14, 19 horas, no Conjunto Nacional. Para o azar dele, no mesmo dia e praticamente o mesmo horário (21h), acontecerá a mesa-redonda na USP (Roberto Causo, Tony Monti e Marcello Ibri - criação literária e artística). Desculpa, Saramago, esvaziaram seu evento. Quem marcou o horário não fui eu. (E para meu azar, eu não poderei assistir ao Saramago. Nem ele assistir à mesa-redonda).


8.10.03


Explicação para caras como o Adalberto
Descobri hoje que, depois de dois posts sobre o assunto, algumas pessoas ainda não entenderam a história da parceria d'O mentiroso com a Livraria Cultura. Explico de novo.
Se alguém comprar um livro, qualquer livro, comentado ou não nesta página, e fizer a compra a partir de um clique na propaganda da Livraria Cultura ali na coluna da direita (ou de um dos demais links desta página para a página deles), O Mentiroso ganha uma pequena comissão. É assim que se torna um mecenas sem ter que gastar nada por isso. (expliquei mal nos outros posts, embora algumas pessoas tenham entendido.)


Do caderno de definições
Poesia é assim: quando você tenta definir o que é poesia, poesia é o que sobra.


Tão me sacaneando, né?
Entraram aqui, via google, buscando por tony+monti+mentiroso+resumo. Que negócio é esse? O mentiroso cai no vestibular?


7.10.03


O mentiroso
Quase quatro meses depois de lançado o livrinho de contos, acumulei elogios interassantes e amáveis, além de algumas críticas construtivas que me destruíram.
Chegou a hora de dominar o mundo. Sua mãe já tem uma cópia d'O mentiroso? Seu vizinho? Hora de presentear. (O dia da criança está aí. Criança adora ler.)


Dinheiro
Confesso, fiquei rico. Convido a todos para dividirem uma Bohemia comigo.


6.10.03

5.10.03


Etiquetas
Minhas etiquetas não aderem bem.


Pops e marginais
Ei, ninguém ainda me ajudou a entender o que é literatura pop e o que é literatura marginal. Vou fazer uma lista aqui de autores para ajudar a explicação. Quem é pop? Quem é marginal? (Agradeço eventuais explicações)
- Paulo Lins
- Marçal Aquino
- Kafka
- Paul Auster
- Paulo Coelho
- Luís Fernando Veríssimo
- Dostoiévski
- Rubem Fonseca
- Paulo Leminski
- Patricia Melo


Mesa redonda na USP
Na outra terça-feira, dia 14, participarei de uma mesa-redonda sobre Criação literária e artística. Estarão comigo o Roberto Causo e o Marcello Ibri. 21h na sala 260 do prédio das Letras.


3.10.03


Marginais
Escrevi ontem, com certo receio, que o Marçal Aquino fazia literatura pop. Hoje vejo o Marçal na televisão (STV) num programa chamado "literatura marginal". Pode ser pop e marginal? Não estão confundindo literatura marginal com literatura sobre comunidades marginais? E vender pouco com ser marginal? E vender muito com ser pop? E todo o mais também? Não são perguntas retóricas, eu realmente fiquei confuso com a história. Acho, inclusive, que minhas perguntas não dão conta de esquematizar a questão toda. As comunidades marginais estão muito presentes na arte desses últimos anos. O programa também tinha o Paulo Lins (Cidade de Deus) - informação para quem quiser comentar e me ajudar com as perguntas que deixo aqui.


2.10.03


Rocinantes no Rio
No próximo dia 8 (quarta-feira), a partir das 20:00, na Dantes Livraria (R. Dias Ferreira, 45b, Leblon), será lançada, mais uma vez, a fabulosa Coleção Rocinante da Editora 7 Letras. O Mentiroso foi um dos primeiros livros da coleção, que já tem uns dez títulos. Vantagem de estar em uma coleção é que cada vez que lançam um novo título, tem lançamento novo dos títulos anteriores.

Como desta vez o lançamento é no Rio, devem estar presentes os rocinantes cariocas. Ainda não confirmaram a presença os também rocinantes Anton Tchekhov, Rainer Maria Rilke e Johann Wolfgang von Goethe.


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Puxa vida. A parceria com a Livraria Cultura já me deu quase 8 reais! Isso faz desta página a minha segunda maior fonte de renda neste mês!


1.10.03


Vila Mariana - Parque Continental
Entrei no ônibus hoje e o cobrador quase não me viu porque estava lendo. Não consegui ver o título do livro.
Mais ou menos metade dos bancos tomados. Abri meu livrinho. Passou por mim um cara com a edição de banca d'O Processo (Kafka). Na seqüência desceu uma menina com o Grande Sertão: Veredas nas mãos. Um cara ao meu lado lia um livro enorme cujo título era Eletromagnetismo. Uma moça no banco do lado lia alguma coisa do Herman Hesse. Tinha mais dois caras lendo livros em bancos mais distantes. Ônibus de país letrado é outra coisa.


Conversando com Cortázar
Estou lendo um livrinho que compila algumas entrevistas feitas com o Cortázar. Muito bom. Cortázar é muito bom. Lá ele faz uma pequena interpretação do conto "Casa Tomada". Segundo ele, haveria mesmo uma relação não apenas fraternal entre os irmãos como pano de fundo da história fantasmal. Pois é. Lembrei então que uma vez fiz um trabalho para a faculdade comparando "Casa Tomada" e "A Queda da casa de Usher" do Poe. Uma das minhas teses era justamente a relação incestuosa entre os irmãos em ambos os contos. A professora disse que eu forcei a barra.








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