O Mentiroso foi escolhido como o melhor texto de 2002 pelo júri do Projeto Nascente - USP.
Tony Monti é paulista. Lê e escreve. Contrariando as previsões mais otimistas, terá trinta anos antes do fim da década. Quando você telefonar para sua casa, ele estará dormindo. Em seus sonhos, ainda mora na casa onde passou a infância. Não pretende mudar, por enquanto.
Li há uns três anos o famoso texto do Freud "O mal-estar na civilização" e lá encontrei um trechinho secundário que me deixou cabreiro. Falava de ordem, beleza e limpeza e se referia a estas categorias como noções constituintes da formação do indivíduo, necessárias a seu convívio em sociedade. Fiquei fascinado com a referência e desde então lembro disso a toda hora. Cada um desenvolve os significados e os valores em relação a ordem, limpeza e beleza de um modo. Estes significados e valores estão sempre em choque com os significados e valores dos outros indivíduos. Estão também em contato com a experiência e com os demais significados e valores do indivíduo. Aparentemente, meus conceitos de ordem, beleza e limpeza não são especialmente diferentes dos conceitos mais comuns encontrados na sociedade. Nada muito exagerado. Costumo notar (ou achar que noto) conceitos mais rígidos e exagerados de ordem, limpeza e beleza quando em outras pessoas.
Tem uns livros ótimos que às vezes se perdem pelo tamanho exagerado. Não sei onde foi que eu li um escritor fazendo um comentário negativo em relação a boa parte dos livros com mais de 400 páginas. Acho que foi a Ana Maria Machado. É, não sei. Dúvida. E os livros ótimos que acabam antes da hora são terríveis. A Metamorfose (Kafka) não tem 100 páginas! O Doutor Fausto (Thomas Mann) tem mais de 700, passou da conta na minha opinião.
TWIX foi o grande achado gastronômico da minha vida pós Dip n' Link!
Não é sempre que recebo bem críticas construtivas. Algumas vezes, elas me destroem. Por outro lado, é raro eu não gostar de qualquer tipo de elogio, mesmo os baseados em nada. Nada também é argumento neste caso. Em geral a estratégia mais adequada é elogiar bastante antes de fazer a crítica. Eu sou esperto o suficiente para esquecer a parte que não me agrada.
As dúvidas são base para a razão. Certeza é para os tolos. Pode levar a alguma indecisão em alguns casos. Perigoso é quando a indecisão já é o primeiro passo para a inação. A ação é necessária. Reflexão e ação. O Marx disse alguma coisa sobre isso, não?
Acho que "listas" estão entre as coisas mais bestas do mundo. Mas eu acabo me interessando. É como música do Lulu Santos. Será que exagerei na confissão agora? Eu estava tentando não ser pessoal demais. Dessa vez, passa. Listas são boas e em geral não querem dizer muita coisa. Listas fechadas demais (as dez mulheres mais lindas do Brasil - e a dúvida?) costumam ser engraçadas e imbecis. Espero que a minha lista mais, menos ou muito pelo contrário, sem limites definidos (como as tradicionais As dez mais do meu Top Three que circularam pelas Letras por algum tempo) não seja aberta demais, vaga demais, imbecil demais. Estou prestes a apagar tudo! Espero que a dúvida não fique com cara de indecisão, de nada.
Me peguntaram por que é que eu não inclui mulher na lista de ontem. Como é que eu vou colocar "mulher" junto com "crítica construtiva", "TWIX" e "limpeza"? Não, mulher é outra coisa. Mulher é sempre outra coisa. Mistério.
29.9.03
10 coisas de que gosto e/ou não gosto e/ou vice-versa
Sumiu Zé Medeiros, sinto falta de um comentário seu ali embaixo.
26.9.03
Carpinejar No dia 30 de setembro, terça-feira próxima, é dia de carpinejar. A partir das 19h00 no Bar Canto Madalena (Rua Medeiros de Albuquerque, 471 - Vila Madalena). Infelizmente, provável, eu não carpineje nesse dia.
25.9.03
O primado da razão Um amigo estudante de Filosofia foi fazer algumas disciplinas nas Letras e reclamou de um certo tom generalista demais no tratamento dos assuntos. Disse, por exemplo, que determinado professor, ao tratar de um tema específico em Platão fez um ótimo resumo de tudo mas não se aprofundou em nada. E assim fazem também os professores em outros temas da Filosofia, da Psicanálise, da Sociologia etc. Tenho a impressão de que a observação desse meu amigo é razoável.
Em relação especificamente à Filosofia, o comentário me fez ter umas dúvidas sobre as quais talvez os leitores filósofos (filósofos leitores) dessa página possam me ajudar. A Literatura, via de regra, trabalha com imagens, lida o tempo todo com referências ao mundo concreto, embora as construções mais abstratas possam ocorrer - e ocorrem. As imagens não se referem a um mundo ideal, carregam em si uma certa quantidade de sujeira (mantenho a palavra) difícil de determinar. Um cachorro, por exemplo, pode ser ao leitor o seu próprio cachorro, a amizade, o medo, o selvagem (animal) no mundo dos civilizados. Nas imagens literárias não cristalizadas, esse pó desorganizado necessariamente existe e é matéria da literatura. Ler um romance passa por esse pó. O que quero dizer é que a literatura como é vista de uns tempos para cá inclui nela a incerteza. Minha dúvida é sobre o lugar dessa incerteza na Filosofia.
Entendo que as imagens também povoam a Filosofia ao lado do pensamento abstrato mas parece haver uma busca maior de Verdade na Fiolsofia que na Literatura. Ou não? A razão parece mais determinante que na Literatura. Eu interpreto o comentário do meu amigo filósofo (não, não é filósofo amigo) sobre as aulas nas Letras como a desilusão que as Letras causaram nele nessa sua busca pela Verdade.
É como se a Filosofia tratasse basicamente de enigmas (que permitem e pedem a decifração) e da ordem, enquanto as Letras tratariam também do caos e dos mistérios (que não exigem nada, não perguntam nada, permitem a contemplação apenas. São.)
Tratei Filosofia e Literatura como categorias completamente separadas. Entendo que não são tão separadas assim. Onde está a sujeira na Filosofia?
24.9.03
Cabeça a prêmio Do livro do Marçal Aquino:
"Brito e Marlene.
Por que dava certo? Os dois tinham as mesmas fomes."
"Um desejo secreto de Marlene: ter encontrado Brito antes, mais novo. Acreditava que era possível consertar um homem, desde que ele ainda não tivesse pasasdo dos trinta. Depois dessa fronteira, achava, era mais fácil ensinar um macaco a ler."
(mais sobre o livro, em breve)
Dúvida Que(m) é CAROL?
21.9.03
Inverno e Verão Domingo eu fui até a Primavera dos Livros. Que feirinha simpática. Encontrei bastante gente, conheci gente, conversei com gente. E cheguei em casa com a dúvida: será que a Cecília, que estava cuidando das coisas da 7 Letras por lá, se chama realmente Cecília? Talvez eu tenha trocado o nome e acreditado nele até o fim. Achava até então que meu problema de memória fosse uma mentira plantada pela Isadora e pela Marília, editoras da 7 Letras, que tentam me confundir trocando de nome o tempo todo. Começo a ficar preocupado com isso. Tinha mais alguma coisa a dizer sobre isso... Alguém da 7 Letras: a Cecília se chama Cecília?
Cheguei no maior sol e quando saí estava quase nevando. Primavera de Paulista.
Foi uma merda mas foi bom Cheguei bem cedo, perto das três da tarde, e a intenção era ficar rodando pela feira até a mesa-redonda da noite, com prosadores, sobre o processo criativo. Peguei uma cadeirinha, sentei. Marçal Aquino, Cadão Volpato, Nelson de Oliveira, Ivana Arruda Leite e André Sant'Anna sentados ali à frente, sendo apresentados pelo Nelson. Ouvi o Nelson e o Marcelino Freire conversando, na entrada do auditório, sobre a possibilidade de o Marcelino substituir o Evandro Afonso Ferreira, que não pode comparecer. O Nelson chamou o Marcelino à mesa. Aguardavam ainda a Clarah Averbuck (era o que eu pensava), que acabou não chegando. E na mais deslavada sacanagem o senhor Nelson de Oliveira, mancomunado com Marcelino Freire, chamou um último convidado para completar a mesa. Eu. Foi uma merda mas foi bom. Alguém entendeu alguma palavra do que disse lá? Nelson e Marcelino - tem volta. Abraço...
Esclarecimento: Apesar da plaquinha à minha frente, eu não sou e nunca fui Clarah Averbuck.
Sobre o processo criativo: como se não bastasse inventar histórias escritas que façam algum sentido para os outros, tive neste domingo que inventar uma história, de improviso e em frente a uma platéia, pois me pediram, o Nelson de novo, para contar algum fato real que tenha virado conto. A mentira colou?
Mais processo criativo: não tenho um processo criativo, vou vivendo, pensando, escutando, observando e depois conto uma história. Mentir é uma maravilha. Inspiração todo mundo tem. E sentar na frente do computador para transformar a vida em palavras é trabalho. Processo criativo quem tem são os outros. Eu adoro saber dessas histórias.
A mais alta literatura E a Playboy da Babi, hein? Coisa louca...
20.9.03
Time out Deixarei este post aqui por uns dois dias para dar tempo, àqueles que não leram os posts anteriores, de completarem sua coleção de textos deste blog. Continuarei lendo os e-mails e os comentários, e os responderei na medida em que isso não interrompa minhas horas de sono.
Homem É legal esse negócio que a gente consegue fazer de emprestar valores e significados de uma coisa para outra coisa. O cachorro que eu não tenho não sabe fazer isso. Complicado, sem deixar de ser fascinante, é o emaranhado de símbolos e relações entre as coisas, os valores e os significados. Um montão de construções, mas principalmente de ruínas, que encobrem o chão, os nossos motivos mais primitivos (que provavelmente são os instintos de sobrevivência do indivíduo e da espécie). Dá para acreditar que eu escrevi este post para sobreviver?
19.9.03
Meus milhões Para colaborar com a distribuição de renda neste país, basta clicar em qualquer link desta página que vá à Livraria Cultura e comprar o livrinho que quiser (pode até escolher um livro bom).
Lagartixa Conheci esta semana por intermédio do poeta Caio Gagliardi, a revista Lagartixa, editada por um pessoal da UNICAMP. Traz nesse número (Inverno/2003) um apanhado de poetas contemporâneos. Além do Caio, entre outros, Donizete Galvão, Fábio Weintraub, Marcos Siscar, Ruy Proença e Gabriela Balaguer. Muito bonitinha a revista. Como boa parte das coletâneas, mesmo das boas como esta, tem seus altos e baixos. No geral, bastante interessante. Gostei.
Da Gabriela Balaguer:
Ainda sonho
ainda pesadelo
não se desfez,
nem foi apaziguada
a última cena.
E o sol implacável
que podia secar o travesseiro molhado
que podia oferecer sombra e refresco,
ser um abrigo
fez da excessiva luz
eclipse
essa noite diurna
de risos tortos
de imagens embaçadas
ainda sonho
ainda pesadelo
Descobri agorinha que Lagartixa dá uma amostra dos poemas na internet.
18.9.03
Mecenato Este blog tem agora uma parceria com a Livraria Cultura. Quando alguém compra um livro lá partindo de algum link aqui d'O mentiroso, o mentiroso ganha 4% do valor da compra. Já estou a caminho da riqueza - tenho já R$ 0,76 prontinhos para serem depositados na minha conta bancária. O caminho para o mecenato está ali na coluna da direita, mais embaixo. Isso, aí.
Por que é que eu acho que vão comentar esse post?
Mecenato - parte 2 Que coisa esquisita que é trabalhar oito horas por dia, não? Mais uma hora de almoço, uma para ir, uma para voltar - o Metrô ainda não chegou aqui em casa -, mais oito horas de sono. (Você que acha que pode dormir menos? - não sabe os benefícios que uma boa dieta a base de sonhos pode trazer - eu preciso de umas dez horas - conto oito porque não quero criar polêmica). Sobram cinco horas por dia. Jantar, eventualmente mais uma refeição, tomar banho. E a falta de disposição? Não dá tempo de ser gente. (não falo dos trabalhos realmente agradáveis) Os banners da Livraria Cultura aqui no blog estão justificados? E, quer saber?, eu até gosto do que tenho feito (trabalho). Experiência boa. Mas não agüento muito mais que um mês, não. E as horas de ônibus têm sido boas para ler e ver o mundo passar na janelinha.
17.9.03
Clarice e Fernando
Estive relendo as Cartas perto do coração - correspondência trocada entre Fernando Sabino e Clarice Lispector, editada pela Record. De lá:
"Clarice: Quando é que você se alegra?
Fernando: Sou sempre alegre - daquela alegria interior dos fronteiriços da debilidade mental e que, portanto, têm ainda oportunidade de salvação."
"O melhor de tudo, porém, é o livro do Guimarães Rosa, não o Corpo de Baile, que não li, mas o Grande sertão: veredas, que estou na metade e é obra de gênio, não deixo por menos." (Fernando)
"Estou lendo o livro do Guimarães Rosa [Grande sertão: veredas], e não posso deixar de escrever a você. Nunca vi coisa assim! É a coisa mais linda dos últimos tempos. Não sei até onde vai o poder inventido dele, ultrapassa o limite do imaginável. Estou até tola. A linguagem dele, tão perfeita também de entonação, é diretamente entendida pela linguagem íntima da gente - e nesse sentido ele mais que inventou, ele descobriu, ou melhor, inventou a verdade." (Clarice)
"O que você já deve ter ouvido falar de mim por aí é verdade: estou vivendo sozinho há dois meses e pretendo continuar. Começando tudo de novo - só que não tenho mais dezessete anos, o que não passa de uma constatação meramente literária. Tudo mais são vidas, como dizia um amigo meu que não morreu." (Fernando)
Nasceu pós-maturo Depois de alguns meses de lançado, foi finalmente lançado, ontem, o livro da Clarah Das coisas esquecidas atrás da estante. O Rodrigo não foi. A Nara foi. Dureza é não mais que ver o pessoal tomando cerveja - eu tendo que acordar às 6:00 no dia seguinte - e ir embora cedo, pelo mesmo motivo, no melhor da festa. Tava legal, mas a cerveja que eu não bebi é cara demais.
Houve há uns três meses um lançamento coletivo da Coleção Rocinante em que a Clarah era esperada. Ela não apareceu porque a Catarina (filha da Clarah) disse que ia nascer. Alarme falso. Mas dessa vez, nasceu (o livro. A Catarina, já com dois meses, esteve presente na festa).
16.9.03
Alguém que gosta de mim Minha amiga Rutiléia leu meu pensamento: "tem pessoas que deviam ser pagas só para ficar no ócio." As sociedades ainda não se organizaram suficientemente para entender que tem gente que não serve bem como engrenagem. Como lubrificante eventual de engrenagem, talvez. Mergulha-se a engrenagem no lubrificante, eventualmente.
E tem engrenagem que precisa de mais lubrificante, tem umas que nem precisam. Estas últimas não são daquelas engrenagens gordinhas, são daquelas chatas, sabe?
15.9.03
O futuro do amanhã *
Uma coisa que me incomoda é a postura da sociedade em relação às faixas etárias. Tá cheio de jovem que acha que o mundo é só dele. Deve ser porque ele ainda não foi massacrado pela necessidade de trabalhar e ganhar o sustento, e pelas demais imposições sociais. Há também os não tão jovens que apóiam essa idéia: "deixa eles, nossa época passou". Esquisito demais. O mundo não é de todo mundo? Ou é de todo mundo ou é de ninguém. A propaganda ideológica insiste nessa idéia, de juventude como vida. E os tais jovens ficam com a idéia megalomaníaca de que o mundo inteiro é deles e não dos outros. Ao mesmo tempo, no entanto, engolem a ladainha de que eles são o futuro do mundo. Pouco tempo depois, descobrem que já são o passado. Têm a desculpa de poder atribuir a chance de mudança (vida) ao novo jovem para encobrir o mal estar e a culpa de não ter contribuído dignamente nem ter mais o que fazer da vida. É parte da culpa que persegue todo mundo. Em geral, não se consegue lidar com a idéia de simplesmente ir vivendo, de que não há recompensa além, só aqui mesmo na terra e entre os homens. Não se passa pelo presente: ou se é futuro (jovem), ou se é passado (os demais). Jovens são o presente do mundo, como todas as pessoas vivas. O mundo é dos vivos, não apenas dos jovens. Ou estou apenas me preparando para envelhecer reclamão? Que é que me sobrará aos 50 (70, 90) anos?
* "futuro do amanhã" é uma expressão recorrente para se referir ao jovem como responsável pelo futuro da humanidade em redações de alguns alunos e ex-alunos.
14.9.03
Trabalho Ainda não aprendi a plantar e colher arroz, feijão, ovo, bife e batata frita. Segunda, trabalho mais um pouco para poder comprar de quem sabe plantar e colher. Preciso me desenvolver nas ciências da terra.
13.9.03
Do caderno de definições Ideologia[1] é assim: João quer roubar o Pedro. João é pobre, Pedro é rico. A justificativa de João é que ele tem muito pouco e o outro tem muito, que ele está passando fome e o outro tem sobras. Então, vai pegar, a força, um pouco do que o outro tem. Pedro vai fazendo de sua casa um fortaleza para que João não o roube. João vai se armando cada vez mais para tentar satisfazer sua vontade de ter um pouco mais do que tem. Pedro diz que o ponto de vista do outro é razoável mas que o uso da violência é injustificado, que eles poderiam tentar conversar em vez de resolver tudo a força.
Dez anos se passam e, inveridicamente, João está rico e Pedro passando fome.
Pedro quer roubar João. A justificativa de Pedro é a antiga justificativa de João. A de João é a que era a de Pedro.
Mudaram os papéis sociais.
Segredo: João e Pedro são a mesma pessoa.
Ideologia[2] é assim: No Brasil, há cerca de 20% (só um número) de desempregados. No Brasil, há muita gente pouco qualificada profissionalmente devido a uma educação que funiciona muito mal. No Brasil, 5% são patrões e 95% (só números) são empregados. No Brasil, a maioria da população quer que se dê mais educação para a população. No Brasil, para maior parte da população, educação significa melhores condições de entrar no mercado de trabalho. No Brasil, há projetos de qualificação profissional que conseguem realmente colocar desempregados em postos de trabalho. Para isso, empregados são demitidos. O salário não muda e os 5% de empregadores conseguem profissionais mais bem qualificados. Há depois do processo, 20% de desempregados no Brasil. As entidades que recolocam o desempregado no mercado comemoram sua eficiência. Mudaram os papéis sociais, desempregado virou empregado e empregado virou desempregado.
Segredo: Desempregado e empregado são a mesma pessoa. Patrão também.
11.9.03
O diabo na rua, no meio do redemoinho Lembrei hoje de uma entrevista do José Miguel Wisnik com o Antonio Abujamra. Perguntado qual era o melhor livro que já tinha lido, o Wisnik perguntou de volta, para esclarecer, se era pra dizer um de um autor brasileiro ou podia ser estrangeiro. O Abujamra esclareceu "qualquer um, o melhor". E podendo escolher o mundo, o Wisnik disse "Grande sertão: veredas". O sertão é o mundo...
Sense and sensibility A gente fica inventando cada coisa pra gente mesmo, não? Será que a razão só serve pra inventar umas mentiras que não são mais nem menos que projeções de nossas emoções? Não só as emoções, talvez - não sei a terminologia psi para isso -, também o resto do que é anterior à palavra, se é que há o resto. Será que a gente não se engana o tempo todo com as palavras quando quem manda na gente é o não-verbal (e não-racional)? Será que a gente não fica apenas requintando eros, tanatos e seus eventuais vizinhos? A Clarice Lispector disse uma vez em uma crônica (que eu não me lembro em que livro está) que ela acabou ficando inteligente apenas para tentar dizer aos outros o que ela já sabia antes de ficar inteligente sem poder expressar. Acaba-se descobrindo que, ao dizer alguma coisa, é necessário dizer também que não se está dizendo o que se quer. A tentativa necessariamente falha. Será? "Falha" deveria ter sido o nome d'O mentiroso.
Não encontrei nenhum Esqueci de procurar, é verdade. Perdi dois livros de propósito: um em frente à biblioteca do Sesi e outro em um restaurante ali por perto. Como disse a Trinity em um comentário ali embaixo, a sensação é boa. Deixei o livro, nos dois casos, e fui caminhando. Ainda olhei para trás duas ou três vezes. O livro paradinho ali, ninguém por perto. Brincadeira boa.
9.9.03
11 de setembro Cheio de sentimentos confusos, já separei dois exemplares do meu livrinho para serem libertados no dia 11.
Gente que sabe Eu trabalhando muito, meio cansado, concentrado na minha mesa. Um ex-professor meu da FFLCH que está trabalhando comigo se aproxima, eu pronto para balançar a cabeça e dizer "oi". Ele me dá um meio abraço, faz um sinal de positivo com a mão, abre um sorriso. Uma simpatia o rapaz.
Lady Averbuck
A Senhorita Clarah Averbuck lançará seu livro Das coisas esquecidas atrás da estante na Mercearia São Pedro (Rua Rodésia, Vila Madalena), no próximo dia 16. Mais um simpático livrinho da Coleção Rocinante, Editora 7 Letras, a mesma que publicou O Mentiroso. Eu vou.
8.9.03
Mais do mesmo Mais dois trechinhos do Marcos Siscar, para fazer um "dia Siscar" e ilustrar as leituras que tenho feito nos ônibus agora diários.
"Caixa
Faremos um tratado sobre a mentira
(o homem saiu para comprar cigarro
só achou matéria de insônia poeira
fina para a água do copo) os poemas
são caixas onde colocamos um nome
caixas são coisas de guardar mentiras
par de sapatos coleção de figuras são
pretas para registrar o erro erro erro
[...] "
"Sobre a poesia dita profunda
a verdade não é o contrário (quem saberá
onde fica a superfície do fundo?)
é como o amor
aventura é começar de trás para frente"
Marcos Siscar
"quantas vezes um gemido nos salvou um mundo"
(Marcos Siscar em Metade da arte)
7.9.03
Diz aí Ei, você que vem me visitar de vez em quando, esqueceu de deixar comentário no "diz aí"... E eu gosto também de receber e-mails interessantes de gente interessante. Fazem com que eu tenha a ilusão de estar menos só.
6.9.03
Uns livros [1]
O Jogo da amarelinha - Julio Cortázar.
É um dos livros da minha vida. O próprio Cortázar explica sua literatura, em sua obra crítica, como a articulação entre um certo existencialismo e um certo surrealismo. O Jogo da Amarelinha é um dos pontos altos dessa combinação pouco razoável. Mas a razão é apenas um dentre os possíveis pontos de vista. Horácio Oliveira, o protagonista, é um homem que busca e luta com sua liberdade, oscila entre um certo controle superrracional filosófico-humanista e o descontrole mágico na esteira dos simbolistas franceses do XIX e das vanguardas do século XX (o tal certo surrealismo). Horácio é o homem. E Maga é uma das personagens mais apaixonantes que conheci. É possível odiar os dois. Também passei por isso no caminho.
O livro é conhecido, no entanto, pela forma labiríntica na desorganização simulada dos capítulos. E o Morelli, há o Morelli também, o porta voz de alguma explicação sobre a construção do próprio romance, ou de posturas filosóficas, ou de apenas ele mesmo.
"ismos" à parte, o livro é envolvente, prazeroso, bem-humorado.
Preciso reler.
5.9.03
Famílias terrivelmente felizes Fato: pediram a alunos de várias sétimas séries, escolas diferentes, todas de São Paulo, que fizessem uma redação cujo tema era algo próximo a "os conflitos entre pais e filhos". Eu li o produto. Muitas páginas, muitos garranchos, muitos coraçõezinhos nos cantos das páginas. Esquematicamente as redações possuiam, com pequenas variações, os seguintes blocos de texto:
1. [as diferenças entre pais e filhos, particularmente as reivindicações dos filhos]
2. [as desculpas esfarrapadas dos pais para não permitir nada, sempre apoiadas em uma moral peri-fascista e indiscutível]
3. [o filho não entende os argumentos dos pais]
4. [o filho aceita as restrições, apesar de não as entender. Mais, diz que o mundo é assim mesmo e que vai agir exatemente assim com seus príprios filhos. Porque os pais só querem o melhor para os filhos]
5. [o enunciador agradece a Deus pelos pais maravilhosos que Ele lhe deu]
11 de setembro - libere um livro Sabe esta história bonitinha de liberar um livro por aí no 11 de setembro? Tenho umas idéias:
1 - Se você não sabe que livro liberar e não quer se desfazer da cópia que tem de O Mentiroso, por 15 reais pode ter uma cópia novinha.
2 - Em vez de doar o livro para o mundo, por que não escolhe alguém para quem o livro vai ser legal? Prefere não ter a responsabilidade da escolha? O acaso é mais bonito, eu sei.
3 - Livros legais podem ser deixados na portaria do meu prédio A/C Tony Monti, apartamento 62.
4 - Será que vamos conseguir uma melhor distribuição da renda no mundo nos próximos 11 de setembro, ou vamos ficar na distribuição de livros?
5 - Nada contra liberar livros ou o que for.
6 - Abraços liberados no 11 de setembro também. O quê? Pode-se abraçar todos os dias?
4.9.03
Jorge Luis Borges e Nelson de Oliveira Alguém aí sabe o que o Marcelino Freire anda lendo? (04/09/2003)
Família Ivan e Cid, que maravilha, a primeira família a deixar mensagens por aqui! Ivan, tenha paciência, a minha paciência uma hora acaba. Ivan, o blog da Clarah é outro. Ivan, apareça quando quiser. Ivan e Cid, dois rapazes família. E me disseram que o louco da família é o velho Santana... Acredito?
E em Curitiba tem Perhappiness, de 15 a 21 de setembro. Além dos nomes já confirmados, é provável a presença do poeta Ivan Justen e seu número kamiquase com garrafas de Absolut, alfinetes e água sanitária.
3.9.03
Nem parece São Paulo Tenho andado pelo Sesc Santo Amaro, lugarzinho agradável. Uma criançada jogando bola, brincando, um pessoal no tênis, outro no futebol, uns jogando seu xadrezinho. Internet de graça. Lanche da tarde (cachorro quente e refrigerante) a R$1,20. Nada mal. Música ambiente. As coisas parecem funcionar por lá. E depois, pego uma hora de trânsito para voltar para casa.
Primavera do Livro Sábado, dia 20:
11 horas: "Literatura e Loucura"
Samuel Leon, José Paulo Fiks, Juliano Garcia Pessanha etc.
15 horas: "Livros-Reportagens"
João Eduardo de Oliveira, Dirce de Assis Cavalcanti, Ivan Finotti, Percival de Souza etc.
17 horas: "O Realismo na Prosa Contemporânea"
Heitor Ferraz, Manuel da Costa Pinto, Priscila Figueiredo, Vilma Arêas etc.
19 horas: "A poesia Morreu e Fui Eu que Matei"
Joca Reiners Terron, Carlito Azevedo, Fabrício Corsaletti, Glauco Mattoso etc.
Domingo, dia 21:
11 horas: "A Literatura Infantil: Leitores e Mercado"
Marcelo Duarte, Heloísa Prieto, Toni Brandão etc.
15 horas: "Revistas Literárias"
Aluizio Leite, Fabio Weintraub, Paulo Werneck, Tarso de Melo etc.
17 horas: "Lula: O Que É Isso, Companheiro?"
Ivana Jinkings, Marilena Chauí, Plinio de Arruda Sampaio etc.
19 horas: "Processos de Criação: Depoimentos"
Nelson de Oliveira, André Sant'Anna, Clarah Averbuck, Evandro Affonso Ferreira, Ivana Arruda Leite etc.
2.9.03
Vou te contar o que é Primavera Neste mês de setembro, acontece em São Paulo (e no Rio) a Primavera dos Livros. Vale a pena ficar de olho na programação. Logo que eu tiver mais informações, coloco aqui.
- - - São Paulo: de 18 a 21 de setembro, das 10 às 22h; grátis. Centro Cultural São Paulo. - - -
E os contemporâneos É razoável que os alunos de Letras não leiam os contemporâneos? Que chamem de contemporâneos o Guimarães Rosa e a Clarice Lispector? Assim como escrever sua própria ficção, acredito que ler os contemporâneos ajuda os alunos de Letras a ter a Literatura mais radicalmente ligada a suas vidas. Talvez, como em tudo, eu é que caia no discurso vazio. Para mim, no entanto, discurso vazio é a tentativa, sempre repetida nos corredores das Letras, de formar um país de leitores quando nem os professores de Literatura lêem a literatura que se faz. Nem os professores de literatura formados nas melhores universidades. Não se forma um circuito literário que se sustente sem a participação desses caras.
1.9.03
O mundo está acabando aí também? Atchim...
Aqui e ali Dado certo gosto pela mudança, tenho a impressão de que o Paraíso não é uma coisa, é um montão de coisas.
E o Inferno é frio, tenho certeza!
Sexo Começo a partir dessa segunda um processo de imersão em trabalho formal como há muito não acontecia na minha vida. Segunda a sábado. Se eu sumir por um ou dois dias, aviso já, volto logo. Espero.